terça-feira, 7 de março de 2017

SNATCH e a bicicleta laranja


Roubaram a bicicleta do Martin no estacionamento do super-mercado. Não, o idiota aqui não havia trancado a bicicleta. Tínhamos saído de manhã para comprar uma broca na Leroy-Merlin, eu e a Nina na bicicleta da Lu (que tem cadeirinha) e o Martin com sua BMX. Na volta passamos no super-mercado para comprar um saco de aveia para empanar frango para o cardíaco que vos escreve, de onde voltamos a pé, bem, eu empurrando a bicicleta da Lu com a Nina na cadeirinha e o Martin sem bicicleta nenhuma e com cara de bunda.

Saindo de casa nem pensei em levar um cadeado. A bicicleta da Lu é uma super holandesa com câmbio de sete velocidades no cubo da roda, cestinha alemã e selim gourmet inglês. Vale o dobro do que vale a minha (e tem cinco vezes mais peças), mas tem também um cadeado embutido. A BMX do Martin é de procedência desconhecida. Estava jogada no jardim da casa que alugamos em Barcelona, vi nela potencial para uma reforma para quando o Martin tivesse tamanho, e a trouxe para a França na mudança. Aqui a reformei faz um par de anos, mas por reforma entende-se, desmontar, limpar, pintar, trocar o selim, câmaras e as manoplas, e montar de novo. O maior investimento foram os 8 euros da lata de tinta laranja. Ficou massa, mas não vale muito, não muito dinheiro, mas nessas horas dinheiro não compra honra. Fiquei PUTO! Puto com o idiota que rouba a BMX de uma criança e puto com o idiota que saiu de casa sem um cadeado de bicicletas naquela manhã. E não foi por falta de cadeados! Tenho pelo menos três!

Voltei pra casa fumegando... e pensando.

Roubo de bicicleta é um esporte mundial. O que faz da bicicleta o meio de transporte urbano ideal, o fato delas serem leves, rápidas e dispensarem burocracia como licenças e registros, faz também que bicicletas sejam ideais para serem roubadas. Nunca vi estatísticas a respeito (UAU!) mas por estar no meio chuto que bicicletas sejam roubadas pelos seguintes motivos:

O Estudante

Sem dinheiro e sem escrúpulos o estudante precisa de um meio de transporte urbano leve, rápido e sem registro para ir de seu muquifo à universidade, da universidade ao café, do café ao bar, do bar ao muquifo. Esse tipo de meliante tende a roubar bicicletas urbanas típicas e dificilmente identificáveis, aqui na França as velhas Gazeles, Motobecanes ou Peugeots que decoram todos os postes dos centros urbanos, ou as novas Btwins, que pouco a pouco vão substituindo as marcas mais clássicas (e mais bonitas). No Brasil seria uma entre as muitas marcas a venda no Carrefour e que já deixaram de existir depois que descobriram fraudes fiscais e fecharam suas fábricas CKDs, mas que pouco a pouco vão sendo também substituídas pelas Btwins. Bicicletas pouco personalizadas e de produção seriada são virtualmente impossíveis de serem recuperadas uma vez roubadas pois é impossível comprovar que ela é ou foi sua. Em contra partida, o estudante que usa uma bicicleta roubada dificilmente vai trancar sua bicicleta, o que abre caminho para um programa extra-oficial de "bike-sharing" universitário. Ah! os tempos universitários, quando as bicicletas - e parceiros(as) - eram de todos e de ninguém!

O Picareta

Não necessariamente sem dinheiro, mas certamente sem escrúpulos, o picareta rouba bicicletas para canibalizar suas peças. Além de leves, rápidas e sem registro, bicicletas têm também a vantagem se serem relativamente baratas e usarem peças relativamente baratas, e por isso existe um enorme mercado de up-grade/personalização/gourmetização de bicicletas, focando em acessórios, selins, peças de carbono, etc. Note que quando digo barato não estou comparando com o segundo melhor meio de transporte urbano, o sapato, comparo com o sexto melhor, o automóvel. Se você passa muito tempo em seu automóvel e por isso resolve trocar seus bancos por bancos melhores, recobertos por couro inglês, gravados e moldados a mão sobre uma estrutura de aço cromo-molibdênio ao mesmo tempo leve e resistente, você provavelmente vai ter que vender seu automóvel para dar entrada nos novos bancos. Com uma bicicleta você simplesmente vai na internet e compra um selim da Brooks por cenzão e resolvida a questão. O problema é que a partir daí você nunca mais vai poder estacionar sua bike no centro sem correr o risco de voltar para casa com uma solução dolorosamente menos anatômica que um selim, justamente por causa do bike-picareta. Poucos bike-picaretas roubam bicicletas para vender pois bicicletas que têm algum valor no mercado de usados são também relativamente raras de serem encontrar no mercado de usados, e o bike-picareta sabe que se tentar vender uma Cinelli ou uma Vitus no eBay, o primeiro comprador interessado será o antigo proprietário que vai certamente buscar a bicicleta com um carro de polícia.

O Cigano

Assim como a vida não é filme, o cigano não é aquele homem com um olhar misterioso, cabelos brilhantes e postura imponente, que sapateia ao som de guitarras flamencas rodeado por mulheres voluptuosamente sexies. Se a vida fosse filme, seria provavelmente o filme Snatch(2000), mas trocando o Brad Pitt pelo Matheus Nachtergaele.



A relação entre o cigano e o roubo de bicicletas pode ser entendida se entendermos a relação entre os ciganos e os bens materiais em geral. O bom cigano não tem vínculos afetivos com nada que não seja de ouro ou da família (o cachorro sendo claramente classificado como família). Tal característica é facilmente comprovada quando se vê o que resta de seus acampamentos quando eles resolvem partir (quando são expulsos de onde estão): móveis quebrados, colchões mijados, carros incendiados e esqueletos de bicicletas são itens comuns a serem deixados para trás. Materialismo 0 x Praticidade 10. Tendo isso em conta, imagino que ao contrário dos outros meliantes anteriormente descritos (o estudante e o picareta) o cigano não sofre de falta de escrúpulos, ele apenas não consegue entender a relação doentia de amor e ódio que nós, cidadão conformes, temos com nossos objetos. Como é que somos capazes de amar nossos iPhone3 um dia, e o odiarmos no outro, a ponto de troca-lo por um iPhone4, ou 3GS? Não é falta de escrúpulos, é incompatibilidade de valores. Cigano vê bicicleta, cigano pega bicicleta. Cigano não quer bicicleta, cigano larga bicicleta. E zuzubem!

Ao chegar em casa, depois de muito pensar sobre o roubo da BMX, eu já tinha o crime esclarecido em minha cabeça. Estudante não foi pois além de eu morar longe do centro (seu habitat preferido) eu não acredito que a BMX laranja seja a escolha mais adaptada às suas necessidades. Além de pequena e desconfortável, chama muita atenção. Picareta, dificilmente! O banco da bicicleta da Lu que estava estacionada ao lado da BMX vale quatro vezes a BMX, e nem sequer tentaram mover a bike da Lu. Fora o quadro recém pintado de um facilmente reconhecível laranja fosco, todas as peças da bike do Martin estão ou amassadas ou riscadas ou enferrujeadas, coisa que para uma BMX só aumenta status, mas para um picareta não agrega nenhum valor.

Só podia ter sido um cigano!

O cigano é uma instituição, estão por toda parte, são in desejados e inevitáveis, mas estão por aqui faz tanto tempo que já são parte da paisagem. Não são um fenômeno Francês, são um fenômeno Europeu. Não sei como o resto da Europa trada deste "problema" mas os Franceses tratam da mesma maneira que tratam todos os outros problemas, assim:

Cada cidade com mais de 5000 habitantes tem, por lei, uma área para receber o que eles chamam de "população itinerante". A lei foi claramente criada com os trabalhadores itinerantes em mente, gente que trabalha em demandas sazonais como colheitas manuais ou grandes projetos de construção civil mas, na prática, essa gente acaba pagando por campings para ficar longe dos ciganos que, normalmente, transformam estas áreas em terra de ninguém (e de todos, como uma república estudantil). Assim sendo, para evitar problemas com a população (que não gosta dos ciganos) e com a lei (que não gosta de ciganos), as cidades criam estas zonas em locais de acesso restrito, fora da vista de seus cidadãos. Coincidentemente ou não, tem uma zona destas aqui pertinho de casa, tão bem escondida que eu nunca tinha visto, não fosse pelos ciganos que muitas vezes perambulam pelo supermercado, e pela placa de trânsito apontando o caminho:



Esse é a placa oficial, normalmente a gente percebe que está perto de uma área destas por causa destes sinais:

Ou desses:
"NÃO! ao projeto de àrea para dente itinerante..."

Bem, pois enquanto os políticos fingem resolver problemas, o papai aqui precisava recuperar a bicicleta do seu filho. Uma questão de honra!

Depois do almoço peguei o carro e fui procurar esses ciganos malditos! O plano era tentar encontrar a bicicleta observando a uma distância segura, e se a situação permitisse, recupera-la imediatamente, se não desse, dar queixa e voltar com a polícia (se a polícia tivesse tempo para mim).

Vesti minha jaqueta preta, coloquei uma toquinha de bandido e levei o Martin comigo para que me ajudasse na observação e para garantir que meu instinto paterno não me deixaria meter-me em uma encrenca de maiores proporções. Fomos primeiro de volta ao supermercado, com a esperança de encontrar a bicicleta jogada por lá, nada. Ao lado do supermercado tem um estacionamento abandonado invadido por ciganos, demos duas voltas nele observando, e nada. Então dirigi-me à "Aire de Gens du Voyage", seguindo a plaquinha a partir da rotatória do supermercado. Como se vê no pequeno mapa abaixo, a área fica realmente escondida entre o cruzamento de duas estradas secundárias. É possível identifica-la na foto aérea (quadro embaixo à direita da foto) mas passou completamente desapercebida durante os quase três anos que morei por aqui. A foto mostra a via secundária que leva nada a lugar nenhum, a plaquinha à esquerda e a entrada da zona a direita.


Bastou eu embicar meu imponente Renault elétrico no pequeno caminho que leva ao acampamento e imediatamente avistamos dois molequinhos, com uns 6 a 8 anos de idade (difícil dizer dada à estatura frequentemente sub-nutrida dos filhotes de ciganos), rodando em círculos sobre a reconhecível BMX laranja. Passei lentamente ao lado deles confirmando a identidade da bike e entramos no acampamento. Em meio ao acampamento mais crianças brincando e apenas dois homens conversando em um canto. Dei a volta apontando o carro já para a saída e sem desligar o carro saí para o confronto direto com os perigosos desconhecidos:

- Bom dia senhores - disse em meu eloquente Francês - esta bicicleta me foi roubada esta manhã no estacionamento do Auchan (o supermercado).

Os dois homens vieram imediatamente em minha direção explicando, em um Francê tão eloquente quanto o meu, que bem que eles haviam estranhado quando um menino sem braço passou aquela manhã pelo estacionamento deixando para as crianças aquela bela bicicleta. Pediram desculpas e me trouxeram a bike. Eu, em retribuição àqueles agradáveis senhores, pedi desculpas às crianças, que voltariam a ficar sem bicicleta, coloquei a bicicleta no porta-malas e voltei para casa, orgulhoso de mim mesmo, e perfeitamente consciente que tive mais sorte que juízo.

Fato é que apesar de aquela turma de gente itinerante não agir exatamente de acordo, a última coisa que eles querem é encrenca com a polícia. Eles sabem que vivem à margem da sociedade e que ninguém gosta muito deles. A polícia não gosta deles porque dão trabalho. O governo não gosta deles porque vivem segundo suas próprias regras e não dependem do governo. A população não gosta deles porque vivem segundo suas próprias regras e não dependem do governo. É quase que inveja, pois na verdade, aqui, ninguém gosta muito de ninguém mesmo, mas todos dependem do governo e dão trabalho à polícia, seja porque reclamam dos ciganos, ou porque reclamam dos vizinhos que também dependem do governo.

Bem, voltamos para casa com a bicicleta, com mais uma história para contar e com a convicção de que a vida realmente não é filme. Minha mulher ainda imagina que eu enfrentei um cigano do tipo Snatch:


O que realmente enfrentei foi isso:



Se cuidem, e tranquem bem suas bicicletas!

5 comentários:

  1. Escritor "nato", mande para revistas especializadas no "mundo bike"...(kwa49)

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  2. Estou vibrando com a tua *coragem*, Nick. Deve ter sido efeito retardado daquela roupa de *fuper man*.Pois jaqueta preta e touquinha de bandido X Martin a tiracolo, é um paradoxo...rsss
    Ahhhh... e olha o que te rendeu o *benefício da dúvida* (num frances tão eloquente quanto):a GMX de volta.

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