quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

E o MinC diz que o índice de leitura no Brasil cresceu 150% em dez anos!



Ou os caras são picaretas ou são ignorantes mesmo, incapazes de ler e interpretar um livro ou um artigo eles próprios, quem diria então educar! A notícia no site do Ministéria da Cultua (1) diz com tom otimista, se não propagandista, que o índice de leitura no Brasil cresceu mais de 150% em dez anos. O editor da matéria diz isso comparando o íncide de 1,8 livros lidos por habitante por ano de uma pesquisa realizada no ano 2000 com os 4,7 de uma nova pesquisa recém publicada, mas com números de 2007 (2007 – 2000 = 10 !!!!).

Não sei se tal editor do Ministério chegou a ler a pesquisa na íntegra, mas dando uma rápida olhada na publicação do instituto pró-livro (2), na mesma página em que tal ídice é publicado (página 112), lemos uma nota em letras nem um pouco miudas:

“Por se tratar de metodologias diferentes, não é possível comparar com a 1ª edição, que não pesquisou os leitores com menos de 15 anos e de  3 anos de escolaridade

Notem que as palavras aqui sublinhadas, estão realmente sublinhadas no artigo original. Não leu quem não quis. Ou não sabe. Algumas páginas adiante, a pesquisa compara os dois números fazendo os ajustes necessários para tal. Com o ajuste o crescimento passa a ser de 105%, um bom crescimento, eu diria, não fossem algumas particularidades detalhadas na pesquisa mas que certamente devem ter passado batido à “leitura dinâmica" do editor do MinC.

Na mesma página que não recomenda se fazer a comparação dos índices de 2000 e 2010, o artigo explicita também que retirando-se os livros didáticos compulsórios exigidos pelas escolas da conta do índice, o número cai para 1,3 livros por ano, demosntrando que, na realidade, continuamos ridiculamente medíocres, e piora quanto mais mergulhamos nos detalhes.

A pesquisa define leitor o cidadão que declara ter lido pelo menos um livro nos últimos três meses. Estes representam apenas 55% da população, e sobre estes a pesquisa vai um pouco mais fundo, tentando entender suas motivações, gostos literários, problemas de acesso aos livros, etc. Se você se assustou com o fato de quase a metade da população não ler livros com frequencia, espere só para ver os detalhes da pesquisa.

Primeiro: O gênero mais lido pelo leitor brasileiro, e que certamente compõe o absurdo índice de 1,3 livros lidos por ano, é, em primeiro lugar, a Bíblia, com 45% dos leitores tendo preferência por este gênero. Previsivelmente esta proproção chega a bater em 49% considerando os leitores com menor escolaridade e 75% considerando os leitores com mais de 70 anos.

Segundo: Quando se pergunta ao leitor especificadades sobre sua leitura, parece que, ou seus cérebros param de funcionar, ou muitos são incapazes de sustentar a mentira que começaram! Quando perguntados sobre o autor mais adimirado, 49% não sabem responder, quando perguntados sobre o livro mais importante em suas vidas, 40% dos leitores não sabem responder, quando perguntados sobre o último livro que leu – lembrem-se, nos últimos três meses – ou sobre o livro que está lendo, 64%, quase dois terços dos supostos leitores, não souberam responder!

E a o problema não para por aí!

Dos 60% que souberam citar o livro mais importante de suas vidas, temos novamente a Bíblia, com 10 vezes mais citações que o segundo lugar. E piora! Em segundo lugar surge um livro que nem sequer existe, chamado O Sítio do Picapau Amarelo, o que levanta o questionamento se os leitores realmente leram algum livro do Monteiro Lobato ou se somente se lembram dos especiais da Rede Globo. Patético!

Dos apenas 51% que souberam nomear um autor mais adimirado, quase a metade cita nomes como Monteiro Lobato, Paulo Coelho, Jorge Amado e Machado de Assis, ou seja, autores de leitura obrigatória no curriculo escolar, autores de telenovela ou de séries televisivas infantis e um super-celebridade de séries do Fantástico.

Dos míseros 36% que conseguiram se lembrar do nome do livro que estavam lendo, ou o nome do livro que leram mais recentemente (últimos três meses), novamente a Bíblia é a mais citada, 18 vezes mais citada que o segundo colocado. O segundo lugar, desta vez um livro que realmente existe, O Código Davinci, é seguido por outros best-sellers da indústria do marketing multi-midia da indústria gráfica, O Segredo e Harry Potter, e depois, pasmem, Cinderela e Chapeuzinho Vermelho! De literatura ou informação mesmo, nada. Pelo menos me parece que alguns pais estão alguma coisa para seus filhos na hora de dormir. Eu espero.

Resumindo, me parece claro que muitos dos auto-declarados leitores, os 55% da população brasileira são, na realidade, mentiroso ou completamente desmemoriados, muitos dos que sobram consideram como leitura a repetição de trechos isolados e descontextualizados da Bíblia durante seus cultos semanais, muitos confundem telenovelas do passado com literatura e uma boa parte ainda não conseguiu se livrar das cruzetas de comando da propaganda da indústria gráfica com seus best-sellers de auto ajuda e mega-lançamentos midiáticos.

Senhores do Ministério, desculpem, mas não vejo motivo algum para as comemorações otimistas de vossas publicações. Seus 150% são uma grande farsa, se não puro auto-engano.


5 comentários:

  1. É realmente uma tristeza... e uma felicidade para os nossos governantes, uma vez que, quanto mais burra a população melhor e mais fácil enganá-la. É isso aí, nada de estimular a leitura nas escolas, claro, a não ser na matéria de ensino religioso :(

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  2. Nikote, teu blog é muito mais interessante e util do q " o meu pai diz cada m....!" deveria ter mais seguidores....

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  3. Talvez não seja isso que os internautas procuram...

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  4. Isto foi o texto mais engraçado que já li nos últimos tempos, obrigada! O mais fascinante é que o Brasileiro em geral, especialmente o mais "culto" adora dizer o tempo inteiro: "Como os Americanos são ignorantes, não?"

    Denise

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  5. Era para chorar... não para rir... ;)

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