quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Menu del Día

Comer na Europa é muitas vezes uma experiência social e muitas outras vezes uma experiência sexual. As vezes, talvez, os dois. Mas não no meu caso. Por enquanto.


O Menu del Dia, trazendo consigo sempre duas impressões, a de que se comerá demais, e a de que se gastará mais do que o necessário, costuma ser uma deliciosa, bem planejada e sistemática surpresa. O Menu del Día chega sempre trazendo uma sensação inicial simplista de que teremos poucas opções: três, quatro, raramente mais que cinco opções de primeiros pratos, seguida de cinco, seis, sete opções de segundos pratos e mais umas tantas sobremesas. O olhar mal treinado, simplista, diz que tem-se poucas opções, enquanto o olhar aventureiro passa o olho por todas as opções que somadas nao costumam passar de 20 mas combinadas podem chegar facilmente a 150, sem contar as opções de vinhos e outras bebidas que costumam acompanha-las.
Pedi simplesmente um vinho tinto, e quando noto o garçon me está abrindo uma garrafa de 600 ml. Entornou-a em meio copo e quando eu achei que ia a levar-la embora, me a deixou sobre a mesa, assim, à disposição. Como meu pedido foi genérico, vinho tinto, o que se faz quando não te trazem uma carta de vinhos, me veio uma combinação de Garnatxas com Tempranillas que fez por merecer sendo este meu primeiro vinho local (note que o "txa" de Garnatxas, no Catalão local, tem o obvio som te tcha, como em tchatchatcha), acompanhado de uns poucos grãos de bicos tempradinhos com algum tipo de queijo, cebolas e molho. O vinho caiu redondo, digno de rótulos com descriçoes orgásmicas dos piores vinhos norteamericanos bem marqueteados que se ve por aí. Daqueles que se prova com baixas expectativas, visto que está incluso no preço, mas que imediatamente se re-prova, não no sentido de não aprovar-lo mas no sentido de se confirmar que os sinais endorfínicos saídos do cérebro, recebidos pela pela vizinha pituitária, e novamente recebidos devolta ao cérebro não foram um puro reflexo das expectativas.

Pedi de entrada, ou primeiro prato, uns aspargos gratinados com queijo Brie e mais alguns temperos desconhecidos.No Menu del Día, a entrada deve ser curtida de forma proporcinalmente inversa ao peso líquido do prato. Um bom analista de custos sabe que, se todos os pratos custam o mesmo mas contém de alface a trufas brancas, seu tamanho ou peso líquido será, provavelmente inversamente proporcional ao custo de seus ingredientes. Nesta lógica, um pequeno prato com seis a oito pontas (sim, somente as pontas) de aspargos gratinados com fatias semi-transparentes de queijo Brie e mais algumas cores irreconhecíveis para decorar, dar textura e variar as sensações belisco a belisco, precisa ser curtido em, pelo menos, uns 15 minutos, sem economizar no pão, fonte primária de carbohidratos neste tipo de menu, e vinho, única bebida alcólica não somente fomentada mas também produzidas por muitos deuses que existem por aí.

Segundo prato, depois de deliciar-me com puros legumes e quijo branco de verdade (vivo e fedorento), um Magret de pato, na minha opinião, a picanha europeia, feito da forma que uma boa picanha deve ser feita, mal passada, quase viva, com sal grosso apenas, acompanhada somente por decotaivos brocolis crocantes e cenouras redondas, e como um bom Magret de molho carece, regado a mais pão e vinho, denovo as fontes principais de carbohidratos e de alegria na europa, respectivamente. Vejam bem, os gordinhos, os em eterna dieta, os corredores de maratonas e os chatos de plantão, por favor, não me levem a mal, comer um segundo prato é bem diferente de repetir o bandejão, ou dar mais um pulinho no bufet. Tão leve quanto as seis pontinhas de aspargos da entrada foram as sete ou oito fatias milimétricas de magret, o um ramo de brocoli decorativo e as cinco bolinhas de cenoura. O objetivo aqui não é de puramente alimentar o corpo, mas a alma! Tudo bem regulado e com toda calma e carinho do mundo para que o gran-finale, o orgásmo gastronómico, chege em seu ápice com a sobremesa apenas, como no coito, evitando as dores e a estafa do sexo violento e rápido, mas sem arriscar um precoce saciamento de um dos participantes.

A sobremesa, um simples montinho de maçãs cozidas e uma bolinha quase testicular de sorvete de baunilha, daquele com pintinhas pretas e tudo, num pequenos prato bem decorado com outras bobagens mais, nirvana. Mais uma vez nao é a quantidade de maçã ou a quantidade de açucar que conta, mas o calor e textura da maçã, com a suavidade da baunilha e frieza do sorvete que ao se chocarem na lingua, causam uma breve confuzao neurológica que nos faz, instintivamente, passear com a comida por toda a boca, como que querendo identificar cada ingrediente e armonizar as diferenças de temperatura e toque, transformando um caos sensorial na calmaria doce e morna do período refratário.

Finda a sobremesa, satisfeitos vários de meus desejos, olhei para aquela garrafa de vinho em minha frente e ainda vi cerca de 350 ml de estímulo sensorial líquido esperando por mim, clamando, chamando porém, extasiado e esgotado, como um peso morto semi-consciente al lado do corpo nú de uma bela fêmea suada e saciada, neguei fogo e perguntei ao garçon se me poderia fechar-lo e guarda-lo para um próximo dia, uma vez que neste hotel eu ficaria até, pelo menos, a próxima sexta feira. O garçon me olhou com extranheza respondendo que tudo bem, mas me lembrando que o vinho estava incluido no preçco do Menu del Dia, simples assim, sem limites e sem pudores.

Quando me preparava para levantar, veio-me novamente o garçon com mais uma última proposta indecente:

- Café?

6 comentários:

  1. Voce esta perdendo su tempo nas fabricas Nicholas! Voce e um escritor consumado que tein para fazer muita fama, si voce publicase um libro com estas palabras poderia competir y ganhar um premio literario da altura! Suas narrativas me lembram muito aquellas nas escenas de la pelicula "Como agua para chocolate", reseña aqui embaixo:

    Como agua para chocolate es una película mexicana basada en el libro homónimo de la escritora mexicana Laura Esquivel que rompió registros de venta como el más vendido de los últimos 20 años. Esta película obtuvo diez premios Ariel. Ocupa el lugar 56 entre las 100 mejores películas del cine mexicano. Ha sido, además, la octava película extranjera más taquillera de Estados Unidos.Historia de amor mágico realista en el México en tiempos de la Revolución.
    Tita y Pedro ven su amor obstaculizado cuando Mamá Elena decide que Tita, su hija menor, siga la tradición de quedarse soltera para cuidar de su madre hasta la muerte de esta, por ser la menor de sus hijas. Tita sufrirá largos años por un amor que perdurará más allá del tiempo. Todo ello con la gastronomía como nexo de unión y metáfora de los sentimientos de los personajes.Saludos ..Bety

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  2. Opa! Já vi que em pouco tempo vamos fazer um novo livro: "NIKENESP"!!!
    Brako! Poliz

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  3. ....queuspariu...o vinho devia estar bom mesmo....substitui o orgasmo de andar naquela bandeirante....
    Estou com uma sadia inveja...Klaus

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  4. Me senti homenageado na parte dos gordinhos em eterna dieta e corredores de maratona. A descrição desse ato alimentar fez-me desejar estar em Barcelona para degustar de tal iguaria. Por enquanto sigo alimentando-me no glorioso Casarão Grill.

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  5. Gracias Bety, o filme é muito bem conhecido no Brasil. Realmente muito bonito!

    Polaco, pensei nisso, ainda estou pensando...

    Pops, nada substitui meu vibrante ex-carro, mas vinho bom sempre é bom.

    Xiba, ó master mayor do casarao (com til), estava pensando em você...

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  6. Nich... lembro-me bem do pouco tempo que passei nesta fantástica região do mediterrâneo... e lembro-me muito bem dos 4kgs que "ganhei" em uma semana =)
    Mas claro que os 10kgs q ganhei em Sampa e ainda não "perdi" não foram ganhos com tanto prazer qto descrito por vc.
    E concordo com a Bety, vc é um excelente gestor e um excelente profissional deste nosso seleto mercado, mas é como escritor (ou observador) de fatos corriqueiros, mundanos, filosóficos, ordinários, profundos, políticos, sociais ou "banheirísticos" q vc se supera!

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