terça-feira, 30 de agosto de 2016

Retiro espiritual - PREFÁCIOS I - La Loire, Nirvana e onde estou agora mesmo

Primeiro, um pouco de cultura inutil...

"La Loire" é o rio mais longo da França. Nasce na comunidade de Sainte-Eulalie, aos pés do monte Gerbier de Jonc, a 1400 metros de altitude, e pouco mais de 1000 quilómetros depois, desemboca no Golfo da Gasconha, oceano Atlantico. Geograficamente é dividido em tres sub-bacias hidrograficas, Loire Superior, de suas nascentes até Cuffi, Loire Médio, de Cuffi até Candes-Sait-Martin, e Baixo Loire, dai até o estuario.


Loire proximo a suas nascentes no monte Gerbier de Jonc (Wikipedia)
Ponte de St Nazaire, ultima ponte a cruzar o La Loire (Google Imagens)

O Loire médio e baixo, região chamada de Vale do Loire, é o trecho mais conhecido. Reconhecido como patrimonio mundial pela UNESCO é densamente decorado por belíssimos castelos, cidades históricas e, principalmente, vinhedos de excelente qualidade.

Principais regiões viniculas da França

Apesar de não gozar do mesmo reconhecimente internacional que os vinhos das regiões de Bordeaux e Borgonha, os vinhos do Vale do Loire merecem toda a atenção de quem busca e aprecia as experiências sensoriais do vinho. Tocando a Borgonha a leste e o mar à oeste, a variedade de cepagens e de denominações de origem nao deixam a desejar. Basicamente, a região tem para todos os gostos.


Denominações dos vinhos do Loire

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Agora um pouco de loucura inutil...

Li de um de meus gurus intelectuais, que algumas drogas nos aproximam da realidade pois têm a capacidade de potencializar algumas de nossas capacidades cerebrais e reprimir outras. No seu ponto de vista, a realidade constitui-se unicamente do presente; o passado não passa de memórias e o futuro de expeculações. Sua lógica e, aparentemente experiência, diz que bloquando o constante fluxo de informações processadas pelo nosso cérebro consciente, aumentamos nossa percepção da realidade (do presente) pois a percebemos sem todo o caos de julgamentos e conjecturas que caracterizam nossa consciência.

Segundo superstições orientais, o ápice deste estado mental é o Nirvana, é a supressão dos sentidos, da consciência, do material, quando realizamos que o sofrimento somente existe em nosso consciente e que nosso consciente não passa de uma ilusão formada por processos mentais, e nos permitimos, finalmente, a felicidade.

Claro, há controvérsias.

Outras técnicas de meditação buscam silenciar o consciente (o chato que vive dentro de nossa cabeça e não nos deixa em paz) justamente atravéz dos sentidos. Treina-se a concentrar-se apenas em uma sensação específica até que sejamos capazes de ignorar todo o resto (perturbaçoes vindas de outros sentidos e, principalmente, conjecturas do consciente) e uma vez isso feito, isola-se este sentido e desliga-se qualquer fluxo mental. Diz-se que neste momento, no momento em que cessa todo o fluxo de pensamentos, o consciente, o "self", que é justamente este fluxo de pensamentos, desaparece momentaneamente de nossa cabeça. Diz-se que este momento "self-less" é o tal momento de transcendência, quando percebemos que a "primeira pessoa" que pensamos existir em algum lugar atrás de nossos olhos e entre nossas orelhas, deixa de ser relevante para nossa experiência, e nossa experiência entra finalmente em confluência com o resto do universo real.

Mas, claro, há controvérsias.

Seguramente o vinho não é a droga mais recomendada para atingir o Nirvana mas, porque não? Um vinho é o delicado resultado da interação entre terra, água da chuva, sol e vida, em sua forma vegetal, animal e fungi. A história da terra define o solo, a históra da vida, os ingredientes e a história do homem, o processo. O vinho e o passado, a história, o micro-clima, tudo sintetizado em um copo, em realidade líquida, para ser e saboreada e sentida, e o álcool é uma droga capaz de eliminar memórias, e desacelerar o pensamento. Combinação perfeita?

Claro, há controvérsias. 

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E o que tem tudo isso comigo?

Fazem 15 anos que não preciso procurar emprego.

Estudei engenharia porque física, em meu país, nao era uma opção profissional e eu, até então, estava sendo educado para ser um profissional, como a maioria a minha volta. Comecei a trabalhar na área de qualidade porque a primeira boa oportunidade de estágio que tive durante a faculdade de engenharia foi nessa área. Saí da área da qualidade porque, quando decidimos voltar a viver fora do Brasil, a primeira oferta que tive na empresa onde trabalho foi em Barcelona, mas era como chefe de produçao. Como eu disse a todos na época, aceitei porque era Barcelona. Saí de Barcelona não porque eu queria, porque era o mais certo a se fazer. Parte da fábrica onde eu trabalhava estava sendo fechada e 2 terços dos funcionários sendo mandados embora em uma Espanha com 25% de desemprego oficial. Eu amava Barcelona, mas não gostava do trabalho, cedi meu posto com a esperança de aterrisar em outro trabalho melhor, mas acabei aceitando o mesmo trabalho na França, no centro da França em Tours. Uma cidade sem praia, sem o clima Mediterrâneo, sem "chiringuitos", sem latinos, sem a mesma graça.

É claro que nao deu muito certo. Depois de dois anos de um trabalho que eu já não queria mais, o trabalho ja não me queria mais. Meu chefe me chama numa sexta feira a tarde e me diz que em três meses vence meu contrato e ele não tem a intençao de renova-lo. Três meses se passaram e ainda nao tenho outra proposta. Não sei o que vou fazer. Pior, não sei o que quero fazer. O pouco que sei, é que em Tours, não devo ficar. Não tem muito trabalho para mim aqui, e por alguma razão, não estou muito feliz em ir. Aprendi a apreciar este lugar.

Dizem que não adianta voce querer ir a algum lugar quando voce não sabe onde está. Acho que preciso me encontrar. Meditar. Disfrutar deste belo Vale do Loire, beber seu vinho e apreciar a realidade do presente.


Um belo rio com excelentes vinhedos e trajetos próprios para bicicleta. A iminência de ter que deixar este lugar para tras. A necessidade de repensar um pouco a carreira e as escolhas. A constante busca por felicidade.

Isso tudo me soa um belo projeto...

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