terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

R$4,25 está caro? - Primeira parte


O assunto agora, pelo jeito, é o aumento de preço das passagens de ônibus em Curitiba.

Desde que me conheço por gente, curitibanos se orgulham de ter o melhor sistema de tranporte público do país, mesmo sem muito utilizá-lo, mas não aceitam que o melhor normalmente custa um pouco mais caro.

Calma! Ainda não estou defendendo ou atacando ninguém, por enquanto estou apenas provocando.

Se o sistema de transporte curitibano é o melhor do país ou não eu não sei, mas me dói um pouco o peito imaginar que o melhor seja tão feio, sujo e desconfortável. Pegue as ruas esburacadas, lombadas por tudo, trânsito caótico e nervoso, poupação mal educada a some aos grandes monstros metálicos munidos de velhos motores movidos a um óleo diesel ultrapassado, fica realmente difícil de imaginar um resultado diferente.

A última vez que tentei usar o transporte público de uma maneira sistemática foi em 2009 ou 2010, quando tentei ir trabalhar de ônibus e não consegui sair do terminal da Barreirinha. De minha casa ao terminal poderia ter pego um alimentador, mas resolvi caminhar pois não chovia muito e no fundo a diferença de tempo seria pequena. Do terminal da Barreirinha tinha que pegar o "ligeirinho Tamandaré-Cabral" e no terminal do Cabral trocar para o "Inter2" que me deixaria literalmente na "China", o ponto a uma distância "caminhável" da fábrica onde trabalhava. Chegando no terminal da Barreirinha abri caminho em meio à multidão para chegar na fila do ligeirinho e desisti depois do terceiro ônibus passar e a fila avançar apenas um par de metros pois o ligeirinho já chegava cheio. Calculei que precisariam mais quatro ou cinco ônibus para conseguir entrar em um deles, saí e peguei um taxi.

Imagino que a coisa tenha mudado nos últimos 7 a 8 anos, mas não sei se para melhor ou pior. Imagino também que nem toda linha seja assim e que não sejam assim todo o tempo, fato é que a linha que eu precisava no horario quando eu precisava, não me serviu. Pelo que eu leio a respeito, de lá para cá a rede de transporte teve preços congelados, desintegrou-se com a zona metropolitana, reintegrou-se à zona metropolitana e os ônibus não foram devidamente renovados. E agora, a cereja no bolo, é a nova tarifa de R$4,25.

Se R$4,25 é caro ou barato eu não sei. Aqui em Tours uma passagem integrada (que permite a troca de ônibus/tram) custa 1,50 euros, com a diferença que se você pretende usar somente um ônibus/tram, você pode comprar uma passagem mais barata por 1,30 euros. Mas vamos lá, 1,50 euros são aproximadamente 5 reais, ou seja 18% mais caro que em Curitiba.

Mas porque será que aqui é mais caro?

Começamos com o diesel. Um litro de diesel, hoje, em Curitiba está custando cerca de 2,8 Reais (84 centavos de euro) aqui custa 1,1 Euro, ou seja, o Diesel aqui é 30% mais caro.

Continuamos pelos salários, o salário mínimo anual no Brasil, para 40 horas semanais de trabalho está em 3.660 dolares, na França em 20.071 dolares (fonte wikipedia), para 35 horas semanais. Ou seja, de uma maneira simplista, a mão de obra humana aqui custa mais de 5 vezes mais que no Brasil.

Nossos conhecidos articulados curitibanos


Continuemos com os veículos. No Brasil vocês sabem o que temos. A grande e velha tecnologia dos ônibus. Aqui temos pequenos ônibus elétricos cisrulando no centro, grandes ônibus "low-ride" pela cidade e um bonde super-moderno fazendo o eixo principal norte-sul.

Novo Tram, ou bonde, de Tours
Simpáticos elétricos que rodam pelo centro


Levando em conta outros números (fonte web site da URBS e do equivalente francês Filbleu), uma vez que a população, o número de usuários e as distâncias percorridas não são equivalentes, podemos chegar a um valor comparativo de faturamento por quilômetro:
- Passageiros/viagens por dia: 1.6 milhoes em Curitiba contra 93 mil em Tours.
- Quilometros percorridos por dia: 320 mil em Curitiba contra 28 mil em Tours.

FATURAMENTO POR QUILOMETRO = [Preço de uma viagem] X [número de viagens por dia] / [distância percorrida por dia]


Fazendo uma média bastante simplificada, mas que deve ter um significado real, esses numeros querem dizer que enquanto em Curitiba um ônibus fatura R$21,25 por quilômetro rodado, aqui em tours, um onibus fatura apenas R$16,60. Ou seja que aqui em Tours veículos melhores, mais limpos, modernos e confortáveis, com motorístas mais bem pagos (5x) e diesel mais caro (30%), faturam por quilometro rodado 20% menos.

Uma boa indicação de que ou tem alguma coisa errada com as minhas contas, ou que tem alguma coisa errada com a administração pública de Curitiba.

Um comentário:

  1. Para tentar entender:
    1) Tarifa a pagar pelo usuário: 4,25 dinheiros
    2) Tarifa "técnica " recebida pela empresa de ônibus: aprox. 3,70 dinheiros, com isto pagam reposição de frota, manutenção, combustível, reposição de veículos vandalizados e queimados, salários+encargos, e ainda tem lucro...
    3) 4,25 menos 3,70 = 0,55, (13%) fica com URBS e a Prefeitura, para pagar "muitos funcionários"...

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