quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Retiro espiritual - POSFACIOS - Balanço espiritual

Pequeno balanço espiritual pós retiro...

Dentro da definição 16 


Dormindo em campings à beira do rio ou, por vezes, em ilhas fluviais, e subindo as encostas durante as frias manhãs, senti o clima do Vale do Loire na pele e vi com meu olhos como que as águas do Loire se transforma em uma fina névoa, a cada manhã, que suavemente fornece a pouca e delicada umidade necessária nos dias mais secos e quentes do verão, refrescando as vinhas sem afogar os vinhedos. Rodei sobre a terra calcaria do alto do vale, subi por morros de sílex da Nièvre e baixei pelas terras arenosas do Loire Atlantique. Respirei o ar e bebi a água.

Manhã nebulosa em Saint-Thibauld
Vinhedos de Sancerre

Presenciei parte do processo. Pedalei por dezenas de quilômetros de vinhas, merendei cabernet-francs diretamente do cacho à sombra dos vinhedos de Saumur-Champigny. Vi a colheita, manual e automatizada, vi os pallets chegando com garrafas vazias para começar o engarrafamento e, mais de uma vez, vi como trailers-engarrafadores itinerantes passam, de château em château, para que cada um faça e controle, no local da produção, seu próprio engarrafamento.




Uvas de Saumur, colheitqdeirq de uvas, pallet de garrafas e engarrafadora itinerante


Tomei um Borgonha na Borgonha, um Poully-Fumé em Poully-sur-Loire, três tipos de Sancerre em Sancerre, um Chinon deslocalizado em Orleans, mas logo um Chinon em Chinon, um Saumur-Champigny em Anger, um Nantillais de aperitivo em Nantes e um Muscadet Côtes de Grand Lieu de frente para o mar na costa do Atlântico. Faltaram muitos, mas sempre faltarão, em compensação cervejas foram bebidas em momentos de grande sede e até uma cidra bretã encarei ao entrar no que já foi a um dia parte Bretanha.



Acho que da pra dizer que o espirito do Loire foi, se não descoberto, ao menos bem investigado.

Dentro da definição mais tradicional


Concordo com os que sugerem que a melhor maneira de observar nosso próprio espirito é através de técnicas meditativas. Cale o consciente, ignore os estímulos externos, e observe, sem julgamento ou qualquer outra forma de conjectura, as ideias, sentimentos e estímulos que surgem do inconsciente sem tua intervenção e sem nenhum controle. Ponha toda tua atenção no momento presente, no que vem de dentro de ti, mas não pense a respeito, apenas observe. Se teu consciente começa a querer conversar sobre o assunto, volte a concentrar-se no momento e tente cála-lo por completo.

(agora releia o paragrafo anterior fazendo, em tua cabeça, a voz do Sid Moreira)

Para mim, andar de bicicleta tem momentos meditativos, o mesmo acontece quando nado. Controlar o movimento dos braços e pernas, coordenar o empurrar e puxar dos pedais, equilibrando-se sobre uma linha reta imaginaria, jogando o corpo de um lado a outro, observar a pista, flexionar os joelhos para transpor obstáculos, concentrar-se no ritmo respiratório e no pedalar a fim de ignorar a dor e a exaustão. Concentração total no momento. Tudo o que existe é o presente.

Não medi em detalhe, mas pedalei pelo menos 700 quilômetros na semana passada. Certamente metade do tempo meu consciente esteve perfeitamente ativo. Observava as vistas, julgava os momentos, me preocupava com o futuro, lamentava decisões, conversava consigo mesmo, às vezes até em voz alta. Na outra metade tempo, o consciente ficava de lado, tão preocupado com a superação física da atividade do corpo que realmente não tinha muito tempo para me incomodar.

Uma vez calado o consciente, você nota que você não é o seu consciente, ou que, na realidade, você nunca foi o seu consciente. Aquilo que sempre chamei de "eu" é apenas um mecanismo observador no meu cérebro, uma narrativa, que tem pouco ou nenhum controle sobre mim mesmo. O que eu chamo de "eu" é apenas um espectador em meio a um excelente filme, daqueles nos quais você chora quando o verdadeiro protagonista esta desolado e você tem injeções de adrenalina quando o protagonista salta de para-quedas. Talvez isso explique porque cinema, literatura e afins funcionam tão bem. Nós, como seres conscientes, somos tão condicionados a fingir-nos protagonistas em nossas próprias vidas, que não temos dificuldades em sentir-nos da mesma forma vendo um bom filme ou lendo um bom livro.

Em todo caso, a realização do não protagonismo do consciente em nada influencia na ilusão de protagonismo, ela continua perfeitamente funcional, afinal ela é fisiológica e provavelmente inevitável, o que muda é a maneira como vemos e julgamos o mundo e entendemos as pessoas, principalmente, mas também, toda a vida, à nossa volta. Uma vez que se realiza que não existem protagonistas, podemos observar o mundo como real expectadores, e simplesmente apreciamos a realidade.

Acho que é isso que chamam de "paz espiritual".

Brumas de Chinon

4 comentários:

  1. Nada como tomar uns copos de bom vinho, e aí escrever...bonito e profundo!
    K6.7

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  2. que filosófico ....fez bem este retiro!

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    1. Fez muito bem :) Uma senhora viagem com 100% de tempo de descanso. Imagine so!

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