quarta-feira, 19 de maio de 2010

Uma rabujadinha geral


Vivemos rodeados por nossos problemas modernos. Problemas que não existiam até que fossem criados por nós mesmos. Stress, hipertensão, ansiedade, obesidade, câncer, dependência química, poluição, exaustão ambiental do planeta, super-população, catástrofes naturais, mudanças climáticas, violência urbana, tensão social, insegurança, crises econômicasconseqüências sintomáticas modernas de nossos valores equivocados e egoístas.



Criamos os deuses para orientar, confortar e salvar as pessoas, e imediatamente começamos a explorar a fé alheia e nos matar em nome deles. Criamos uma estrutura social para que alguns de nós tivessem mais tempo para pensar em algo diferente da subsistência, criando a filosofia, ciência, e imediatamente passamos a usar desta estrutura para explorar e humilhar. Criamos tecnologias para facilitar nossas vidas e imediatamente fazemos um modo de vida muito mais complicado em torno delas. Prosperamos, enriquecemos e imediatamente nos tornamos escravos das ambições, abusando do conforto tecnológico a ponto de nos tornarmos dependentes, fracos, obesos, doentes. Adoecemos nosso planeta ao passar de todos os limites, populacional, de consumo, de confortos, limites econômicos inclusive, pois ultimamente até nosso endeusado capitalismo anda bastante doente.


Será que nossos ensinamentos religiosos estão realmente diminuindo o sofrimento no mundo? Será que nossos sistemas sociais estão realmente nos dando mais tempo para pensar em como melhorar a vida humana? Será que nossa agricultura moderna e indústria alimentícia está realmente tornando o povo mais saudável e bem nutrido? Será que nossa tecnologia industrial realmente está trabalhando para melhorar nossa qualidade de vida? Será que nosso capitalismo vai conseguir crescer infinitamente em um planeta esférico? Ou será que toda nossa teologia cria cada vez mais divisões, preconceitos e uma massa altamente influenciável? Ou será que nossa pirâmide social, cada vez mais larga na base e mais oblíqua no topo, vem apenas criando um sistema autoperpetuante de exploração dos poucos sobre os muitos? Ou será que a agricultura transgênica artificialmente adubada, juntamente com a indústria alimentícia, desenvolvendo seus processos para garantir a longevidade apropriada à distribuição logística do alimento por um mercado de extensão global, e também aos baixos custo exigidos por um sistema capitalista altamente competitivo, já não têm mais como principal objetivo alimentar pessoas para garantir a saúde. Ou será que a revolução industrial, ao invés de trazer qualidade de vida para o povo, vem criando massas des- ou sub-empregadas que trabalham as mesmas horas que se trabalhava nos séculos pré-revolução, para nem sequer conseguir comprar os produtos e serviços que passam a vida se prestando? Ou será que o capitalismo agora tão especulativo, vai ruir completamente quando percebermos que o lastro que sustenta toda a vida do planeta, consequentemente os sistemas que dela dependem, está por acabar, ou pelo menos se tornar escasso e inviável?


Não me levem a mal, sou rabugento, mas não sou necessariamente anti-progressista. Quem me conhece sabe que sou longe disso. Não sonho com o retorno de valores pré-messiânicos como o olho por olho, dente por dente. Concordo que, entre erros e acertos, alguns valores religiosos são válidos e até necessários, só não acredito, gosto ou aceito verdades dogmáticas, imutáveis e inquestionáveis, capazes de explicar o inexplicável e justificar o injustificável. Não acho necessário que voltemos a viver em tribos equalitárias onde todos exerçam as mesmas atividades para garantir a subsistência, sem escritores, músicos, engenheiros ou políticos, só acho que nada justifica as diferenças sociais de hoje, quando o cara que planta o arroz ou pesca o atum vale 50 vezes menos que o cara que só atravessa o produto, quando o cara que costura o logo da Nike vale 1000 vezes menos que o cara que sai sorrindo na propaganda em horário nobre. Só queria que os que vivem no topo da cadeia alimentar, compondo, jogando bola, fabricando cartões telefônicos, lembrassem sempre que para poderem se dar ao luxo de fazer o desnecessário, existe um multidão os sustentando com trabalho árduo e subvalorizado. Não sou contra o aprimoramento de técnicas agrícolas, sou contra o latifúndio altamente "produtivo", com as aspas para deixar claro que o conceito atual de produtividade agrícola, exterminando habitats, eliminando qualquer tipo de biodiversidade, exaurindo o solo e poluindo as águas com o uso de fertilizantes químicos que não nutrem mas "anabolizam" a colheita, não está correto. Não sou contra a tecnologia, sou até usuário dela, mas não lhes parece um absurdo que ainda tenhamos que passar mais de um terço de nosso dia diante de um computador capaz de processar informações milhões de vezes mais rapidamente do que um ser humano enquanto temos milhões de pessoas desempregadas sem ter o que fazer para se sustentar? E se a tecnologia nos permite sermos cada vez mais eficientes, por que não a utilizamos para trabalhar menos ao invés de ganhar mais? E a economia então, baseada no princípio de que se ganha dinheiro com dinheiro sobre os que não tem dinheiro (empréstimos, investimentos, endividamentos)? Se compra e se vende fumaça e especulações, e ainda se faz muito dinheiro com o negócio! É óbvio que de tempos em tempos as bolhas estouram. É irreal e errado.


Este é o mundo onde vivemos e que, teoricamente, construímos. Duvido muito que tantas pessoas discordam tanto de meus desacordos, mas a verdade é que apesar de desapontados seguimos nossas vidas alimentando este sisteminha falho. Quem não usa a fé para justificar alguns de seus atos ou muitos de seus preconceitos? Quem não explora a mão de obra barata da doméstica, pintor, pedreiro, lixeiro, operário? Quem não defende seu emprego fixo e luta por aumentinhos de salários mesmo sabendo que já está na parte oblíqua da pirâmide? Quem não lava as mãos com agua quente nos dias não tão frios do nosso inverno? Quem não usa o carro para ir à padaria? Quem não usa o ar condicionado em Curitiba? Quem não usa roupas de grife apenas pela temporada em que a moda o permite usar? Quem se sujeita a pagar 5 vezes mais por carne ou alfaces plantadas de forma improdutiva, porém natural, com todos os nutrientes que a terra tem a oferecer, diretamente do produtor que, alem de assegurar uma boa educação para os filhos, precisa pagar um plano de saúde para a família e ainda tirar umas férias uma vez por ano? São poucos, se é que existe alguém que se encaixe bem em todos esses requisitos de bom cidadão.


Não sonho com um mundo muito diferente, não sou um idealista, sou somente um rabugento inconformado. Só gostaria que fossemos um pouco menos hipócritas com nossas próprias preocupações e problemas. Gostando ou não da verdade, é importantíssimo conhece-la e aceita-la. Somente entendendo os mecanismos e sistemas complexos do mundo que criamos e sustentamos é que temos alguma chance de melhorarmos esse mundo. Como? Se interessando mais que superficialmente pelas coisas, agindo de forma consciente e consequente, usando o conhecimento para guiar nossa tomada de decisões. Muitos problemas pessoais podem ser resolvidos desta forma, e com o envolvimento de muitos, pelo menos o da minoria dominante, muitos problemas sociais também podem ser pelo menos encolhidos. Visão sistêmica. Recomendo Capra.

3 comentários:

  1. Se mais pessoas pensassem como vc, o mundo com certeza estaria melhor, por isso, continuar rabujando é essencial... continue sempre a nos fazendo pensar sobre coisas óbvias que com o corre-corre do dia-a-dia esquecemos e deixamos passar batido.

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  2. Além do Capra, também Milton Santos. Ou, em poesia, Marina Colasanti. Que tal Marx? Falo sério, verdade!!!! hehehehe...
    Agora, pleno acordo, sem nenhum peso na consciência... obrigada pelo mau humor! Esse eu também tenho, embora não tão ousado quanto o seu. Mas quem sabe não se pode contaminar o mundo com isso? Pelo bem dos nossos pequenos... Ei, que papo de bacuri é esse por aí?

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  3. Groucho Marx é bom mesmo.
    Bacuri? Planos, Gi, são planos... apenas planos. A não ser que o papi aqui seja o último a saber...;)

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