quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Coordenadas politicas I - Primeira questão, sobre empresas e a sociedade



Me passaram ontem pelo WhatsApp um teste chamado "Coordenadas Politicas" - versão em inglês esta mais para "bussola politica". O teste plota você num gráfico de quadrantes que mede o quão de "esquerda" ou de "direita" você é, e o quão "libertário" ou "autoritário" você é, politicamente falando.

Obviamente, o teste traz assuntos atualmente em discussão no mundo ocidental mas, como acontece em todos os testes deste tipo, falha por forçar respostas fechadas a alguns temas bastante complexos. 
Eu acabei enquadrado no quadrante "libertário de esquerda", porém com uma pontuação quatro vezes mais forte para meu lado libertário que no meu lado de esquerda.

Sem ressentimentos! Eu acho que sempre me considerei um libertário de esquerda, mas tenho que admitir que não gosto da etiqueta. Existe todo tipo de libertários de esquerda! Meu pontinho no gráfico coincide com a pontuação de Nelson Mandela, mas ninguém pode dizer que penso como ele! Me da um pouco de arrepios estar no mesmo quadrante que Noam Chomski, Jeremy Corbyn e Ghandi, mas da ainda mais arrepios de ver qualquer tipo de classificação que nos coloque os quatro em um mesmo quadrante! Em todo caso vale a discussão, e vale a tentativa de viralizar pelo WApp e Fbook um mecanismo, eficiente, apesar de limitado, de educação semântico-politica, coisa que claramente faz falta, pelo menos na minha rede social.

Com o intuito de ocupar meu tempo e de compensar as falhas e limitações de aplicativos simplistas, minha ideia aqui é discutir questão por questão, uma vez que muitas delas não permitem um posicionamento fixo nem uma pontuação fácil. Comecemos pela primeira pergunta:

Pergunta: No fundo, existe um conflito entre os interesses das empresas e os da sociedade.
Minha Resposta: NÃO!
Bem, no fundo não, mas na prática sim.

Empresas existem, para fazer dinheiro negociando produtos e serviços. A sociedade precisa de - ou deseja - produtos e serviços com adequada relação qualidade/custo e as empresas querem uma sociedade próspera para melhor crescerem também. Equilíbrio é a palavra chave, e eu, particularmente acredito, ainda, que a livre concorrência é chave para atingir e manter o equilíbrio.

Tudo muito bonito no campo poético, ideológico e teórico. Mas o mundo em que realmente vivemos não é este. Ele esta cheio de seres humanos.

Um categórico "SIM" a essa questão (SIM, existe um conflito) seria ignorar este interesse comum entre a sociedade e empresas. Seria um pouco hipócrita, e também cego a todos os avanços sociais atingidos nos últimos séculos, em parte alcançados pela livre concorrência entre empresas. Por outro lado, um categórico "NÃO" seria uma grande ingenuidade se você se posiciona no papel de "sociedade", ou simplesmente maquiavélico, se você se posiciona no papel de "empresas".

Os problemas começam quando o lado "empresas" começa a manipular as regras do jogo através de seus diversos mecanismos de poder. A corrupção direta é, talvez, o mecanismo mais evidente, mas existem muitos outros mecanismos amplamente utilizados, e muitas vezes dentro da lei vigente: lobismo, financiamentos de campanhas e partidos (leia-se troca/comércio de interesses), pressões trabalhistas, cartéis, guerra de informação e desinformação, manipulação midiática, etc. Tudo isso acontece todo o tempo e é importante criar mecanismos e legislação que governem este equilíbrio. Mas cabe ao governo fazer isso? Não é essa a pergunta, mas minha resposta seria "não necessariamente", mas se for, que seja através de um legislativo e judiciário verdadeiramente independentes.

Eu tenho uma forte tendência a acreditar que o governo (executivo e legislativo) deve estar o mais longe possível das empresas sem perder de vista suas necessidades econômicas e legais. Ou seja, isso não significa que o governo não deva direcionar o desenvolvimento econômico do pais, nem que a legislação não deva ser constantemente revisada para permitir o desenvolvimento, mas o governo não deveria se misturar aos empresários. O que quero dizer é que acredito que dinheiro privado não pode entrar na politica que não seja na forma de impostos. Doações privadas ao governo e a campanhas, financiamento de campanhas, doações a partidos políticos e sindicatos, vejo tudo isso como um mecanismo corrupto de funcionamento e não deveria ser legalmente e moralmente aceitável. Se queremos um governo para TODA a sociedade, precisamos de um governo para TODAS as empresas, sem privilégios nem rabos presos.

Porque então o meu "NÃO" como resposta. Porque acho que o conflito de interesse não esta realmente entre empresas e sociedade. O conflito esta, e sempre estará, entre as empresas, ou entre setores empresariais.

Não ha nada de errado que os interesses da BMW entre em conflito com os interesses da Renault, ou que os interesses da Shell entre em conflito com os interesses do Greenpeace. isso é absolutamente normal e necessário. O problema é quando qualquer uma dessas empresas começa a utilizar seu poder de persua$ão para guiar o governo para um lado ou para o outro.

Então? Sera que estamos fadados a governos e empresas corruptas por conta da natureza humana?

Sim, eu acho que estamos. Mas a que grau permitiremos que isso aconteça depende somente das nossas leis, regras e sistemas jurídicos. Mantenha financiamento particular de campanhas, manteremos os rabos presos, mantenha lobismo desenfreado, manteremos politicas tendenciosas, mantenha impunidade parlamentar, manteremos governantes governando em beneficio próprio, mantenha um governo centralizador, manteremos uma maquina grande demais para manter controlada, mantenha atual sistema eleitoral, manteremos campanhas eleitorais baseadas em marqueting e não em propostas de trabalho. Mantenha as coisas como elas sempre foram, os resultados serão iguais ou piores.



Falei merda? Falei pouco? Entre na discussão!

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