sábado, 17 de abril de 2010

A alienação ainda é parte do plano


"Se Deus quiser me levar, Ele não precisa de câncer para isso, agora, se Ele não quiser que eu vá, também, não há câncer que me leve."
Isso é o nosso excelentíssimo senhor vice-presidente da república falando em rede nacional durante a propaganda gratuita e obrigatória, convencendo o povo de que DEUS está ao seu lado em sua luta contra o câncer e tentando puxar mais votos para seu partido e seus aliados. Já falei em outra rabujada de alguns perigos das superstições, mas este tipo de manipulação de massa talvez seja o mais abominável de todos.


Passou recentemente por minhas mãos um artigo publicado na revista Inteligence (edição 37, de 2009) que compara índices de QI da população de diversos países com o nível de religiosidade de seu povo. Este artigo, chamado "Average inteligence predicts atheism rates across 137 nations" mostra claramente que existe uma relação inversa entre os dois, ou seja, quanto maior o QI médio do país menor é a proporção de crentes. O autor, Richard Lynn (não confundir com Richard Dawkins) já é famoso por estudar a inteligência humana e seus fatores determinantes de maneira direta e corajosa, com publicações ousadas comparando níveis de inteligência entre gêneros, entre raças, entre países e agora entre crentes e descrentes, sem, entretanto, ir fundo nas causas, uma vez que ele é psicólogo, não antropólogo nem historiador. O artigo não chega a dizer que as pessoas são crentes por terem baixo QI ou que têm baixo QI por serem crentes, apenas mostra a relação que existe. No gráfico que fiz à partir da tabela dada no artigo, mostro o posicionamento de alguns países como curiosidade.
Note que apesar de termos claramente menos religiosos em países com QI mais elevados, temos também uma dispersão muito grande desses pontos, ou como dizemos na estatística e no jargão popular, temos muitos pontos fora da curva. Cuba e Vietnam saltam aos olhos como países de médio QI porém elevada taxa de incredulidade. Estes pontos, segundo o autor, possivelmente se devem ao passado (e presente) comunista do país. O comunismo muitas vezes prega o ateísmo substituindo o messias pela figura de Lenin e os santos pela figura de seus líderes (Castro, Stalin, etc.), ou seja, são países onde a população acaba sendo submetida a outro tipo de propaganda e lavagem cerebral, no entanto, muito parecida e talvez equivalente à feita por religiões.
Por outro lado vemos a Polônia e a Itália entre os países de QI  pouco acima da média porém com um baixo índice de incrédulos entre sua população. Neste caso talvez seja porque estes países enfrentem uma propaganda religiosa mais rígida e intensa (o Catolicismo), sendo uma o berço do último Papa e outra abrigando (praticamente) sua casa e centro de poder. Marquei ali no gráfico, apenas por diversão, o posicionamento de nosso Brasil, alguns de nossos vizinhos (Venezuela, Argentina e Uruguai) e outros apenas por referência.

Apesar de gostar da provocante idéia, pessoalmente acho que esse tipo de comparação não leva a lugar algum. Concordo que quanto mais elevada a capacidade intelectual de um indivíduo mais propenso ele será a questionar proposições dogmáticas, mas comparar um indicador de inteligência com a crendice de um país leva as pessoas a pensar que crer em um deus é ou conseqüência de burrice ou causa de burrice (ou simplesmente burrice como acredita o outro Richard, o Dawkins). Eu prefiro pensar que as duas características tendem a andar juntas por outros motivos.

Meu argumento começa com a teoria antropológica do surgimento das religiões, quando a fé ou a superstição, palavras que essencialmente tem o mesmo significado porém uma rodeada por uma áurea de respeito enquanto a outra leva um tom mais pejorativo, surgiram para preencher as lacunas do conhecimento. Se entendermos a educação como uma forma de propagação do conhecimento acumulado historicamente e como um incentivo à formação de novos conhecimentos, fica claro o antagonismo entre os dois conceitos: quanto menos ciência mais superstição e quanto mais ciência menos espaço para a superstição (ou se preferirem, quanto mais educação e conhecimento, menos espaço para a fé). Alguns podem querer pensar que este raciocínio é apenas uma extrapolação do significado das palavras, mas não é. À medida que a ciência progride (sim, em seu ritmo lento, mas ao contrário do dogmatismo religioso, com um infalível mecanismo de auto-correção) menos espaço sobra para os deuses. Deus já foi responsabilizado pela criação do mundo em seis dias. Dogmas já pregaram (a ainda pregam) a superioridade do homem sobre a mulher, do banco sobre o negro, do hetero sobre o homo, da humanidade sobre a natureza, mas a ciência (astrológica, política, antropológica, biológica, ecológica) vem sistematicamente derrubando essas idéias. Já se tentou curar dores de cabeça com preces e exorcismos, hoje se usa a aspirina, já se acreditou que a Lua fosse a face rabugenta de Deus nos olhando de cima para baixo, enojado por nossos pecados, hoje entendemos de gravitação e já até pousamos sobre nosso satélite. Até o próprio vice-presidente, que tanto de Deus fala, no íntimo já sabe que é preferível confiar sua vida aos bem educados cientistas do hospital Albert Einstein que às orações e preces (seria interessante perguntar-lhe o que ele recomenda à população geral atendida pelo SUS). É a ciência tomando o lugar da superstição, pelo menos enquanto for conveniente, e o que vem acontecendo ao longo da história, só não acontece mais porque somos deficientes na propagação da ciência através da educação.

O argumento segue baseado nos fatos e dados. Não sou especialista em QI mas entendo que o QI de um indivíduo deva ser o resultado de fatores genéticos (inteligência herdada do pai e mãe) e de fatores do meio (alimentação, estímulos e educação). A educação, por sua vez, como fonte de estímulos e fator imperativo para o aumento da qualidade de vida, incluindo a alimentação, poderia ser mais determinante que os demais para a média de uma país, uma vez que a aptidão genética a um bom QI deve ser aleatória, diferenciando gênios de indivíduos medíocres, mas sem ser determinante para o valor médio do país.
Com estes princípios em mente resolvi cruzar os dados de Lynn com os dados da ONU sobre desenvolvimento humano, com o Índice Educacional mais especificamente. Tal índice da ONU é uma combinação do índice de analfabetismo em adultos com a distribuição do nível de escolaridade entre os alfabetizados. Este índice tem a deficiência de não avaliar a qualidade da dita educação, mas é o que melhor conheço para comparação entre países.

Comparando o Índice Educacional com o QI médio dos países temos uma clara relação direta (gráfico), com uma ampla variação, provavelmente devido aos outros fatores determinantes do QI como os já mencionados herança genética, alimentação e muito provavelmente, a não avaliada pela ONU, qualidade da educação.


Acho que essa relação nem é polêmica nem carece de maiores explicações, mas é importante para demonstrar que o ruído presente no gráfico de taxa de incredulidade contra o QI médio pode ser diminuído bastante trocando-se, através desta relação, o eixo QI pelo eixo Educação, caindo no seguinte gráfico:


Note que neste gráfico temos menor dispersão de pontos e menos exceções. Ainda vemos o Vietnam e alguns outros países lá encima na faixa dos incrédulos, mas Cuba, Singapura e outros ficam muito mais enquadráveis à regra.

Para os crentes que ainda estão incomodados com esta argumentação (mesmo não sendo isso que estou fazendo, ninguém gosta de ser chamado de burro ou mal educado) podemos trocar o termo "crente" por "indivíduos com alta capacidade de acreditar nas coisas que lhe são ditas, seja no altar, seja no palanque eleitoral", ou para encurtar, "inocentes".
A educação visa retirar as pessoas da inocência, no bom sentido. É muito mais fácil para um inocente aceitar que para os mártires existem dezenas de virgens esperando no paraíso, que orações serão atendidas, que a crise no Brasil será apenas uma marolinha, que nunca antes na história deste país se investiu tanto em educação, do que para um indivíduo educado, familiarizado com a história humana, sociologia, economia, etc. É muito fácil para um inocente cair na balela do nosso atual vice-presidente e acreditar que votando nele ou em seu indicado, estamos votando em alguém que tem um deus ao seu lado.

Acho que o ponto mais importante é este, se quisermos algum dia sonhar com uma democracia verdadeiramente representativa, onde o povo escolhe conscientemente o seu representante eleito ao invés de se deixar enganar com charlatões-de-deus, com pseudo-economistas populares ,com propaganda política mentirosa trazendo números totalmente fora da realidade, precisamos de educação. Não apenas de índices médios e superficiais de educação, mas educação completa, séria e de qualidade para todos. A temática da fé levantada nessa rabujada é apenas um exemplo engatilhado pela absurda campanha do PRB levada a meus sensíveis ouvidos pela voz de seu representante-mor vice-presidente da república. É, claramente, um exemplo sério, mas toca apenas um campo de nossa ignorância. A falta de educação em todas as áreas da ciência ,incluindo matemática, economia, história, política, arqueologia, biologia, e assim por diante, são também chocantes. É certamente um dos maiores fatores responsáveis pela minha desesperança a respeito de meu país, uma vez que nessa área não vejo absolutamente nenhum sinal de mudança positiva. Muito pelo contrário. A propaganda do PRB escancara a conveniência da situação.

6 comentários:

  1. Colocar Deus...para conseguir as coisas...é usual deste ser hipócrita por "Excelência"...hahahaha
    Desde o vagabundo que pede esmola no sinaleiro, aqueles filhos da puta que tacam um pacotinho de balas no espelho do carro...lá no fim tem alguma coisa escrita Dele. Coitado do Jesus, que até hoje, no meu ver. SÓ FOI USADO. Tudo em nome de um medo, de uma graça...os charlatões usam e abusam disso. Sempre, e sempre será assim. Sempre existirá os ignorantes, os tementes...os idiotas para sustentarem esse negócio...que não paga imposto...etc e etc.
    Lá na loja já atendi muito aquelas merdas de gente com fotos e receitas de hospitais...de pessoas com doenças terminais...HAHAHAHAHAHA. Geralmente crianças...que rendem mais. E têem a cara de pau de desfilar com outras roupas...e atitudes...com o fruto deste 171. Esses sim...devem ir para o INFERNO. Enganam trouxas pior que as ciganas. Essas, realmente lêem a desgraça na cara de otária da pessoa...não na mão. hehehehehe

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  2. ... é xito, e enquanto que o cara que finge ser médico é preso, o cara que finge incorporar um médico é homenageado...

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  3. Eu colocaria de outra forma, as pessoas extremamente religiosas são no mínimo estranhas, quanto aos crentes (que não significa que são religiosos) não faço nenhuma relação com Q.I. baixo ou alto é uma questão de opção, mesmo sabendo que a crença possa ser somente um alicerce para suportar as tristezas da vida. O fato é que ninguém provou a existência ou não de um Deus, portanto qualquer um dos dois (crentes ou não crentes) podem estar completamente equivocados - o importante é estar ciente disto.

    Sobre a educação e a desesperança no país não acrescentaria uma só palavra, faço minha suas palavras.

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  4. É Lu, realmente há controvérsias se a inexistência de provas é ou não prova da inexistência. O que não nos falta são provas da existência de charlatanísmo... isso temos para todos os lados. Por isso que a fé cega aliada à ignorância é perigosa.

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  5. Nikote....teu pensamento é meu tbém, mas complementaria q a religião, etc...é a muleta, o metodo mais fácil e comodo usado para "TENTAR" justificar o absurdo,...o sentimento de inadequação da vida em si......é jogar as respostas nas costas de outro e não pensar tbém no absurdo desta existencia de deuses....e aí vai...
    bjocas

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  6. É... mas pensando bem quasares, pulsares, universos adjacentes em processos contínuos de expanção e retração também são absurdos para quase todos os cidadãos do mundo. Talvez o mais importante não seja o absurdo no qual você deposita tuas convicções, mas sim as motivações por traz delas. Talvez...

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