sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Reaprendendo a andar



Ontem eu consegui cair da bicicleta, sozinho. Era noite, voltando de um treinamento que me consumiu o cérebro e o saco por todo o dia, estava na calçada, nenhum obstáculo, apenas uma subidinha um pouco mais ingrime e uma ligeira falta de atenção. A bicicleta parou, não consegui soltar os pés a tempo, e caput, bici e barbudo pro chão, mas não sem antes levar aquela tradicional pedalada de aço na canela, coisa que quem curtiu a onda do bici-cross na década de 80 lembra bem.

Sábado passado não cheguei a cair, mas na segunda vez em que atropelei meu filhote de 4 anos que ia na minha frente em sua bici ele choramingou: “Papai, porque você fica sempre me atropelando?!”. Da primeira vez ele vinha na minha frente e quando passamos por um trem ele diz: “Papai! Olha o trem!”. Eu olhei o trem e ele parou para olhar o trem... quando me dei conta já estava encima dele. Passei por cima da perninha do moleque o que me custou alguns minutos de colo e beijinhos na perna ferida para fazer ele subir novamente na bici. Na segunda vez, dez minutos depois, num cruzamento, eu digo: “Pare e espere o papai... pode ir! pode ir!”, e ele só parou. Toc: dei-lhe com meu guidão em seu capacete.

O que está acontecendo? Estaria eu ficando velho? Não diziam que andar de bicicleta a gente nunca esquece? Nada! O véio aqui entrou na onda da roda fixa e está tendo que reaprender a andar de bici!

Para os que não tem poesia no coração a fixa é nada mais que uma bicicleta estúpida. Por definição a roda é fixa, ou seja, pinhão traseiro (o que no meu tempo se chamava de catraca) é solidamente fixado à roda (ou seja, não é mais uma catraca), o que quer dizer que se você pedala pra frente anda pra frente, se pedala pra traz anda pra traz, se para de pedalar e a roda traseira segue rodando, te força a continuar pedalando. Para piorar, os idiotas mais radicais (como eu) não poem um freio na bicicleta pois, em teoria, não precisa. A roda é fixa e podemos frear fazendo força no sentido inverso... simples, desde que você tenha um pouco de coordenação motora, força e equilíbrio. É totalmente idiota!


Para os que tem poesia no coração a roda-fixa tem a ver com a beleza clássica da simplicidade, a eficiência estética do “back-to-basic”, do “de volta às bases” (não adianta, alguns termos não traduzem bem!). Na fixa, todo elemento é essencial tanto funcional quanto esteticamente. Nada sobra. Falta nada. Para os que tem poesia no coração a roda fixa é transporte humano. Suas limitações te forçam a manter-se em velocidades humanas. Rodar pra frente é como andar pra frente, rodar pra trás é como andar pra trás. Nascemos sem freios e sem marchas, e com uma carapaça capaz de aguentar somente o stress que nossos próprios músculos são capazes de nos sujeitar.

Para os que tem o coração verde a fixa é ecológica. Segue bem o princípio de “evitar, reduzir e reciclar”. A simplicidade da fixa reduz o processo produtivo a um mínimo de elementos simples e possibilita perfeitamente a reciclagem de velhas bikes. Evita também produção de itens desnecessários (pastilhas de freios, tubos de suspensão a gás,  molas, cabos, engrenagens, fibra de carbono, ...) e rompe o ciclo vicioso da troca consumista de uma bicicleta nova por uma nova bicicleta nova toda vez que a tecnologia avança um pouco.  A tecnologia fixa é do século XIX, as bikes de hoje levam freios a disco, suspensões dinâmicas, coroas progressivas, quadros aeroespaciais, câmbios semi-automáticos, velocímetros, pinos de segurança, esticadores de corrente, selins amortecidos e o caralho a quatro. A fixa é do tempo em que, de acordo com Hobsbawm, nossa finanda humanidade alcançava seu ápice, de antes da revolução das revoluções, do consumismo do consumo consumista, da inter-ciber-nética frenética, da fixação doentia pelos gadgets modernos, antes idolatrarmos o sujeito que inventa objetos que seriam inúteis a cinco anos atrás e que voltarão a ser inúteis daqui a cinco anos.

Para os que tem colesterol no coração e buscam na bicicleta um exercício físico agradável, a fixa é ideal. A fixa não anda, não rola e não para sem você fazer força. Numa fixa, o exercício de subir uma ladeira a 5 km/h é equivalente ao exercício de desce-la à mesma velocidade. 20 quilômetros em uma fixa é 20 quilômetros de pedalada, não 5 pedalando e 15 rolando. Descansar só parando mesmo, é ginástica na veia sem o impacto da corrida. Até para o famoso cavalinho de pau exige treino e músculo. Braço, coxa e abdome.

Finalmente para a turma fashion, a fixa é sinônimo de cycle-chic. Pra andar de fixa você não poe aquelas roupinhas ridículas de lycra colante com modes embutido, sapatilha de plástico, óculos de lente amarela e capacete extravagante. Um all-star, uma jeans e camiseta branca já resolvem, se faz frio, adicionar um gorrinho e um cachecol. A beleza "clean", clássica, da bici combina com qualquer moda, seguindo sempre o princípio fundamental do cycle-chic que diz que tua bicicleta tem que ser linda, mas não pode custar mais do que as tuas roupas.

3 comentários:

  1. Por este motivo...minha bike é uma cargueiro...o caminhão das bikes...heheheh

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  2. oi, por onde vc pedala? como lida com as descidas? é possível com contra-força contrabalancear o flow pra controlar a velocidade?

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  3. Salve, quando escrevi este texto pedalava na região de Barcelona, agora estou na França, Tours.
    Vamos la', descidas:
    - Leves: a velocidades moderadas e baixas a contra-força resolve. O importante é estar sempre atento e antecipar os riscos para manterse sempre a uma velocidade controlavel. A altas velocidades a 'unica forma de freiar é travando a traseira e derrapando.
    - Descidas fortes: Pequenas derrapadas ou vai travando a traseira com pequenos saltos. Em rampas muito fortes eu apelo para meter o pé entre o pneu dianteiro e o garfo para ir freiando.

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