sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Coordenadas politicas II - A imigração deve ser minimizada e estritamente controlada?



Imigração, assunto quentíssimo aqui na Europa e nos Estados Unidos, e sobre o que, não sei bem porque, se tem falado muito também no Brasil. Ou estou por fora (fato) ou a discussão politica segue a moda internacional.

Primeiro devo deixar claro que reconheço perfeitamente que falo de imigração como um imigrante. Minha saída do Brasil não foi a passeio, foi porque não queria mais viver e criar meus filhos no Brasil, o que me leva a acreditar que estou mais para um imigrante social que para um expatriado. Sim, gozo de vantagens que a imensa maioria dos imigrantes não têm, mas ainda acho que isso esta mais relacionado à sorte que ao fato de eu ser ou não um imigrante.

Sou também filho e neto de imigrantes. Meus dois pais nasceram fora do Brasil. Meus avos paternos e maternos saíram da Europa, com seus filhos, poucos anos depois da 2a guerra mundial, em busca de uma vida melhor. 100% imigrantes.

Mas, no Brasil, quem não é? Faz tempo que não compro um Almanaque Abril mas lembro bem que o ultimo que comprei colocava perto de 1% a proporção de "indígenas" na população Brasileira. Isso quer dizer que o outro 99% é composto por imigrantes e imigrados, seus descendentes, e a grande misturança que resultou de tudo isso.

Se pensarmos bem, o termo imigrante não pode ser usado sem um marco referencial completamente arbitrário. Podemos escolher colocar o marco tão perto do presente quanto a emissão de um passaporte ou de uma certidão de nascimento, ou tão longe quanto a proclamação da republica, o descobrimento ou, porque não, a primeira grande saída da Africa a 125 000 anos atras? A historia humana, e a historia da vida em geral, é marcada pela migração. Isso não é algo novo e nem deveria ser visto como causa raiz de um problema. Na minha opinião devemos ver a migração como uma expressão da liberdade de movimento, liberdade essa que na vida real nos foi retirada por questões politico-administrativas e reforçada por, sejamos francos, xenofobia, racismo, choque cultural, egoismo, medo, orgulho, etc.

Não estou dizendo que quero que se abram as fronteiras em nome da liberdade, apenas defendo que a migração não deve ser vista como um problema, mas como uma consequência. O problema esta no que causa a migração forçada, na forma de organização social na qual nos encontramos e na dificuldade de acomodar nossas liberdades a esta forma de organização que, na minha opinião, começa a estar ultrapassada.

Fronteiras politicas, linhas imaginárias com o proposito de demarcar áreas administrativas, já são  completamente permeáveis à comunicação. A globalização da economia pode não ter ainda transcendido completamente estas fronteiras em termos comerciais, fiscais e microeconômicos; mas já o fez a muitos anos em termos macroeconômicos, econômico-social e, principalmente, ambiental. Acredito que também já podemos dizer com certa segurança que o até o mercado de trabalho começa a ignorar tais demarcações.

Eu sinceramente acredito que temos os meios e os recursos para gerenciar a migração humana em grande escala. Temos a tecnologia para projetar um iPhone na Califórnia, monta-lo na China, produzi-lo a partir de componentes e minerais do mundo todo em varias partes do mundo, e vende-lo no Brasil por 2 mil reais, mesmo pagando impostos e taxas ao longo de toda a cadeia, mas não queremos lidar com um estrangeiro procurando uma vida melhor? Por favor! cair na real! Eh bem verdade que nossa provada incompetência em montar um governo que funcione e que seja verdadeiramente capaz gerenciar os recursos de uma das maiores economias do mundo, provendo serviços de qualidade para toda a população, não ajuda nem um pouco no dever de aceitar a liberdade migratória de nossa própria especie, mas não posso aceitar que incompetência sirva de desculpa para irresponsabilidade moral.

Enquanto na Europa a imigração é discutida em três eixos relativamente independentes mas igualmente sérios, o eixo econômico, o eixo cultural e o eixo segurança nacional, entendo que no Brasil existe somente a preocupação econômica. Nosso sincretísmo cultural e nossa irrelevância na política internacional nos livra dos outro dois eixos com louvores. Não podemos transformar algo que não é um problema em um problema, porque não somos capazes de resolver nossos problemas internos.

Se o mundo continuar caminhando rumo à catástrofe climática anunciada a décadas, o que parece que vai, a migração humana vai também aumentar. A hora de aprender a lidar com ela é agora. Depois vai ser ainda mais complicado.

3 comentários:

  1. A vantagem de tua situação atual de trabalho é que você tem tempo de escrever....ótimo! Este artigo está muito bom!
    Mas uma pequena observação: faça frases mais curtas. Use mais "pontos", e menos "virgulas".

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Diarreias mentais não podem ser freiadas pelo formalismo da gramatica! Hahaha
      talvez meu problema seja ser fã do Saramago sem ter o mesmo talento!

      Excluir