sexta-feira, 24 de junho de 2011

E o país conspira contra si mesmo



Se eu fosse só um pouquinho mais ego-cêntrico, se achasse que a vida por si só tivesse realmente um proposito, que sou a imagem de algo divino, que individualmente tenho alguma importância para o mundo ou para meu país, teria a nítida impressão de que este país conspira contra minha pessoa. Felizmente não é assim que as coisas funcionam. A vida é obra de um misto de acaso com o que fazemos dela, felizmente não há nada de humano em divindade alguma e, para o universo, não só eu como Lula, Alexandre Fleming, John Lennon e Jesus somos tão insignificantes como qualquer caquinha de passarinho. Diria até que a própria significância é um conceito essencialmente humano, fora de nossas mentes e imaginação, isso tudo simplesmente não faz sentido e o Brasil simplesmente não conspira contra mim. O que acontece, na realidade é uma conspiração despercebida de uma sociedade inteira contra si mesma.


Poucos parecem se importar muito, mas estes últimos dois meses foram péssimos. Enquanto ambientalistas eram assassinados no Pará por defender uma lei que existe para o benefício de todos, nosso infame parlamento dá um grande passo para que nem mais a lei esteja ao lado dos ambientalistas. Um novo código florestal que anistia criminosos como que punindo os que deixaram de lucrar ao respeitosamente cumprirem a lei, retrocede nosso amadurecimento como um país sustentável em mais de 80 anos, incentivando a impunidade.

Enquanto isso, enquanto ambientalistas pobres morrem em nome dessa lei que logo deixará de existir, o IBAMA concede a última licença ambiental necessária para a construção da usina de Belo Monte, a usina que, se construída conforme o plano, o que raramente acontece, já será a hidroelétrica menos produtiva e mais cara do país, que ao invés de resolver um problema, apenas injetará mais ineficiência no sistema em nome de um progresso na verdade regressivo. Serão quase 30 bilhões gastos para aumentar em menos de 4% nossa capacidade de geração de energia, isso sem contar com os custos socioambientais de se alagar 514 km2 de mata, isso sem contar todo o desmatamento proveniente do "progresso". Apenas em Abril e Maio deste ano, segundo o SAD, foram desmatados 465 km2 nos municípios da região da usina, uma alta de 362% comparado aos meses anteriores à concessão.

Enquanto isso, o braço direito do nosso querido governo Petista, mais uma vez, falha em sua capacidade de esconder suas falcatruas e suas atividades criminosas, mas nada que um pedido honroso de demissão não possa resolver, afastando-o de seu cargo mas, dificilmente do governo. Mas não se preocupem com ele, minha gente. Parece que o "salarinho" de ministro que ele ganhava não deverá fazer falta visto que nem era suficiente para pagar seu aluguel e condomínio. E ele vai voltar, assim como já voltou antes e como voltaram Delubio, Jenuino, etc. Sem contar que enquanto a panela do nosso ministro-chefe esquentava, nossa bancada evangélica, em defesa da família e da honra, negociava seus votos contrários a uma CPI para investigar o caso, em troca da retirada de um tal kit-gay inventado pelo ministério da educação que, certo ou errado, tentava fazer alguma coisa (o que parece ser contra os fundamentos do parlamento).

Enquanto isso, mais um ciclista, desta vez um rico consciente e não um pobre sem opções, é atropelado e morto no trânsito paulista. Claro, mortes no trânsito ocorrem todos os dias - muitas vezes por dia, na verdade - mas o descaso das autoridades fica muito mais escancarado quando os eventos são bem noticiados porque, desta vez, o atropelado pertencia à classe dominante, a que fará falta. Logo após o sinistro, as autoridade de trânsito já classificavam o evento como uma "fatalidade". Ótimo! Fatalidade não tem causa nem responsáveis, é apenas uma fatalidade. Se o pobre motorista deve ser de alguma forma protegido por ter escolhido, conscientemente ou não, não manter a distância mínima entre seu veículo e o ciclista exigida pelo código de trânsito, mantendo a hegemonia da cultura da impunidade que domina este país, que se responsabilizem as autoridades por não terem controle na qualidade dos treinamentos e monitoramentos aos quais a classe de motoristas profissionais estão sujeitas, ou por não implementarem infra-estrutura viária de qualidade e com segurança conforme seu próprio código prevê.

Enquanto isso, a justiça determina a soltura de um terrorista confesso, julgado culpado e condenado pela justiça italiana pelo assassinato de duas pessoas e cumplicidade em mais dois assassinatos, dizendo mais uma vez para o nosso povo, e neste caso para uma platéia mundial, que o que valorizamos aqui é a libertinagem e a impunidade. E enquanto os maiores figurões do nosso futebol continuam se esquivando de acusações bastante claras e obvias a respeito de sua índole, o governo concede a todos os picaretas de cartola, incluindo as mais tradicionais empreitares picaretas do país, o direito ao sigilo sobre as obras da copa, para garantir mais uma vez a livre picaretagem e impunidade a todo o processo, garantindo que a copa será motivo de orgulho para o país, não motivo de vergonha, custe o que custar.

Enquanto isso nossa Academia Brasileira de Letras (a academia de Jose Sarney e Paulo Coelho) concede ao nosso herói maior Ronaldinho Gaúcho, a medalha Machado de Assis, pelos serviços prestados à pátria.

Sinceramente, é só rabugice de minha parte ou esse país está atolado na merda?

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