sexta-feira, 29 de abril de 2011

Bicicleta Branca e a propriedade privada


"Década de 60 na Holanda, um grupo de artistas anarquistas conhecidos como PROVOS, apresentou ao público na tarde de uma quarta-feira na praça Lieverdje em Amsterdam, a primeira bicicleta branca de propriedade comum. A idéia era a de que ela sempre estivesse pronta para o próximo usuário.
O primeiro meio de transporte coletivo e gratuito questionava a propriedade privada e estava aberta a qualquer um que dela necessitasse, uma vez utilizada era deixada para o próximo usuário..." (fonte)
Século XXI em Curitiba, ignorando ideais do passado que fizeram exemplo para muitas cidades realmente funcionais (inclusive alguns concebidos na própria cidade de Curitiba), a capital provinciana de maior densidade automotiva do país é mais um ótimo exemplo de onde o espaço público é desigualmente ocupado pelas propriedades privadas.

O modelo mental dominante é o de que automóveis são além de sonho, um direito, e tal direito deve ser exercido sem piedade nem juízo. Motoristas reclamam do trânsito como se não fossem todos, individualmente, parte e causa do problema. Reclamamos da falta de investimentos nas vias como se nossa propriedade privada com quatro rodas fosse parte integrante de nosso corpo ao exercermos nosso direito constitucional de ir e vir. Reclamamos da falta de vagas para estacionar como se realmente tivéssemos o direito de ocupar livremente, por tempo indeterminado e por ordem de chegada, o espaço público com nossos pertences cada vez mais espaçosos. Poucos percebemos que, no final das contas, é através da posse e da inclusão de nossas propriedades em nossos direitos individuais, que exercemos uma das mais perversas formas de dominação social, onde os que tem mais dominam sobre o espaço, meio, recursos e sobre os que tem menos.

A bicicleta branca não questiona a propriedade privada de forma a ser necessariamente contra ela, mas busca, talvez, colocar em discussão os limites dos direitos individuais quando estes levam à apropriação temporária ou definitiva do espaço e do direito público.

Ao usar e cuidar de um objeto que não tem dono podemos aprender a diferença entre algo ser de todos ou ser de ninguém, e a lição que começa com uma bicicleta pode ir se estendendo aos poucos às calçadas, vias, parques, ar, indo até o planeta, universo e tudo o que nele estiver contido. O que é de todos não pode ser dividido, tem que ser compartilhado. Usar o que é de todos implica em responsabilidade, senso de comunidade, talvez até uma pitada de altruísmo. Infelizmente não é exatamente isso que vemos nas ruas, nas praias, menos ainda nos palácios de planaltos.

Um bom pensamento para fechar o dia pode ser:
Se os princípios básicos de propriedade pública e privada fossem aplicados aos automóveis, teríamos que começar por colocar o escapamento para o lado de dentro.

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