terça-feira, 30 de novembro de 2010

Saindo de um estado de choque

Não sei o que acontece. Passei uns bons meses em estado de choque, broxado, sem nem vontade de rabujar. Deve ter sido resultado das eleições. Talvez o COP. Mas hoje, enquanto queimava algumas toneladas de querosene para vir a São Paulo, à bordo de um dos modais mais insustentáveis que possuímos à nossa disposição, enquanto lia a edição 2010 do Guia Exame de Sustentabilidade (publicado agora em Novembro), tive um surto de rabujice e comecei a fazer notinhas cerebrais para, posteriormente, quando em frente à minha janelinha para o mundo, pudesse compartilhar com meus amigos e colegas as minhas frustrações.


O mencionado Guia Exame de Sustentabilidade traz algumas materias interessantes e uma lista das chamadas 20 "empresas-modelo" em responsabilidade social corporativa no Brasil (as aspas são minhas, e já vou explicar porque).

O primeiro ponto que fica claro para mim ao ler a revista, é que termos como "sustentabilidade", "responsabilidade social", "verde", podem ser interpretados, entendidos, usados e abusados como se bem entende. O segundo ponto é que a avaliação da Exame se limita aos conceitos de "sustentabilidade" que mais interessam aos seus principais leitores:  empresas, empresários, trabalhadores, que atuam no topo da pirâmide social, e que precisam se sustentar por lá sem necessariamente fazer grandes esforços para rever seus modelos de negócio. Essa "nota mental", que pode ser vista como extremista, se confirmou quando desci de meu gerador de CO2 classe A, no aeroporto de Congonhas, e me deparei com uma enorme propaganda de uma empresa que atua no mesmo ramo da empresa que esta mesma edição da Exame chamou de "A Empresa Sustentável do Ano", que dizia assim: "Não existe futuro sem mineração, e não existe mineração sem pensar no futuro." (veja comercial do YouTube)



Para mim, o termo anteriormente entre aspas "empresas-modelo" deveria ser trocado por "menos-piores".

Não me levem a mal, estas 20 empresas menos-piores merecem todos os créditos por estarem nesta lista pois realmente aparentam ser as menos-piores dentre as outras tantas que tem por aí. O meu problema é que acredito que não podemos ter como "modelo" empresas que se limitam a reduzir seus impactos ambientais, ou que fazem filantropia a partir de seus imensos lucros. Se realmente desejamos um futuro sustentável para todos os mais de 6 bilhões de pessoas que coabitam nosso planeta, precisamos de modelos que se comprometam com um impacto positivo para o meio ambiente e para a humanidade. Já sabemos que o nível de destruição causado por nós, os 2 a 2.5 bilhões de seres humanos sentados tranquilamente no topo da pirâmide, já passou dos limites sustentáveis, agora, se pretendemos manter nosso belo e confortável estilo de vida, e ainda queremos resgatar da subsistência os outros 4 bilhões de pessoas que não tem direito ou acesso ao nossos luxos, reduzir impacto nunca será suficiente, precisamos aprender a construir um estilo de vida reconstruindo o planeta. E disso vi muito pouco na revista.

Na década de 70 surgiu uma forma de explicar o impacto ambiental da vida humana com a seguinte equação:

IMPACTO = POPULAÇÃO x CONSUMO x TECNOLOGIA
(conhecida como IPAT, do inglês I(mpact) = P(opulation) x A(ffluence) x T(echnology)

Nessa equação (não quantitativa), considerando que naturalmente a população tende a continuar crescendo, enquanto nossa economia de consumo e nossos paradigmas nos dizem que um mundo justo e belo é um mundo em que todos vivemos como Americanos ou Europeus, e nossa capacidade de produzir consumo aumenta juntamente com o avanço de nossa tecnologia, fica claro que somos insustentáveis.

Reduzir impacto sem mexer na lógica da equação não muda a nossa insustentabilidade por natureza, e é aí que entra a minha crítica aos "modelos" de sustentabilidade: reduzir ajuda, é claro que ajuda, mas o que precisamos para tornar nosso tão idolatrado estilo de vida sustentável, é trazer a tecnologia para o denominador da equação, e usar como modelo as empresas que estão fazendo isso. Mineradoras que continuam cavando buracos e petro-químicas que continuam cavando buracos só vão nos ajudar a ir para o buraco, mesmo que consigam maximizar a produtividade de seus buracos! Um buraco sustentável ainda é um buraco. O problema não é se a embalagem do bem de consumo é reciclável ou não é, o problema é o consumo. O problema não é se o carro é elétrico ou se é a oleo diesel, o problema é o carro! E o problema é que ainda temos que cavar buracos fabricar bens de consumo e para fazer carros e embalar produtos! David MacKay já disse, se todos fizermos um pouquinho, só conseguiremos um pouquinho.

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