sábado, 12 de junho de 2010

Mindwalk


O Filme

Este mês foi finalmente lançado em DVD, depois de anos apenas disponível em VHS (mas não me pergunte em que locadora) o filme "Mindwalk", ou em português, "O Ponto de Mutação". O filme é baseado no livro homônimo "TheTurning Point" do já mencionado Fritjof Capra. O encontrei na minha locadora no domingo à noite e o re-assisti prazeirosamente, boicotando a limitada programação da TV de final de semana.


Adaptações de livros, geralmente de romances ou ficções (confesso que não sei bem a diferença entre estes dois gêneros) são sempre um enorme desafio. Agora imaginem a adaptação de um ensaio de mais de 450 páginas escrito por um Austríaco, radicado nos Estados Unidos, PhD em física teórica e física de partículas? O livro é difícil, complexo, visionário, profundo, mas excelente. Publicado em 1982 já levantava muitos problemas que hoje ainda são discutidos demagogicamente como se fossem novidades. O filme, de 1990, é lindo e deliciosos de se assistir, mas claro, não tão profundo e complexo quanto o livro.

O filme deve ter uns 4 atores e 4 figurantes. Retrata basicamente um dia de passeio na maravilhosa cidade francesa de Saint Michel, durante o qual dois amigos americanos, um deles o candidato perdedor da então última eleição presidencial dos Estados Unidos, em meio a uma crise de "o que é que eu faço agora?" e o outro, um poeta frustrado que mora em Paris. Estes dois, se encontram ainda no comecinho do filme com uma física Norueguesa que largou suas pesquisas nos Estados Unidos por motivos éticos e hoje se esconde na cidade de Saint Michel. As discussões entre os três são ótimas, começa pelos malefícios do mecanicismo de Descartes e passam por ecologia, visão sistêmica, política e frustrações humanas. Imaginem só por que adoro este filme?

A Grande Questão

Em todo caso, o objetivo do tiozinho rabugento aqui não é fazer crítica de cinema nem críticas literárias. O que me inspirou a rabujar aqui foi um momento do filme em que o político desafia o cientista e o poeta com um questionamento semelhante a este:
"... se para reduzir a destruição da Amazônia Brasileira e ainda melhorar a saúde dos cidadãos americanos, diminuindo inclusive os custos previdenciários da obesidade e hipertensão, eu, como líder de uma nação, sobre-taxasse a carne vermelha, aumentando drasticamente seu custo, o que vocês acham que aconteceria comigo ou meu partido nas próximas eleições? A opinião pública de comedores de hambugers se voltaria contra mim, a indústria do fast food, alimentícia, abatedouros, criadores de gado e importadores de carne vermelha voltariam todos os seus lobies contra mim, sindicatos se voltariam contra mim reivindicando todos os milhões postos de trabalhos que estas indústrias perderiam, milhões de dólares antes destinados à minha campanha migrariam automaticamente para a campanha do outro! Como vocês sugerem que um político possa ir contra a opinião pública do país que o elegeu e contra os valores capitalistas que já imperam a quase um século na política e na economia, por mais que seja realmente para um bem maior, coletivo, duradouro?"
Fudeu! É claro que a resposta não é devidamente trabalhada num filme de duas horas, e neste momento a física dá a única resposta correta (porém inútil) que é algo parecido com isso:
"...o que precisa ser mudado é a percepção, a perspectiva que temos do mundo, o senso comum..."
Convenhamos, frase que poderia ter vindo do mestre Yoda, do Dalai Lama: exata, bonita, mas abstrata demais para ser de alguma utilidade nas mãos de um político a não ser para enriquecer sua própria demagogia.

O Político ou o Líder

Para mim, a pergunta do político fictício é exatamente o que diferencia um líder de um mero presidente. Qual a diferença entre liderar uma nação ou administrar uma nação? A administração é feita de estratégia, negociação, compromissos, acordos, política, enquanto a liderança é feita de visão, sonho, contágio, mobilização. O que toda a nossa máquina política faz hoje é nada além que administrar sua situação, seu orçamento, metas de crescimento, um povo que não sabe o que quer, tudo para manter a estrutura de poder, seja em suas próprias mão ou seja nas mãos dos outros, mas sempre nas mãos dos poucos endinheirados cujo objetivo principal é o poder e seus maravilhosos frutos.

Para um líder não é assim. Para o líder é tudo ou nada, não há compromissos. Se a indústria da carne vender menos carne paciência, que aprendam a vender algo mais saudável para o planeta! A indústria alimentícia que se diversifique para ajudar a sustentar as necessidades do pequeno produtor e a complexa logística necessária para se vender produtos perecíveis sem conservantes. Não foi isso o que aconteceu com as várias tecnologias hoje obsoletas? O que houve com a Xerox depois que inventaram a impressão digital? O que houve com toda a indústria de válvulas eletronicas? VHS? Foram todas substituídas por novas indústrias ou se especializaram em outro segmento! A tecnologia já trata de tornar indústrias inteiras obsoletas e criar outras, por que a política não pode fazer o mesmo? Falta de coragem ou excesso de compromissos?

E a Liberdade?

Mas aumentar impostos e privar o pobre de comer carne não é errado? Se essa for a única conseqüência de se aumentar os impostos, sim. Mas nada impede de se aumetar os impostos sobre a carne e com parte deste recurso adicional subsidiar restaurantes populares com uma refeição carnívora semanal,
e com o restante fiscalizar o crescimento de fazendas em área de preservação. Teóricamente é para isso que serve o imposto: fornecer os recursos para o necessário controle da atividade.

É, mas e o churrasco? Não deveria ser preservado como um legado histórico do povo gaúcho? Claro! Da mesma forma que devemos preservar a caças às baleias dos Japoneses, a caça aos filhotes de foca dos povos do círculo nórdico, a submissão às mulheres do islã, as touradas dos espanhois, o sequestro de crianças de tribos vizinhas para a formação de guerrilheiros-mirins em Uganda, o uso extensivo de motores V8 de mais de 4 litros na América do norte, etc. Por favor, estamos falando aqui em andar pra frente, não em manter tradições incompatíveis com o atual crescimento populacional! Lembrem-se da máxima que diz que a sua liberdade acaba onde começa a liberdade dos outros? Isso precisa ser aplicado também de uma forma sistêmica. Não podemos nos permitir sermos livres para destruir ou consumir ou subjulgar o que não nos pertence.

Sonho ou realidade?

Mas estou mudando de assunto. O líder é o cara que vai fazer o povo realmente querer alguma coisa em conjunto, como uma nação, ao invés de ficar bailando no caos de uma opinião pública fragmentada e egoísta. É sério! Tente satisfazer a todos e terás o caos! Tente satisfazer a poucos e terás o que temos hoje, desigualdade. Tente satisfazer à maioria e verás que, se existir um desejo comum à maioria, sua satisfação não será sustentável. O jeito é explicar, educar, ensinar que a satisfação pessoal e egoísta não é compatível com progresso sustentável, que toda decisão deve ser tomada olhando para o mundo daqui a seis ou sete gerações, não olhando para os interesses momentâneos do eleitorado e dos doadores para campanha. Ensinar que, por exemplo, se todos os mais de 1 milhão de carros curitibanos quisessem sair de casa para o trabalho ao mesmo tempo, ocuparíamos inteiramente todos os 4,8 mil quilômetros de vias da cidade em um gridlock sem precedentes.

Utopia, certo? Certíssimo, principalmente com os líderes, na verdade políticos administradores, que conhecemos hoje. Mas basta olhar para o passado e ver as grandes cagadas nas quais grandes líderes conseguiram meter suas grandes nações ao longo da história. Se conseguem fazer cagada, por que não conseguiriam fazer o bem? Chamar um sonho de utopia é o que se faz para se proteger dele, mas quanto mais acreditarmos na utopia, mais próximos delas conseguiremos chegar.
"Se é verdade que o sonho desligado da realidade é vazio, é preciso ter em mente que a realidade desprovida do poder transformador do sonho é deserta."
Eu acho que é exatamente isso que precisamos se quisermos sair da merda algum dia. Um líder com visão, motivado e capaz de conquistar a opinião pública na direção correta, com a coragem de falhar e perder o trono nas próximas eleições ou em algum ato de impeachment ou renúncia orquestrado pelas forças ocultas que atualmente detêm o poder (e já o detinham na década de 60), com coragem de admitir que não dá para mudar sem crise, e de dizer para os que estão por cima, que o objetivo é não ter mais esse negócio de ter um encima do outro, e pronto.

A perspectiva

Vejam que o atual discurso econômico onde políticos discutem PIBs e suas taxas de crescimento como principal critério para a definição de uma grande potência é como os jovens machos que disputam sua masculinidade pelo tamanho do pênis. A verdadeira riqueza de um país, do ponto de vista sustentável, não pode mais ser contada apenas pelo tamanho de seu pênis (PIB) ou da velocidade de sua ereção (crescimento do PIB). Melhor possuir um pênis modesto mas sob controle que um mega long-dong de tiro curto. As crises econômicas repetitivas nos últimos 50 anos demonstram claramente que uma economia não pode viver sempre à base de Viagra, mas é exatamente essa a visão de quem calcula seus lucros nos próximos 2 ou 3 anos, ao invés do próximos 20 ou 30, 200 ou 300. É pura imbecilidade colocar, para qualquer coisa, metas de crescimento incompatíveis com a capacidade real de sustentação deste crescimento.

Para sustentar ereta uma pica de 30 cm é preciso um coração de urso. Igualmente, para sustentar um crescimento de 5%  em um país sem massa crítica e desenvolvimento tecnológico sério, sem infraestrutura logística de qualidade que não seja baseada em subsídios a um óleo diesel de péssima qualidade, e sem a noção de que alagar enormes áreas de seu mais precioso recurso, e único no universo, sua biodiversidade, para se fabricar uma energia elétrica somente viável por conta de mais e mais subsídios na construção da usina e na venda da energia, é preciso de um milagre. Que não vai acontecer.

Conclusão

Concluindo meu prório "mindwalk", nosso líder precisa ter coragem, tem que ter uma visão, um sonho, e tem que ser capaz de contagiar o povo com este sonho, não pode ter o rabo preso com outros políticos, financiadores de campanha, classe empresarial, lobistas, representantes de classe e porra e tal, não pode ter uma ambição de carreira política que possa ser prejudicada por fazer inimigos poderosos, tem que ter uma compreensão sistêmica da economia sustentável, tem que entender o real valor da educação e capacitação de força humana, tem que entender o real valor das riquezas de um país e de como explorá-las de forma sustentável, tem que ser duro e maleável, capaz de liderar mas sem conceder compromissos que o desviem da rota mais certa para sua visão, não pode querer ostentar uma pica maior que seu coração e seus pulmões... e tem que ter a correta percepção do mundo, perspectiva!

As eleições estão aí, será que teremos candidatos?

7 comentários:

  1. Quando fizemos a especialização em análise ambiental...lá na geografia-UFPR em 2000...descobrimos o Capra...e melhor...que o finado Rui Celso Schettler Del Claro, vô materno da Lu...na época com 80 anos...um engenheiro civíl que criou o hidrante de recalque...que trabalhou no departamento de Águas e Esgoto do Paraná...antes de entrar esse merda de Esténio Jacob e foder tudo... com o nascimento da então"Sanepar". Ele não só tinha o Ponto de Mutação...como tinha a visão de um senhor com 80 anos...bem...vivídos e pensados. Uma pira...Nos mínimos detalhes. Tudo isso foi um pouco antes de ver e ler "O Contato" do Carl...e de ir pra a Pontal (Velho Leste Paranaense), Marambaia e Pico das Águlhas Negras...(onde tivemos o adestramento para então...) Antártica das Bananas Brasileiras...hehehe

    TEM FESTA JUNINA NA DUQUE HOJE...ENTRADA FRANCA

    11 ATÉ O FOGO APAGAR...VAMOS????

    ResponderExcluir
  2. Nikote.....acho q esta foi tua melhor rabujada!!!..engloba todas as outras!....sabe de algum "lider" hoje?

    ResponderExcluir
  3. Saber, pior que não sei. As escolhas são sempre bem limitadas. Por enquanto nenhum LIDER óbvio apareceu entre os candidatos OFICIAIS, mas acho que essa rabujada deixa bem claro que estou certo de que não escolherei nenhum dos dois lados dessa mesma moeda que temos hoje. Depois eu não quero começar a fazer campanha de nomes por aqui, apenas de idéias.

    ResponderExcluir
  4. Meu velho...não pense demais...que a coisa cerebral...pode dar pau. Quando a Giovana estava com 5 meses...tive um colapso. Precisando de um profissional...eu sei te indicar Brotha. A Lu ficou meio preocupada com você.

    ResponderExcluir
  5. Temos que agir na clandestinidade...político é certeza de corrupção. Podemos mudar o mundo...plantando essas sementes que nós estamos semeando...de boca em boca...de leitor em leitor...CALMA.

    ResponderExcluir
  6. To são xitus... dentro do (meu) normal... não sei por quanto tempo... o negócio é reservar espaço para outras coisas mais banais mas relaxantes. Intercalar o conteúdo... meu, vi um filme ótimo ontem à noite. Nada político ou existencial... de amor mesmo... vá atrás... "CASH BACK"

    ResponderExcluir
  7. É isso ai...então beleza. Blogar é expurgar...desopilar...dar um grito em palavras para dividir...nossos anseios. Em busca eterna aos seios.

    ResponderExcluir