quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Retiro espiritual - D5 - Chinon a Angers

Enquanto o quarto dia de pedaladas continua bloqueado no Blogger em status "saving", talvez censurado por causa do uso excessivo de palavras chulas direcionadas aos franceses que constroem subidas de areia para bicicletas (putaqueupariu, caralho, buceta, cacete, merda,...  acho que não é isso), vou soltando o quinto dia (É que o quarto já está escrito, não penso em escreve-lo novamente).

Ontem terminei o dia vingando não só os engenheiros de ciclovia franceses, mas o Blogger também. Tomei um Chinon em Chinon, e saca só o visual da fortaleza voltando em direção ao Camping!

Fortaleza de Chinon 

Saindo de Chinon, o caminho segue o rio Vienne até sua confluência com o?  Loire! De aí em diante se encontram algumas das pequenas jóias do Vale: Candes-Sait-Martin, Montsoreau, Parnay e finalmente Saumur. Saumur é a principal cidade da região e por aqui se fazem os Saumur Champigny. Depois de passar por Montsoreau a rota se abre em duas e te dá a opção de subir em direção aos "coteau", ou seguir o rio até Saumur. Como eu já tinha feito o trajeto pelo rio na última primavera, e ainda era de manhã, quando ainda tinha forças, ressolvi subir as falésias e fazer o caminho espiritual, por onde estão as vinhas de Saumur Champigny. 

Castelo de Montsoreau 

As pernas, as costas e a bunda odiaram a idéia,  mas foi acertado. Além de subir pouco a pouco as falésias, vendo de perto as antigas e modernas casas trogloditas da região, chegando no topo tive uma sucessão de, digamos, momentos de revelação espiritual. Inacreditável, o grande ponto central desta aventura revelando-se por puro acaso diante de meus olhos!

Estava sedento da subida, e logo veio a visão daqueles pequenos glóbulos negros de terra, água e luz. Primeiro vacilei, como qualquer um o faria, logo me deixei levar pelo momento e provei um uma uva para ver se estava boa. Era uma Cabernet-Franc, doce como o céu, a ponto de colheita. Colhi um cacho, lavei (mais ou menos) com o restinho de água que tinha,  sentei-me junto à vinha, e fiz um lanchinho.

Eu e as Cabernet-Francs

Um pouco mais a diante, um grupo de pessoas falando línguas estranhas as colhiam a mão e as condicionavam em engradados vermelhos. Um homem com um pequeno trator recolhia os engradados pouco a pouco. Um pouco mais a diante, outro dois senhores faziam a colheita com uma grande máquina que passa por cima dos vinhedos fazendo barulho de um grande aspirador de pó.  Momento mágico, no qual tive uma grande inspiração: "preciso tomar um vinho!"

Máquina colhendo as uvas

Fato é que todos esses momentos de revelações espirituais me fizeram "perder" muito tempo. Era para eu passar po Saumur antes do almoço, para poder vencer os outros 20km até Gennes ainda antes de almoçar, mas cheguei em Saumur já eram 12:30. Comprei um sanduíche, um suco de laranja e um eclair, e toquei em frente. Parei para o pique-nique em uma cidadezinha encantadora chamada Le Thoureil (sinceramente, essa entrou no meu top 10 da França até agora).

Saumur, para quem chega dos vinhedos
Porto de Le Thoureil 

De le Thoureil em diante foi basicamente um sofrimento ininterrupto para chegar em Angers. O camping, na realidade fica em uma cidadezinha chamada Lês-Ponts-de-Cé, como já conheço Angers não fiz questão de ir até o castelo, mas fiz um pequeno detour até o Parc des Ardoisières, um parque montado numa antiga pedreira de ardósias.

Chão de ardósias, e antigos vagões das pedreiras
Outra curiosidade do dia foi passar duas vezes (ida para o parque, e volta), por um ferri-boat exclusivo para bicicletas. É basicamente um barquinho que você puxa por uma corrente, sobe encima, e puxa outra corrente para chegar do outro lado. É claro que quase deu merda! Embarcar a Genoveva foi fácil, só na hora de desembarcar que esqueci do que Isaac Newton tenta nos ensinar a 350 anos: para toda força aplicada existe uma força de reação de mesma intensidade e sentido contrário. Pois então, barquinho encostado na rampa, soltei a corrente e me coloquei a embalar os 15 quilos de Genoveva mais os dez quilos de bagagens, mais os meus, digamos, oitenta e poucos quilinhos, em direção à rampa do embarcadouro. Pois Newton estava certo, eu e a Genoveva para um lado, barquinho para o outro. A roda da frente e meu pé esquerdo no embarcadouro, roda traseira e meu pé direito no barquinho, um metro de água entre os dois, eu uma bela pose de Jean Claude Van Damme. Sorte que minhas mãos estavam no guidão e tive o reflexo de freiar as duas rodas ao mesmo tempo. Genoveva virou a única ligação entre a balsa e terra firme. Apoiando-me nela consegui desajeitadamente trazer o barquinho devolta ao embarcadouro e terminar o dia mais ou menos seco.

Maldita balsa, depois do quase-acidente

Pois bem, cheguei ao destino final, tomei um banho restaurador, achei um restaurante acolhedor, pedi um filé a milanasa com talharin ao pesto (sim, era um italiano) mas, adivinhem, com uma meia garrafa de Saumur-Chapigny para acompanhar! Dos deuses!

Agora os teclo do conforto de minha cabana. Foda-se essa história de dormir apertado no chão duro! Por 15 euros a mais fiz um upgrade essa noite e essa noite tenho direito a cama!

Meu palacete para esta noite!

7 comentários:

  1. 15 Euros bem investidos.....boa noite! K6.7

    ResponderExcluir
  2. Tou adorando esse diário de viagem. Não pedalo,pois mobilidade urbana nunca fez parte do planejamento local. Não bebo vinho. Não acampo. Não tenho condicionamento físico. Mas os teus relatos são tão ricos e inspiradores, que estou vivenciando esse "retiro" como se fosse meu. Bjs Iara

    ResponderExcluir
  3. Estou adorando os relatos... e o de hoje.... gostei da parte da balsa, rica detalhes fiquei imaginando sua pose e sua cara kkkkkk

    ResponderExcluir
  4. Estou adorando os relatos... e o de hoje.... gostei da parte da balsa, rica detalhes fiquei imaginando sua pose e sua cara kkkkkk

    ResponderExcluir
  5. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  6. Maravilha, a pesar de estarmos todos com saudades estou feliz por você. Beijim

    ResponderExcluir