quinta-feira, 24 de março de 2016

Acidente: substantivo masculino

rabujada no ercycles:



Hoje eu vinha de bicicleta para o trabalho, descia uma rua de mão dupla a uma velocidade moderada. Dois carros vinham em direção contraria, um atras do outro, quando, a uns 20 metros a minha frente, um esquilo atravessa a rua correndo a partir de minha direita.
Vendo o esquilo, o primeiro carro freia imediatamente para evitar-lo. O segundo carro, que provavelmente não viu o animal, freia um pouco mais tarde, e para evitar a batida, desvia para minha pista.Minha obvia reação foi, na seguinte sequencia: gritar (não tenho buzina), desviar para a sarjeta, parar para em segurança para poder começar a chingar o motorista do segundo carro.
Digo algo como:
- Are you f**king crazy?
A moça abre a janela e diz um pouco consternada:
- Desolé! c'était un accident!
Acalmado pela reação da mocinha explico :
- Não! Acidente é quando você faz tudo certo, e algo inevitável acontece!

Não sei se ela não entendeu meu franco sotaque brasileiro, se não entendeu o que eu tentei dizer, ou se foi o conjunto de tudo isso mais o susto, mas a cara que ela fez foi inconfundível: “Quê diabos me diz este gringo?”. Eu, sem muita vontade de dar longas lições em francês para um motorista parado na contra-mão, dei-lhe um “deixa pra la” e segui meu caminho.

Agora, algumas horas mais tarde, no conforto de meu escritório e usando um idioma que não me da dor de cabeça, não quero perder a oportunidade de explicar um pouco meu ponto de vista.

O que a moça fez de errado? 

Primeiramente não estava prestando atenção ao que fazia porque, evidentemente, não viu o esquilo cruzando a rua. Segundo, é evidente que a distância que ela mantinha do carro da frente não era suficiente para a velocidade na qual eles andavam pois, depois de desviar do carro, ela avançou pelo menos um metro e meio ao lado do mesmo antes de conseguir parar. Terceiro, para evitar danos materiais, ela quase me matou invadindo a contra-mão. Ambos os veículos estavam certamente dentro da velocidade permitida para a via (50 km/h) mas, velocidade permitida não é velocidade recomendada. A velocidade correta depende de muitos outros fatores como, por exemple, presença de outros veículos, animais, pedestres, ciclistas, além de condições de iluminação, umidade da via, visibilidade, etc.

 Mas o ponto não é esse. Meu problema é com o "Desolé! c'était un accident!", o mau uso da palavra “acidente”.

O mal uso da palavra “acidente” não é somente uma implicância minha, é um problema cultural que afeta a percepção de responsabilidade e, consequentemente, de segurança das pessoas. Não sou somente eu que digo isso. Por todo o mundo civilizado essa discussão ja esta aberta.

Usamos o termo acidente por “defaut” quando acidententes são realmente raros. A grande maioria dos incidentes de trânsito ocorrem devido a erros, não devido a acidentes. Erros de conduta de motoristas, ciclistas, pedestres, dos engenheiros que projetaram as vias, ou dos executores da via, manutenção, etc. O problema é que utilizando o termo “acidente” partimos do principio que não existem culpados, eximindo muitos atores de suas responsabilidades.

Carros são coisas perigosas. Um veiculo pequeno, a 40km/h, tem 20 vezes mais energia cinética que uma bala de revolver imediatamente depois do tiro, e apesar disso a imensa maioria das pessoas entramos em nossos carros e aceleramos a 50, 100, 130 km/h sem grandes preocupações. A ironia é que quando falamos de bicicletas como meio de transporte urbano esta mesma maioria de pessoas pensamos imediatamente em segurança. Sim, é verdade que uma bicicleta a 20 km/h também tem mais energia que uma bala de revolver (2 ou 3 vezes mais) mas a verdade é que muito, muito raramente, uma bicicleta vai matar uma pessoa.

Ciclistas morrem, sem duvida, mas raramente matam.

Isso nos faz voltar ao egoismo nato à espécie humana, e certamente resultante do processo de evolução que nos transformou em macacos sobre rodas: prefiro arriscar matar do que arriscar ser morto, mas escondo meu egoismo atras de termos como “acidente de transito” para me sentir melhor comigo mesmo.

Não é consciente, mas é verdade.

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