quinta-feira, 3 de junho de 2010

Copa copa copa copa copa copa copa aahhhhhh!


Ano de copa do mundo de futebol, era só uma questão de tempo para este assunto pintar por aqui, e não para a surpresa de todos, muito antes da abertura oficial. Saliento o "oficial" pois a abertura já aconteceu faz tempo, pelo menos a das caixas registradoras.


Primeiro deixa eu esclarecer que eu gosto de futebol, é um excelente esporte. Trabalha a musculatura, o cardiovascular, ajuda a criar o sentimento de equipe e, como em todo esporte de contato, nos ensina a lidar com nossa agressividade natural. Além disso é um esporte muito democrático. Pode ser praticado com um mínimo de infra-estrutura improvisada e zero acessórios. Dois tijolos e uma bola de meia faz um campeonato. Acho que são poucos os esportes que podem ser comparados ao futebol se levarmos em conta todos estes quesitos.

Jogar futebol, jogo pouco, e mal, mas isso não tem nada a ver com o gostar ou não gostar, é uma questão de tempo. Gosto muito mais de voley, por exemplo, mas também faz muito tempo que não o jogo. Joguei bastante futebol com bolinhas de meia na minha infância, depois que as bolas de futebol foram abolidas do pátio do prédio pois danificavam os automóveis, uma das poucas paixões nacionais que fazem frente ao futebol (além de mulher gostosa e da cerveja sem gosto). Cresci sendo Flamenguista, pois morava no Rio de Janeiro, meu melhor amigo também era flamenguista, e minha irmã dizia que torcia pro Fluminense, provavelmente porque sua melhor amiga assim o fazia. É assim que se começa a torcer para um time. Nunca vi alguém analisar a preparação técnica, o orçamento, os jogadores e a performance do ano passado antes de escolher o time para o qual vai torcer. Simplesmente não é assim que funciona. Somos influenciados a torcer para algum time, e muitas vezes um time que não tem nada a ver conosco.

Esse é um dos pontos que me irrita no futebol. Vejo torcedores se agredindo, perdendo a cabeça, chorando pelo "seu time", enquanto jogadores, técnico e dirigentes trocam de time conforme a proposta financeira. Peraí! Porque eu não posso trocar de time de um ano pro outro e o Romário pode? Porque o meu time importa tanto para mim e tão pouco para meus jogadores? Porque eu não pude deixar de ser flamenguista quando o Romário e o Edmundo foram jogar no Vaixcão? Já não fui eu quem escolheu meu time, foi meu amigo, primo mais velho, ou meu pai ainda no berço! Agora que meu ídolo mudou de time, foi pra Europa, o técnico foi mandado embora porque, por azar, perdeu um jogo, o dirigente foi preso por sonegação fiscal e tráfico de influências, colocaram outro picareta no lugar, mas eu não posso mudar de time! Realmente não dá pra entender. O que faz de um Flamenguista um Flamenguista? De um Coxa Branca um CoxaBranca? Hoje em dia, quando atá a cor da camisa muda conforme o patrocínio, não é nem uma questão estética! Antigamente, nas origens dos clubes, estes eram feitos por seus frequentadores, patrocinados pelos sócios que eram os torcedores e que normalmente eram moradores da região. Naqueles tempos a qualidade do jogador dependia da qualidade da formação que o clube proporcionava para a sua molecada. Jogava no Santos quem treinava no Santos Sport Club. Hoje não passa de um negócio, onde os únicos que tem interesses diferente dos econômicos e fidelidade a um time são os torcedores, os pobres torcedores.

Dá pra ver que meu problema, na realidade, não é com o futebol esporte, é com o futebol jogo. Jogar futebol é esporte, mas assistir futebol e torcer por um time não é. Isso é entretenimento, lazer, perda de tempo, como preferir, menos esporte.

Jogo, de uma forma geral, sempre foi uma forma de entretenimento, em qualquer lugar do planeja ou ao longo da história vemos exemplos disso. Também é claro que o jogo, ainda de forma geral, vem sendo usado há muito tempo como uma forma de fazer dinheiro com o entretenimento. Isso também não é exclusivo ao futebol ou ao Brasil. Isso é global. O problema do jogo futebol é que essa indústria tomou dimensões totalmente desproporcionadas, ocupando desproporcionadamente o tempo, interesse e recursos financeiros destinados a essa indústria do entretenimento, e como todos estes recursos são limitados, o tempo, o dinheiro e o interesse, acaba sobrando pouco, ou as vezes nada, para o resto.

Por exemplo, hoje , em época de pré-copa, o Jornal Nacional, que tradicionalmente dedica 1 de seus 5 blocos ao futebol, vem dedicando mais um bloco inteiro para contar a história de cada jogador convocado para nossa heróica seleção. São 2/5 do tempo de jornalismo de horário nobre dedicados inteiramente a despertar o interesse do povão para as transmissões Globais, impulsionando o IBOPE da copa e, por conseqüência, o valor dos minutos comerciais nos horários de jogo e nos zilhões de horários onde idiotas ficarão discutindo os detalhes mais insignificante de cada jogo. Não que eu conte muito com o JN para me atualizar sobre o mundo, mas infelizmente é o único jornalismo que a maioria das pessoas tem, a melhor forma de saber o que acontece em Brasília, no golfo do México, na convenção da ONU ou em outros campos da arte e do entretenimento, inclusive outros esportes, é, existem outros.

Este exemplo é a ocupação desproporcinal do tempo. Mesmo sabendo que sobre dinheiro eu não preciso dar exemplo pois a coisa é escancarada, vou dar aqui alguns exemplos disso. Segundo o Estadão, especula-se que o total de patrocínio conseguido pela CBF até agora, entre Nike, Banco Itau, Vivo, Ambev, Nestlé, VW, Ceara, Supermercados Extra, TAM e Gillete, já soma mais de 120 milhões de reais. Isso é dinheiro que as empresas privadas dão à CBF em troca de comerciais, uso de bonés, mangas etc. O que cada empresa faz com seu dinheiro e como ela investe em seu marketing não é problema meu, mas fato é que este custo está invariavelmente embutido nas receitas destas empresas que vem, invariavelmente, da venda de seus produtos e serviços, o que, invariavelmente, rastreia este dinheiro diretamente de nossos bolsos. Ok, muitos vão dizer que se esses caras não gastassem este dinheiro patrocinando a CBF, eles iam gastar em qualquer outro tipo de marketing, certo? CERTÍSSIMO! Porque então o Itaú não patrocina a prefeitura de Niteroi com os apenas 15 milhões necessários para a retirada de todos os moradores do município das regiões de risco de deslizamento e desmoronamento (lembram dessa rabujada? deste episódio? eu sim!).

Ok, o dinheiro é deles, eles que façam dele o que bem entenderem, vamos falar do nosso dinheiro. O governa acaba de anunciar que os municípios que sediarão a copa poderão oferecer isenção de ICMS para a reforma e ampliação dos estádios da copa, e que o governo federal fará o mesmo desonerando o IPI, PIS/Cofins e Imposto de importação para os mesmos fins. Nosso sistema tributário é tão complicado que fica difícil estimar o que isso significa, mas eu acho justo chutar que isso vai representar uma redução de pelo menos uns 10% nos custos totais do negócio que hoje já se estimam em torno dos 100 bilhões de reais. Ou seja, são 10 bilhões de de reais do nosso dinheiro distribuído arbitrariamente entre as empreiteiras e empresários da copa. Isso é cerca de 1/5 do pífio orçamento federal para saúde ou para a educação de 2010. Isso é ou não é desproporcional?

Não quero discutir os absurdos salários de alguns jogadores nem os contratos milionários por mangas de camisa e coisa e tal. Não me sinto apto a discutir com a NIKE sobre como melhor distribuir seu orçamento. Apenas digo que não acho correto.

Vou para agora. Minha mulher ligou a televisão e agora o irritante zumbido do super torpedão da copa, da copa milhonária das casas bahia, do super feirão da copa da CCV me perturbam a concentração. É a propaganda tratando os milhões de idiotas como idiotas. Coisa que com toda certeza funciona pois a cada 4 anos é a mesma coisa. Ninguém aguenta!

9 comentários:

  1. Nick,
    Talvez por ser um pouco mais fa do futebol-entretenimento, talvez por outros motivos, nao vejo essa febre pré-copa tao negativamente (acento no "tao"). Nao me importo muito com o fato de os patrocinadores botarem milhoes nesse negócio ou de os jogadores tirarem milhoes apenas para bater uma bola. Como vc disse, o dinheiro é deles. Pode-se criticar a opcao pelo futebol em detrimento de outros investimentos, mas a regra básica do marketing é investir onde se espera retorno. E em um sistema de livre concorrência, a propaganda é a alma do negócio (pode-se rabujar sobre isso também, mas isso já seria assunto para outro texto). Quanto aos jogadores, podemos também admitir que os valores sao irreais, mas o fato é que eles se pagam. E se pagam porque os jogadores trazem esse retorno aos seus clubes. Que as diferencas entre os seus salários e o do trabalhador médio sao uma injustica, também sabemos, mas prevalece a lógica de que recebe bastante aquele que traz rendimento (ao clube e ao patrocinador. Aí se pode dizer: bem, idiotas aqueles que pagam por isso, comprando ingressos caros, camisas caras, acessórios da Nike, assistindo a programacao esportiva etc... mas essa é uma opcao a meu ver tao idiota como qualquer outra de gastar dinheiro em um carro caro, em uma casa cara ou em um relógio de 10 ou 100 mil reais ou em um Iphone ou Ipad...enfim, o mundo capitalista é movido por opcoes idiotas dos indivíduos (idiotas).
    Um pouco mais indignado (pero no mucho) eu já fico com a cobertura jornalística, que realmente toma muito tempo. Por outro lado, percebo que aqui na Alemanha nao é diferente. Tudo bem, talvez nao sejam 2/5, mas pelo menos 1/5 do tempo se gasta com isso aqui também, inclusive os dois canais públicos, que teriam a obrigacao de "providenciar uma programacao de qualidade". O que eu percebo, no entanto, é que a atencao que a copa recebe nao vem só dos veículos que transmitem os jogos, mas também dos outros, o que me leva a pensar que nao é preponderantemente o interesse dos patrocinadores e sim o dos espectadores que define esta pauta: nessa época, se um veículo fala muito pouco sobre a copa, o espectador médio (o brasileiro como o alemao, e possivelmente os outros também) muda de canal para ver mais sobre a copa. Ou seja, novamente a culpa é dos consumidores (idiotas).
    Porém, o que realmente me tira do sério, diante de todas essas questoes menores, é financiar estádios com dinheiro público, como vai certamente ser o caso no nosso Brasil. Porque aí nao é mais o dinheiro de cada um, com suas opcoes individuais e idiotas. Aí é o nosso dinheiro, a grana da coletividade, servindo para um fim privado. Se é verdade que a copa pode trazer coisas boas para o Brasil, que deixássemos os estádios para os interesses privados e que o dinheiro público se concentrasse para melhorar nossos aeroportos, nossas estradas ou o transporte público. Infelizmente, isso é querer demais: as enquetes feitas até agora demonstram que a maioria apoia o financiamento público de estádios de futebol. E que venha o circo, pois o pao o bolsa família já garantiu! Ivens

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  2. Enquanto isso, em Cubanakan...o Sarney continua lá, O Justos e o Kurinho...a família Bibinho...

    Esse ano...copa, eleições...NÓS ESTAMOS VERDADEIRAMENTE sujeitos à prova de que somos apenas um monte de amêbas fazendo sim com a cabeça, vidrados no nada. SODA.

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  3. Grande Ivens, concordo contigo... o dinheiro é deles, mas não gosto da forma como eles gastam seu dinheiro. O único que posso fazer é, como minoria, comprar tênis de outra marca, voar com outra companhia aerea. Aí fica a pergunta, vale mais voar com a TAM que dá cheques à CBF, ou com a GOL que da cheques a Senadores... já que ir a pé da trabalho, vou ficar com a CBF.
    Quanto ao retorno do marketing e às injustiças salariais, também estou contigo, o problema é o sistema. Mas de novo, não é porque o sistema é mais forte que eu que preciso gostar dele.
    Concordo contigo também que o problema não é aqui, é global. A Alemanha é igual, a Inglaterra é pior, mas estou aqui agora, fazer o que.
    Sei lá, difícil discutir com um cara como você... escritor, mestre, doutorando, quase doutor... um dos cérebros respeitáveis da familia, ainda por cima com sua humildade e "de bem com a vida" exemplar, que só você tem! Mas porra! Tinha que torcer pro Coxa???! Meu! Explica isso! Não consigo entender! Grande Abraço!

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  4. Xiitus... grande inspirador... às vezes não entendo teus grunidos... mas tudo bem... as vezes dá vontade de abrir uma coluna xitus no blog do rabjua. PARCEIRO!

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  5. Mais um ponto que esqueci de comentar (quando fui interrompido pelo super feirão da copa e pelo torpedão da copa. Toda essa meleca e febre de futebol tem, sim, base no "fascínio" da grande população pelo esporte do Pelé, mas é, com toda certeza, um fascínio artificializado pelo merketing que está sempre nos impulsionando em direção ao consumo em massa. Até hoje não foi inventado nada mais lucrativo que a tríade produção em massa, manipulação das massas e consumo em massa. Um jogo, uma transmissão, um bloco do Jornal Nacional contra milhões de fanáticos. Muito mais fácil do que der que fomentar e lucrar com a diversidade natural.

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  6. Vou ser curta e espero ser prática ao tratar da questão: eu queria aproveitar o silêncio e tranquilidade do meu local de trabalho para colocar várias coisas em dia, no dia do jogo que é às 11:00. Mas parece que não haverá ninguém para abrir a empresa.
    Ah, mas tudo bem. Pena que eu ainda terei que devolver as horas que a empresa gentilmente me cedeu para assistir aos jogos, trabalhando até as 18:30 por uns dias. Quem disse que eu posso fazer isso? Mas dá-se um jeito. Imagina! Não querer ver os jogos da copa? E as profes da escola da minha filhinha que também querem assistir aos jogos? Como ter assunto para as conversas e críticas e comemorações depois? Quem é o E.T. que não assiste os jogos da copa? Quem nesse planeta não sabe a escalação dos times, e anos depois, não lembra do gol do fulano de tal contra o time tal?
    Um plâncton no meio do mar.
    bjo
    Plâncton.

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  7. É verdade, no fundo vc tem razao, Nich! Agora, torcer pelo coxa nao é tao ruim assim, ainda mais agora que descobri que tenho um primo flamenguista....tá louco hein? Ivens

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  8. Gi, aqui na fábrica vamos ter que parar também... mas até agora ninguém falou em repor as horas, e quem quiser continuar trabalhando SOZINHO, vai poder. Na realidade eu gosto de ver os jogos do Brasil na copa, só precisamos entender que isso não é importante, é apenas divertido. É muito provável que vou ver o jogo sim ao ívéz de trabalhar, mas acho um absurdo que se coloque a copa do mundo em um status de importância grande a ponto de instituirmos um "feriado" na hora do jogo. Duvido que, por exemplo, nos liberariam para assistir a um debate entre os futuros presidenciáveis, nunca aconteceu. Mas esse é o problema de sermos minoria, plâncton, sei lá oque, teus direitos são ignorados, em qualquer situação.
    sds
    protozoário

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