quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Les crétins et les lapins


Aqui em Tours 245km dos 400km das vias públicas pavimentadas são ou acalmadas (velocidade limitada a 30 km/h) ou possuem faixa exclusiva para bicicletas ou são ciclovias. Não é a toa que 7% da população economicamente ativa usa a bicicleta para ir ao trabalho.

Aqui, motoristas e pedestres estão habituados com os ciclistas, o que somente aumenta a segurança nas ruas. De fato há estudos que demonstram que o aumento no número de ciclistas nas ruas de fato diminui a incidência de acidentes com bicicletas, pois uma vez que o ciclista passa a ser norma, o motorista passa a antecipar sua presença. Bicicletas deixam de "surgir do nada" como habitualmente alegam motoristas que atropelam ciclistas "acidentalmente". Aqui, via de regra, o respeito e a antecipação imperam.

Mas a estatística diz que onde tem pessoas tem idiotas.

Segunda feira eu voltava do trabalho no final da tarde, pedalando por uma via acalmada (como já disse, velocidade máxima permitida 30 km/h). Eu pedalava forte. Não sei a que velocidade estava pois normalmente não uso "fredometros", mas imagino que estava bem perto dos 30, quando um carro atrás de mim me deu umas buzinadas.

Olhei para trás e notei que a condutora berrava e gesticulava com as mão algo que não fui capaz de compreender. Não falo libras, muito menos em francês. Então mantive minha posição e segui meu ritmo até parar no próximo semáforo.

Parado no sinal, o tal veículo encosta ao meu lado, abre a janela e a senhora vocifera comigo:

- Vous avez une piste cyclable, monsieur, pourquoi ne pas utiliser la piste cyclable?


A senhora evidentemente fazia referência à faixa pintada na calçada com desenhos de bicicletas que acompanha aquele trecho de via, e me perguntava nervosamente porque absurdo eu não a estava utilizando aquele privilégio urbanístico de primeiro mundo, mas meio que querendo dizer "ponha-se no seu lugar e saia da minha frente!".

É precisamente nesses momentos que eu odeio minha falta de fluência no dialeto humano local. Meu cérebro pensou clara e pausadamente "Vous avez une route parallèle, madame! pourquoi n'utilisez-vous pas la route parallèle?", mas de minha boca apenas saiu:

- Vous avez une route parallèle, madame! pourquoi tu num vá pá putaquetepariu?

O sinal abriu antes que a senhora pudesse tentar fazer senso do que eu disse e mais que rápido a cretina saiu acelerando para evitar de ter que andar a 30 km/h atras de uma bicicleta e andar a 30 km/h na frente de uma bicicleta.

Não me levem a mal. Eu normalmente uso as ciclovias e ciclo-faixas disponíveis, inclusive aquelas presentes naquele trecho em específico, mas existem situações quando eu prefiro andar na rua mesmo! No caso do trecho em questão, trata-se de uma ciclo faixa sobre a calçada, o que quer dizer que além de ter que negociar o espaço com pedestres, carrinhos de bebê, árvores e bueiros, é preciso também parar em cada cruzamento e negociar as guias dos meio-fios, que são rebaixadas suficientes para uma mountain-bike, mas não o suficiente para meus pneuzinhos de hipster. Tudo bem se você está passeando domingo com as crianças, mas quando você quer andar rápido é impraticável e perigoso. Na rua tenho a preferencial e vou na velocidade dos carros. É melhor para todos!

Não há uma lei que me obrigue a usar uma ciclo-faixa dentro de uma área calma, quer dizer que eu tenho o privilégio de escolher onde andar da mesma forma que os motoristas podem escolher dar a volta na área calma e exercer seu direito de acelerar suas caixas de aço a velocidades sobre-humanas longe dali (o que na verdade é também um privilégio).

Não sei se o problema é nossa cultura do automóvel, que induz algumas pessoas a acreditarem que seus bens privados de quatro rodas possuem mais direito ao espaço público que um cidadão em duas rodas, ou se é a probabilidade estatística do cretino, inevitável e, ao que tudo indica, em ascensão, mas tem dias que mesmo na minha pequena cidade ciclo-amigável é difícil de manter o otimismo.

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