sábado, 1 de outubro de 2016

Retiro espiritual - D7 - Nantes ao mar


O objetivo do dia era sair das proximidades de Nantes e chegar em Pornic, onde, no dia seguinte, a melhor equipe de apoio do mundo chegaria para me resgatar....

... não deu.

O camping estava a uns 10 quilômetros de Nantes. Choveu a noite toda e, como que milagrosamente, as 8:30 da manha, parou de chover de-repente e abriu um solzão (como previam os oráculos da internet).

Aproveitei a brecha e saí, com os sapatos e a jaqueta de chuva ainda encharcados do dia anterior, fui pedalando lentamente para aproveitar o solzinho da manhã e a brisa de meu deslocamento para secar a jaqueta o mais rapido possível.

Castelo dos Duques da Bretanha 

Chegando em Nantes, lembrei-me porquê queria tanto entrar na cidade de bicicleta. Já havia estado aqui com a família e achei a cidade super legal. A parte mais antiga e dominada pelo castelo dos Duques da Bretanha (hoje a cidade naow faz mais parte da Bretanha, mas ja fez), mas saindo deste centro historico, a cidade é super moderna, cheia de construções com arquitetura vanguardista e repleta de ciclovias.

Contador de ciclistas, fui o 326 do dia

A melhor parte da cidade é a Ilha de Nantes, uma grande ilha fluvial onde antigos armazéns industriais e portuários vem dando lugar a um bairro hiper moderno e com muita área de lazer. Não conheco (ainda) todas as cidades de França, mas Nantes, como lugar para morar, deve estar entre os melhores.

Depois e tomar minha dose matinal de cafeina diante do castelo, fui justamente até a ilha de Nantes para rever o elefante mecânico que fica dando voltas por lá. Uma das atrações da cidade são as "máquinas da Ilha de Nantes" e o carrossel, construido por um grupo meio circense claramente inspirados pelas historias de Julio Verne que, não por coincidência, era da cidade.

Genoveva enfrentando o elefante

Neste momento o tempo virou repentinamente, só para demonstrar que milagres não existem. Já deviam ser umas dez e meia da manhã, e entre essa hore e o meio do dia, choveu e parou o tempo todo, nunca o suficiente para encharcar, nem o suficiente para secar.

Saindo de Nantes, um pouco atrasado pois me enrolei um pouco com o elefante mecânico, começaram os problemas.

A bicicleta começou a ficar mais e mais pesada. Não sabia se era a bike ou eu, mas quando paro para verificar, a roda traseira estava completamente bloqueada. Parei, desmontei a carga, virei a bicicleta, desmontei a roda e constatei que o rolamento estava travado. Provavelmente a chuva de ontem (60 quilômetros sob chuva torrencial) lavou a graxa do rolamento e ele foi pouco a pouco se apertando até quase travar.

Genoveva como a casinha ao fundo 

Nessa hora que eu lembrei que eu não somente havia esquecido de trazer oleo e graxa, como havia lembrado que eu havia esquecido já por duas vezes - uma vez antes de sair de casa, outra vez já na estrada, um pouco antes de passar para minha amada equipe de apoio a lista de coisas para me trazer em Tours,  mas na hora de passar a lista pra Lu, esqueci denovo.

Soltei um pouco a pressão no rolamento, dei duas cuspidinhas, e montei de novo, torcendo que fosse o suficiente para a tecnologia francesa da metade do século passado. Alguns quilômetro a frente, depois de almocar e cruzar o rio da costa norte a costa sul por um ferri-boat 'paratodos', a roda engripa de vez e começa a fazer muito barulho. Quebrou alguma coisa.

Ferri com vagas para pedestres, ciclistas e cavaleiros 

Como sempre, depois do almoeco começa aquele vento "rio acima" de matar. E quanto mais perto da costa, mais forte o vento. Consultando os oráculos, hoje fez um vento contra a 17 quilometro por hora. De foder as pernas. E com a roda engripada então, eu so conseguia usar as marchas mais leves da Genoveva.

Consegui parar num barracão na beira do rio onde alugavam bicicletas e caiaques onde me emprestaram um WD40, que faz milagres, que não existem.

Desmontei a bagagem, virei a bicicleta, desmontei a roda, desmontei os cubos de rolamentos - é, não trouxe graxa mas trouxe as chaves para apertar cubos de roda - achei um rolamento quebrado, retirei, limpei, enchi de WD40 fechei, montei, ... , e nessa perdi um tempão. A roda girava, mas fazia um telec-tec-trec preocupante. Nada de se estranhar, faltando uma roda do rolamento e possivelmente com a pista danificada por ter rodado com o rolamento quebrado.

Ainda faltavam 21 quilometros para chegar no final do Loire (no mar) e mais uns 20 descendo a costa até Pornic, e vento ia ficando mais forte. Preocupado, mas sem perder a capacidade de apreciar a vista maravilhosa, comecei a traçar o plano B caso não conseguice chegar em Pornic a tempo de pegar o camping aberto, ou em Saint-Brevin-les-Pins, onde o Loire chega no mar, e onde é oficialmente o final da rota ciclavel do Vale do Loire.

Vista do canal Atlantico do Loire, silêncio total, não fosse um maré com um rolamento fodido

Depois de mais de vinte quilometros de telec-trec-tip-top, e um vento crescentemente agoniante, pude ver de longe a Pont de Saint-Nazaire, a qual, para mim, marca oficialmente o final do rio e o comeco do Mar. Pornic que se foda, vou de taxi, ou andando, chegando no final da rota do "Loire a Velo" considero meu objetivo cumprido.

Dez minutos de telec-tocrs mais tarde, a minha estradinha passa por debaixo da ponte e pouco minutos mais tarde deu para tirar a foto "objetivo cumprido".

Job done! Estou no mar


Mas ainda faltavam 20 quilometros para chegar em Pornic, onde eu sabia onde dormiria, e já beirava as 18:00 - lembre-se que o solstício já passou.

Plano B foi abrir o Booking.com e achar um hotel.

Sábado, fim de tarde, fim de estação, o hotel mais proximo, a menos de 50 contos a diaria, ainda com vagas, ficava a mais 10 quilômetros de onde eu estava. Meio caminho até Pornic. Imaginei uma cama macia com travesseiros, banheiro limpinho, adormecer vendo um filme reba na TV, de cueca, e reservei o hotel.

No final, há males que vem para o bem. A cidadezinha de Saint-Michel-Chef-Chef é tipo uma Matinhos Francesa. Rebinha, mas tem o mar. O interessante são as cabaninhas de pescadores que tem ao longo da praia. Ficam elevadas, tipo palafitas bem altas e, tenho a impressão, que sao acessíveis a pé na maré baixa, e os pescadores passam o meio dia de maré alta isolados dentro delas pescando com redas instaladas em pequenos mastros de madeira. Coisa que nunca tinha visto, e que dao um super charme ao visual do lugar.

Casinha de pesca

Como não cheguei ainda em Pornic, tecnicamente a jornada termina só amanha. Então aproveitei para mais uma revelação espiritual em um restaurantezinho local. Comi um 'Chucrute de la mer', repolho fermentado mas acompanhado por frutos do mar como peixes, mariscos frescos (o que depois de comer os da região, você nunca mais consegue gostar de outro), camarões e outras gosminhas do mar irreconhecíveis, tudo acompanhado por um espirito local: um Muscadet Cotes du Grand Lieu, um  branco com gosto de mar, tão suave que parece um copo de agua gelado na boca de um ciclista sedento, da região de Nantes.

Em com esta, deixo vocês com o meu por do sol de hoje. A praia de Saint-Michel-Chef-Chef e suas cabaninhas de pescadores.


2 comentários:

  1. Foi demais...nao é filhote! Apesar dos contratempos deu tudo certo....bjs

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  2. Viajar sempre é demais e nunca é de mais!

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