quarta-feira, 27 de julho de 2011

Um peso, duas medidas



Ando meio ausente de minhas rabujadas por conta da realização de meu plano de fuga, se não definitiva, pelo menos temporária, deste país em obvio retrocesso político-sócio-ambiental. Viagens, burocracias nacionais e internacionais, planos de hand-over e outras bobagens necessárias tem me ocupado a ponto de não ter tempo para me expressar, mas ainda estou longe de me transformar em mais um pecilotermo que assiste impassível às barbaridades mundanas.


Hoje acordei lendo uma breve notícia da exame.com sobre a campanha que a ATEA finalmente conseguiu colocar em prática no Brasil, começando, talvez não coincidentemente, em Porto alegre (foto acima).

Apesar de gostar da provocação, não sou totalmente a favor de campanhas como estas pois elas tendem a pecar pelo excesso de simplificação e generalização, o que certamente faz com que a mensagem que se gostaria de passar nem sempre seja realmente passada ou entendida. No site da ATEA fica bastante claro que um dos objetivos da campanha é lutar contra o preconceito sofrido pelos ateus no Brasil. Nobre, mas na minha opinião, desnecessário.

Apesar de ateu de berço, e desde criança orgulhoso disso a ponto de nunca ter deixado de expressar minha opinião sobre assuntos relacionados a crenças e religiões, não me recordo de ter sofrido qualquer tipo de retaliação em virtude de preconceitos religiosos. Sim, já briguei com muita gente; sim, já fui obrigado a ir à igreja; sim, já permaneci em silêncio em respeito ao outros; e sim, já me senti julgado indigno por conhecidos e desconhecidos, mas sinceramente, nunca me senti prejudicado por nada disso. Preconceito e incompreensão sempre vão existir em algum nível e cada um que se posta como um diferente dentro dos padrões pré-existentes, sejam estes padrões corretos ou não, tem que ter plena consciência da provocação que oferece ao statu quo e das consequências que isso traz. Sinceramente não acho que, no Brasil, o preconceito especificamente contra Ateus seja problemático a ponto de que ateus tenham que se postar como vítimas e lutar contra ele. Temos problemas mais urgentes e reais a combater.

Um problema real e imediato é a confusão que existe entre liberdade religiosa e liberdade do religioso. Acredito que todos temos o direito à liberdade de pensamento e à livre expressão, mas em compensação precisamos exercer esta liberdade com responsabilidade e cabe ao estado implementar e cobrar responsabilidade a todos impondo-lhes consequências legais sobre seus atos e, precisamente isso, não acontece no Brasil (e possivelmente em muitos outros países do mundo também).

Aqui, instituições religiosas, seus integrantes e muitas vezes até freelancers parecem envolver-se no véu protetor do respeito à liberdade religiosa para invadir a vida e o pensamento alheio exercendo todo tipo de atrocidades. Não fosse este véu, tais atrocidades poderiam ser facilmente classificadas como formação de quadrilha, falsidade ideológica, estelionato, falso testemunho, receptação, extorsão, corrupção de menores, denunciação caluniosa, lavagem de dinheiro, fraude, chegando até a casos extremos de lesões corporais e estupros.

Primeiro o exemplo clássico: qual a diferença entre vender um imóvel inexistente e vender um pedacinho do céu, ou entre vender um ingresso falso da copa do mundo ou um passe livre pelos portões de São Pedro? NENHUMA! A única diferença que se pode realmente listar é que o padre/pastor/pajá realmente acredita que está fazendo o bem e salvando uma alma, enquanto que o estelionatário só está querendo tirar vantagem. Mas espere um pouco, como é que podemos realmente provar que é isso que está acontecendo? E se o dito estelionatário é, na verdade, um bom samaritano que realmente acredita que está ajudando o cidadão a comprar os Jardins Suspensos da Babilônia por uma pechincha imperdível? Ah não, ou o cara é estelionatário ou é psicótico, dirá a maioria, pois eu digo o mesmo de un Padre. Se tem gente que acredita nos jardins do Édem por que não aceitar que alguém acredite no jardim de Nabucodonossor? Porque acreditar em um e não no outro é considerado normal, ou pior, judicialmente aceito?

Quer outro exemplo menos manjado mas muito, muito mais descarado? Falsidade ideológica, do código penal:
Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante.
O que seria a Bíblia, historicamente, senão um longo processo de falsidade ideológica exercido por cada um de seus muitos e muitos coautores? Cada pajá, estelionatário ou psicótico, aqui não faz muita diferença, que colocou suas mãos e suas ideias no longo processo de colagem, escrita, interpretação, cópia, tradução, compilação, re-escrita, re-interpretação, re-edição, exclusão de capítulos, inclusão, re-edição, tradução, e por aí vai, teve a sua parcela de culpa na grande falsidade histórica acumulada do processo de invenção do que se tornou um dos mais impactantes documentos de nossa era. Agora me explique, como é que o CNE (Conselho Nacional de Educação) pode ousar proibir o uso de certos livros nas escolas públicas por, por exemplo, conter conteúdos teoricamente racistas (o caso de Monteiro Lobato), mas não pode nem imaginar a proibição do uso da Bíblia (que em alguns estados é até obrigatório) que contem conteúdo racista, sexista, classista, etc.!!!! Mais uma vez o véu da liberdade religiosa protegendo as instituições religiosas, não a liberdade propriamente dita, dando-lhe a benção do "um peso, dias medidas".

Olha, dá para escrever um livro com exemplos desse tipo, passando por todo tipo de crime, mas infelizmente sou obrigado a trabalhar (no momento em meu plano de fuga) e não posso ficar tanto tempo assim rabujando na internet. Volto, para variar ao assunto de abertura dizendo que pior do que ser julgado por ser Ateu é ver um monte de charlatões, tarados ou psicóticos não serem julgados por não o serem.

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