quinta-feira, 23 de junho de 2011

Charlatões do bem



Domingo passado emprestei de minha videolocadora o fabuloso filme-documentário Lixo Extraordinário (Waste Land) que retrata uma experiência de sustentabilidade social (e, de certa forma, também ambiental) de um renomado artista plástico com um grupo de pessoas que (sobre) vivem de um processo bastante desordenado, desumano e ineficiente de separação e venda de material reciclável no aterro Jardim Gramacho, se não o, um dos maiores aterros sanitários do mundo. O documentário é realmente excelente e recomendo a qualquer um que não deixe de assistir, mas não é dele que eu queria rabujar hoje.


Coincidentemente ou não, o primeiro trailer do DVD foi o de um desses filmes tratando da nova moda Chico Xavier, acho que se chamava "As Mães de Chico Xavier", não tenho certeza. Bem, coincidentemente ou não, no momento em que o trailer começou recebi um chamado da natureza que obrigou-me a me ausentar da salinha de TV e só retornei ao final do trailer para ouvir de minha esposa um comentário tipo "se o filme é bom eu não sei, mas quase comecei a chorar só com o trailer". Também por mais uma coincidência, apenas na noite anterior tínhamos assistido na reprise sabatina do CQC, o CQ-Teste do especial sobre a mentira, quando em um experimento simples onde se apresenta o mesmo mapa astral para um grupo de pessoas, eles demonstram como as pessoas são propensas a acreditar em qualquer bobagem (veja este no youtube). Ao ouvir o comentário, imediatamente busquei essa referência ainda estava fresca na memória: "esses picaretas usam mais ou menos a mesma técnica do mapa astral, dizer um monte de bobagem genérica que todo mundo quer ouvir...", e a resposta cortante que tive foi "bem, se faz bem para as pessoas, por quê não?". Acho que não preciso dizer que minha esposa não compartilha exatamente de meu ceticismo rabugento, mas a fim de evitar uma discussão apenas retruquei um "acho que enganar as pessoas não é a melhor forma de ajuda-las".

O problema é que esse tipo de argumentação rápida e superficial interrompida propositalmente para manter a qualidade do Domingo não arruinada, não evita que o assunto fique remoendo meus intestinos por tempo indeterminado. Porque, afinal, enganar pessoas pode não ser uma boa forma de ajuda-las? Porque é que tendemos aceitar melhor que uma pessoa engane a outra quando aquela pessoa parece realmente acreditar que está fazendo o bem?

Meu primeiro argumento contra os "charlatões do bem" é praticamente tão bem fundamentado quanto qualquer argumento baseado em fé (ou seja, não é fundamentado em nada). Digo que é ruim ajudar as pessoas através de ilusões simplesmente porque acho errado enganar as pessoas para qualquer fim. Enganar é errado e ponto final. Tenho total consciência de que não represento a maioria da população de meu país (vide últimos tantos processos eleitorais) mas é contra os meus princípios que se engane as pessoas.  Infelizmente a moral, o certo e o errado, não é ainda um conceito universal, e por isso sei que é importante arrumar melhores argumentos.

Ok, que tal este aqui: enganar uma pessoa não resolve o seu problema. Normalmente, pessoas que buscam soluções (com médicos, pedreiros, padres ou médiuns) são pessoas que tem algum problema. A única forma garantida de se resolver um problema é encontrar sua causa e elimina-la. Tentar resolver um problema sem conhecer sua causa pode funcionar ou  não, mas certamente não vai garantir que o problema não volte a acontecer. Um bom exemplo disso é um pneu furado:

Imagine-se dirigindo seu automóvel para comparecer a um compromisso daqueles que não tolera atraso (espetáculo teatral, prova de vestibular, etc.). A meio caminho do local você nota teu pneu dianteiro vazio, o que te impossibilita de continuar dirigindo. Poucas pessoas vão achar que o problema poderia ser resolvido empurrando o automóvel até um posto para apenas encher o pneu pois, afinal, se o pneu esvaziou-se deve haver um motivo. A maioria das pessoas, indo um pouco mais além no raciocínio lógico, pode acha que um pneu furado se resolve usando o pneu socorro, mas não, o pneu raramente fura sozinho, algo deve ter furado o pneu, e o pneu socorro serve apenas para garantir que você conseguirá chegar até um borracheiro ou até o compromisso sem atrasos. Então você chega até o borracheiro e ele diz estar resolvendo teu problema removendo o prego e remendando o seu pneu, e você acredita. Acredita? Não! O pneu esvaziou porque o prego furou o pneu, mas porque é que o prego perfurou o pneu? Por que é que o prego estava no caminho? O princípio da causa fundamental diz que enquanto houverem pregos e detritos na rua e os pneus forem de borracha, o problema não terá sido resolvido e os pneus continuarão furando.

Ao usar ao usar este princípio temos que aceitar que alguns tipos de problema não tem uma solução e por isso, a única forma de estarmos prontos para a próxima vez que o pneu furar é termos a plena consciência de que o problema não foi e não vai ser resolvido em um passe de mágica, que ele ainda existe e cedo ou tarde voltará a nos afetar. Isso garante um comportamento preventivo do tipo sempre sair de casa com tempo suficiente para lidar com imprevistos se o compromisso não tolerar atrasos.

Voltando ao tema de minha rabugice. Ajudar uma pessoa sem ajuda-la a encontrar as causas de seus problemas e dar-lhe subsídios para resolve-las  - ou, pelo menos, aprender a conviver com o problema caso ele realmente não tenha solução - é o mesmo que fazer nada, e fazer nada, dependendo da seriedade do problema, pode ser a pior das decisões.

Deixa eu tentar dar um exemplo mais próximos do tema central (o do para-norma-exotero-charlatanismo inconsciente, ou não):

Um sujeito procura um padre/pastor/médium/oráculo/cartomante pois não suporta mais a angustia interna causada pelo desconhecimento do sentido da vida: Porque estou aqui?  De onde vim? Para onde vou?

Ok, a primeira pergunta pode parecer um pouco filosófica, mas as outras duas são muito simples, e se o cara não entendeu ainda é porque não quer entender:  "Você veio do saco do teu pai e do ovário da tua mãe, e inevitavelmente você vai virar comida de bactéria". É claro que daria para complementar a resposta acima com toda história do ciclo da matéria, ciclos energéticos, evolução de espécies e herança genética e formação psicológica, mas dificilmente isso adiantaria pois não é o que as pessoas querem ouvir quando fazem essa pergunta. As pessoas querem ouvir que elas não estão sozinhas neste mundo repleto de injustiças, que elas são amadas, especiais, tudo dará certo e terminará bem, e viverão felizes eternidade afora.

Já a primeira pergunta (Porque estou aqui?) também só pode ser respondida com outra pergunta.

A verdade é que a vida não tem sentido algum até que você dê um sentido a ela. Biologicamente falando, nosso único objetivo é o mesmo do das esponjas do mar, lombrigas, e ervas daninhas: carregar nossos genes para as próximas gerações, mas analisando bem, isso soa como um sentido meio sem sentido, e é por isso que re-afirmo: caso você deseje ser algo diferente de um lombriga bípede e viciada em hidrocarbonetos, encontre um sentido para sua vida! O problema é que se você perguntar ao padre, pastor, médium, oráculo, cartomante, ele certamente te dará uma resposta, e não uma pergunta, e esta resposta, também certamente, será mais relacionada com o sentido que ele, o  padre, pastor, médium, oráculo, cartomante, quer dar à tua vida do que o que você quer dar (se é que você quer algumas coisa, posso te chamar de Bob?).

De que serve a falsa sensação de que você é especial e de que tem alguém cuidando de você quando, na realidade, perante a aleatoriedade da natureza, isso não vai te proteger em nada? Não seria melhor deixar claro às pessoas o fato de que a vida é uma só, que ela é frágil e naturalmente insignificante, e que se cada um não cuidar muito bem da sua, ninguém mais cuidará? De que serve educar uma pessoa com base em dogmas imutáveis sobre o certo e o errado quando, na realidade, o certo e o errado são completamente relativos e uma pessoa estará muito melhor preparada para a vida se for capaz de entender as relações de causa e consequência, relações de responsabilidade e autoridade, de ações e reações? Existe algum problema solúvel que não possa ser solucionado sem apelos exotéricos? Soluções reais para problemas não seriam mais sólidas, confiáveis e duradouras?

Termino minha rabujada quase que existencial voltando ao filme que gerou toda essa diarreia mental, o Lixo Extraordinário. A história contada no documentário mostra uma forma de fazer o bem para as pessoas, de ajuda-las sem necessariamente transforma-las em cientistas céticos mas sem, de maneira nenhuma, apelar para absurdas forças sobrenaturais. A seres humanos bem diferentes uns dos outros, que vivem do que todos consideram dejetos, em condições absolutamente desumanas sob qualquer ótica, e provavelmente ser esperança ou perspectiva alguma, é dada uma oportunidade de encontrar o seu próprio "sentido da vida", o que praticamente todos os personagens, de uma forma ou de outra o fazem instintivamente, sem que ninguém tenha que fazer escolhas por eles, sem que ninguém tenha que dizer-lhes o que é mais certo, mais errado, permitido ou proibido, sem que ninguém tenha que mentir para ninguém. É a simples e dura realidade da vida sendo encarada de frente, sem historinhas e sem anjinhos, sem enganação. E com todos os riscos envolvidos na vida real.

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