segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Retiro espiritual - D2 - de Sancerre a Jargeau

À noite sofri de dor nas pernas e delirei a noite inteira. Acordei com a Nina gritando "Papaaaaai", como ela normalmente faz, pontualmente às 6:45. Levei meia fração de segundo para perceber o deeconforto da merda da barraca, e o travesseiro inflável apertando minhas bochechas como fazia minha tia Maria Celine quando eu era pequeno e rechunchudo.

Devorei o resto da pizza e me arrumei para sair cedo,  até que meus amigos da barraca vizinha me convidaram para tomar um café com eles e não resisti. Saí atrasado, às 9:30.

Meu amigo Georgito

A primeira parte do dia ainda tem muito a ver com os canais. Estes canais do Loire tem mais de 100 anos, e é lindo de ver a Engenharia das comportas e esclusas. 

Comportas dos canais paralelos

Pouco antes de chegar em Briare, onde o canal pira para o Norte em direção a Paris, tem um trecho onde dois canais andam em paralelo com a ciclo-pista no meio. Um canal baixa pouco a pouco através de umas quatro eclusas até desembocar no Loire, é o outro cruza o Loire por cima, por uma ponte do tamanho de duas torres Eiffel.

Ponte fluvial do Loire
Esta ponte está em Briare, uma cidadezinha tipo porto fluvial muito simpática,  com restaurantes flutuantes onde você pode comer enquanto passeia pelos canais, e um belo e pacato porto. No porto almocei bochechas de porco com purê de batatas, e lembrei de meu maldito travesseiro inflável.

De Briare a rota ciclável faz um desvío absurdo para contornar uma usina nuclear e volta ao Loire em Gien, cidadezonha que ostenta um belo castelo. Passei direto pois o tempo estava curto.

Torre de resfriamen

Gien
De Gien a diante o circuito foi praticamente todo off-road. Bonito, tranquilo, mas meche demasiado os ovos. Naquele momento eu já tinha totalizado Uns 150 quilómetros e meus pobres ovinhos já começavam dar sinais de omelete. Apressado para chegar no camping antes das 19:00, tive que fazer aquela bochecha de porco render uns cavalos vapor, mas não sem antes passar em Sully sur Loire para ver seu magnífico castelo e tomar uma cervejinha.

Castelo de Sully sur Loire

De Sully a Jargeau, foram 20 km que passaram até que rápido, acho que meu metabolismo começa a se acostumar com a idéia de transformar cerveja em cavalo vapor. Cheguei às 18:00 no camping. Tempo para montar a merda da barraca, tomar um belo banho e procurar um bom restaurante para jantar e provar os espíritos locais, o Orleanais.

Jargeau

Jargeau é até que simpática, o centro histórico é pequinininho, mas bonitinho. O problema foi encontrar um restaurante aberto. Entrei numa panificadora (coisa que aqui na França vende somente pão, nada mais) comprei o café da manhã de amanhã e perguntei onde podia encontrar um restaurante aberto. Me disseram que se o chinês da pratinha estava fechado, nada mais estaria aberto. Eu, que tinha acabado de passar pela praça e já tinha confirmado que o chinês estava fechado, comecei a pensar em meus ovos, uma omelete ia bem de janta. Mas saindo da panificadora noto o belo hotel em frente, cinco estrelas, com adesivinho Michelin e tudo, e um restaurante!

Por dois segundos penso se minha roupa seria apropriada (levo sapatos de ciclismo, uma calça impermeável de nylon e uma camiseta de algodão orgânico da Decathlon) mas entro mesmo assim. Na mesa a minha frente um cara janta de terno, claramente viajando a negócios, à minha direita um casal de senhores falando algum idioma nórdico, o cara de sandálias e meias, a senhora de pantufas e calças de Nylon. Tô bem!

Jantei um Tartar de algum peixe desconhecido de entrada e um belo pedaço de carne mal passado, mas que dava pra passar no pão, de tão macio. O espírito teve que ser um Chinon pois eles não tinham o local Orleanais em meia garrafa (que absurdo!), mas tudo bem, em dois dias estarei acampando em Chinon, e como Chinon já foi, tomarei um belo Bourgueil, ou um Saint-Nicolas de Bourgueil, para compensar.

A conta deu 39 euros, menos que um almoço mequetrefe no pátio Batel.

Em Jargeau, por um momento achei que tinha pedalado mais que a conta. 

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