terça-feira, 6 de setembro de 2016

Retiro Espiritual - PREFÁCIOS II - Rota pelo Loire e a Genoveva

O circuito "bicicletável" do Loire, começa oficialmente em Cuffy, onde começa o Loire Médio, e desce uns 710 km até o mar. Uma semana é tudo o que tenho como alvará profissional e familiar para dedicar a essa minha pequena aventura de auto-ajuda.  Isso vai dar uma média de uns cem quilômetro por dia. Já fiz, uma vez, um passeio de 120 quilômetros com minha fixa. Fui, voltei e fiquei com as pernas para cima por uns dois dias antes de ser capaz de dobrar os joelhos outra vez (e quando fiz isso ainda não tinha 40 anos). Imagino que uma fixa não seja a bike mais recomendada para fazer grandes passeios, você não para de pedalar, cem quilômetros em fixa são cinco a seis horas rodando o pedal ininterruptamente. Se o joelho não for pro saco, o saco vai pro joelho!

Quebrando a viajem em sete tramos e buscando as cidadezinhas um pouco maiores, onde as chances de encontrar campings, restaurantes e mercados são razoáveis, o circuito fica mais ou menos assim:

Nevers-Sancerre-Orleans-Amboise-Chinon-Angers-Nantes-Pornic, passível de pequenas variações
Campings, isso nos leva à questão BAGAGENS. Se você pretende pedalar durante 7 dias e pretende, nesse meio tempo interagir com pessoas, sentar-se em restaurantes ou cafés para se alimentar, sentir os aromas do campo sem necessariamente sentir o próprio ranço, é prudente levar alguma bagagem, pelo menos umas camisetas e um par de cuecas. E ai começam os compromissos: mais conforto, mais peso - mais peso, menos conforto: barraca, isolante térmico, saco de dormir, capa de chuva, um pouco de roupa, livro, telefone, máquina fotográfica, lanterna, faca, carregador, ferramentas, ... Na minha bike fixa não não tem bagageiro. Se colocar um bagageiro, não tem espaço para pedalar. Pedalar muitas horas de mochila é como tampar o radiador de um chevette -  super-aquecimento na certa. Acho que vamos precisar de outra bike.

Duas opções: comprar ou alugar.

Alugar uma bike de viajem, com um par de marchas e bagageiros, custa o mesmo que alugar um carro, uns 25 euros por dia, mínimo. Imagino que é porque, como bikes não têm registro nem placas, são mais fáceis de serem roubadas. Por 8 dias custaria uns 200 euros. Sinceramente, já comprei bikes por muito menos que isso, usei e saí faceiro. O problema é que uma bike de viajem descente, nova, custa mais de dois mil euros, uma barata da Decathlon, uns 500 euros, e ninguém garante que ela aguente os 700km. Outro problema é que, como diz meu amigo Hercílio, eu gosto de bike "gourmet", o que não tem nada a ver com as baratex da Decathlon fabricadas para serem feias e descartáveis. Para gente como eu só me resta o eBay. Pois então, por 70 euros comprei pelo "leboncoin.fr" (o equivalente ao eBay francês) uma bela relíquia, gourmet, é claro, 100% "fabriqué en France".

Os apresento a Geneviève:


Não consegui desvendar quem a fabricou nem quando, pois a pintura está muito deteriorada e sem desmonta-la não consegui encontrar uma marcação, mas pela mecânica trata-se de uma bicicleta francesa fabricada entre os anos 1940 e 1950. O derailer traseiro, um Simplex Grand Turisme Rigidex, funciona com um pistão que move o derailer paralelamente ao eixo da roda, diferentemente dos sistemas atuais, e a tensão da corrente é mantida por uma mola linear que se prende ao cubo do eixo do pedal. O derailer dianteiro (Simplex Competition Fourchette Carter) só tem nome bonito (e aspecto) pois é completamente manual. Para trocar de velocidade tem que se abaixar e mover uma alavanca diretamente presa ao derailer. Com duas coroas na frente e quatro atrás, a relíquia tem efetivamente 8 velocidades. Para quem anda de fixa 8 velocidades é de bom tamanho. Não pretendo subir os Alpes, a rota do Loire é essencialmente plana. Se aguentar, deve dar.

Com a bike em casa, bastou uma revisãozinha rápida, limpeza e troca de algumas pecinhas excessivamente gastas ou oxidadas, para colocar a Geneviève em ponto de bala. Gastei oito euros em uma nova corrente, 4 euros em outras coisinhas estéticas e aproveitei umas pecinhas do meu próprio cemitério de bikes. A bike já veio com bolsas de viajem da época (impossível saber se são originais ou não) que servirão ao propósito. O selim é certamente original, mas bastante confortável. Pneus (relativamente) novos. Troquei também os conduites e cabos de freio e do cambio traseiro, e montei meus pedais. Apenas resisti à tentação de desmonta-la por completo para uma pintura pois deixarei isso para depois da viajem.

Bicicleta a ponto, vamos aos testes preliminares de resistência. Imaginei que se a bike fosse capaz de aguentar uma semana fazendo meu trajeto para o trabalho,  5x 17 quilômetros de ida e 17 quilômetros de volta, com subidões e descidões, sem ajustes relevantes a se fazer no final da semana (reapertos e desempenos) ela deve aguentar a viajem completa sem maiores problema.

Pois bem, passada a semana, a bike aguentou.

Eu que não consigo mais dobrar o joelho.

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