sábado, 10 de julho de 2010

A desigualdade no transporte


Passei uns dias destrinchando um monte de dados e gráficos de uma relatório da ANTP (Associação Nacional de Transporte Público), uma atividade frustrante que só me serviu para constatar o que todos já sabemos de nossa administração pública: que ela não está aí para administrar para o público, mas para interesses específicos.


Dados gritantes e conclusões óbvias:
  • Apenas 29,8% das viagens (deslocamentos) de nosso Brasil urbano (municípios com mais de 60 mil habitantes) são feitas utilizando transporte individual privado (carros e motos) mas esta minoria consome 93% do custo social da mobilidade (manutenção de vias, por exemplo).
  • Além da manutenção da infraestrutura, o relatório aponta também o valor patrimonial de toda a infraestrutura existente e, neste quesito, essa minoria motorizada também é privilegiada com 78,9% do patrimônio.
  • O relatório também aponta um custo social adicional relacionado à poluição e acidentes causados pela mobilidade e pasmem, os 29,8% são responsáveis por 79,6% deste custo, cerca de R$7,7 bilhões de reais em acidentes e R$4,8 bilhões em poluição (por ano).
É imensa a desigualdade de tratamento e o privilegio que se dá às classes mais favorecidas. Além dessa diferença na destinação de orçamento público, o relatório ainda aponta que o transporte individual privado é responsável por 65% da poluição emitida pelos escapamentos. Quando calculamos por passageiro, em relação ao transporte público, o transporte individual polui 13 vezes mais, consome 3 vezes mais energia, custa 10 vezes mais em acidentes e ocupa 6 vezes mais espaço em nossas cidades.

Outra análise interessante pode ser feita sobre a principal ação do governo para mitigar a crise econômica, a redução de IPI para automóveis novos, sob o pretexto de "salvar milhões de empregos". Um relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que o governo federal deixou de arrecadar 1.8 bilhão de reais com a brincadeira apenas no primeiro semestre de 2009. Isso é bem mais que o dobro do que foi gasto pelos governos e municípios na infraestrutura do transporte público em todo ano de 2008 (0,7 bilhões segundo a ANTP). Sem contar que os "milhões de empregos" salvos pela redução de IPI, na realidade foram entre 50 e 60 mil vagas apenas, menos que 9% de todos os postos de trabalhos nas montadoras e indústria de auto peças que, juntas, somam não mais que uns 650 mil empregos no Brasil.

Mais uma vez, extrapolando meus conhecimentos e especialidades, fico imaginando quantas vagas poderiam ter sido criadas, por exemplo, na indústria do transporte público, que representa hoje cerca de 787 mil postos de trabalho (20% mais que a automotiva) se recebesse um investimento deste tamanho (1.8 bilhões em 6 meses). Não sei se seriam mais ou menos que as 60 mil vagas supostamente salvas pela redução de IPI, mas sem dúvida afetaria positivamente um público muito maior, melhorando a qualidade de vida de todos, inclusive dos 29.8% privilegiados motorizados, diminuindo significativamente o entupimento de nossas cidades, juntamente com a poluição e consumo energético.

O problema é que bem estar social, serviços de qualidade para a população e aumento da qualidade de vida nas cidades não geram PIB, não melhoram nossas estatísticas macroeconomicas nem re-elegem presidentes (ou sucedâneos equivalentes). Mais uma vez, voltamos ao problema de buscarmos apenas a riqueza econômica deixando de lado nossos patrimônios humano e natural. Não podemos apenas culpar o governo, que não age muito diferente do povo que se endivida por cinco anos para comprar um belo automóvel mas não para se aprimorar como pessoa. O governo gasta R$1.8 bilhões em seis meses para garantir a venda de carros (PIB, crescimento econômico) mas não percebe que este tipo de escolha faz com que, a cada ano, seu povo passe uma média de 3% a mais de seu tempo preso em conjestionamentos.

Fontes da numeralha - Para quem duvida, ou quiser pesquisar mais por conta própria
Relatórios da ANTP: Custos da Mobilidade; Relatorio Geral 2008; Relatório Comparativo 2003-2008
Relatório IPEA: INFORMES Ipea 013

3 comentários:

  1. Realmente, tudo indica que estamos caminhando para um caus, não um Klaus...calculado, maquiavelicamente. As montadoras estavam parando...por falta de vendas. Greves, ameaças de demissões em massa...OK. Fabricar carros parece ser a coisa mais importante que o Brasil tem para fazer? Ainda lembro do professor "Rob" de geografia...falando sobre o Brasil e seus meios de transporte...errôneamente usados. Na faculdade, aprendi para qual e que distância devemos usar o navio...o trem...o carro...a moto...e por ai vai. Fiquei de cara ao saber que: até 400 Km de percurso, o caminhão é a melhor opção logística para o transporte...mais de 400 Km já poderia usar o trem. Mas o trem...ficou esquecido...e depois...dado de graça para ALL...o espirito do Mauá deve estar na sombra do FHC...esperando o momento...hidroviávio então...devagar...mais devagar impossível. O Eike quase ficou com a sua Petromax...eitá FHC...só perde para o Menen...Estou divagando muito...chega. A parada é que: essa fara do boi...do cidadão, nem casa, ter e comprar carros de 60 mil em 80x...mais cartões de crédito...mais as tarifas abusivas dos patrocinadores de campanha (bancos) e a total falta de recursos...se acontecer...qualquer coisinha mais grave na economia...vai ser um holocausto. E pior, como os carros usados e velhos subvalorizados...esses automóveis...gastam mais, são perigosos, sem manutenção preventiva...a gente pode morrer por causa de um motorista destes tétanos sob rodas. Conclusão: FODEU.

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  2. Não xito, temos esperança, o trem bala está chegando para resolver nossos problemas...

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  3. São números, não tem como interpretá-los de forma diferente. São fatos!! E mesmo assim governo e população continuam idolatrando o automóvel...

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