domingo, 7 de março de 2010

Sobre as singulares vida e morte



Interessante como a morte de um desconhecido pode nos afetar. Interessante não apenas o fato da morte de um desconhecido nos afetar, mas principalmente as formas como a morte de um desconhecido pode nos afetar.
Meu desconhecido Valdo foi encontrado morto em sua barraca, com todos os seus pertences e sem sinal algum de violência. Morreu de “morte morrida”, ou melhor pensar de “vida vivida”.

No Domingo, dia que antecedeu sua morte, Valdo pedalou de Punta Prieta até o Lago Chapala, por cerca de 70 km, onde, no restaurante Rancho Chapala montou sua pequena barraca verde que o protegeria dos ares da noite, para não mais acordar. No dia anterior, Sábado, a pedalada havia sido mais longa, 116 km desde as minas de sal de Guerrero Negro. As pedaladas já faziam parte de sua rotina há muito tempo, mais precisamente 342 dias. Quando morreu, Valdo já havia colocado mais de onze mil quilómtros entre sua cidade, Joinville, em Santa Catarina, Brasil, e sua bicicleta, a Cruzbike, carinhosamente chamada de Tanajura, agora enconstada ao lado de um pequeno restaurante na região de Juarez, Baja Califórnia, México, a cerca de 700k da fronteira dos Estados Unidos. Faltavam mais alguns meses para o Seu Valdo completar a primeira perna de sua missão de paz até o Canadá, mas depois continuaria pela Europa, África, Ásia e Oceania, terminando na Nova Zelândia em 2013.

Com mais de 60 anos de idade, padre Valdo havia pedido um tempo pra batina com a desculpa de que necessitava de um tempo para uma auto-reflexão, porém mais que pura reflexão, passou três anos planejando e se preparando para esta viagem solo, sem companheiros, sem hidrocarbonetos, apenas experimentando cada centímetro de estrada com seu prórpio corpo. Dizia que seu objetivo era levar a paz para o mundo, e acreditava que se, como ele, outros fizessem o mesmo (não necessariamente pedalando), o mundo poderia ser significativamente mudado, como “grãozinhos de areia compõe uma bela praia”, dizia ele. Escreveu ele no prefácio de um de seus livros:
“Mais do que viagem ou aventura no sentido físico, (...) uma experiência vivida em terras estrangeiras, nas terras inóspitas e belas (...) e nos terrenos delicados e sensíveis das relações humanas”

Como eu disse, Valdo para mim, era um desconhecido. Minha compreensão do Valdo não vem de contatos diretos ou indiretos. Nunca o vi, nem sequer sabia de sua existência ou da existência de seu mega projeto “pé na estrada” até receber a notícia de sua morte por um site que frequento. Mas como mencionei no início do post, isso mexeu comigo. Quando li o rápido informe do site do Grupo Transporte Humano segui todos os links para saber mais do Seu Valdo. Achei o seu diário na web, seu Picasa (álbum de fotos), inúmeros vídeos no youtube, alguns filmados por ele, outros fragmentos de programas de TV onde ele fora entrevistado para contar suas histórias, e me comoveu a imagem alegre de um senhor sorridente, saudável, de barbas brancas e em algumas imagens bastante longas, pedalando sua Tanajura pelo mundo do desapegamento e de contatos humanos e com a natureza.

Não sei dizer se foi bem a morte que me comoveu, na verdade, ultimamente morte não tem me comovido tanto. No caso do Seu Valdo, duvido que a morte lhe tenha chegado tão mal assim.

Com certeza o Valdo não queria morrer. Sua missão não tinha nada de suicida, pareceu-me muito bem planejada. Valdo tinha contatos, mantinha um diário muito bem feito com fotos, vídeos e pequenos relatos, tinha um dinheirinho, tinha saúde, preparo físico, sabia muito bem o que estava fazendo, e tinha total convicção de que terminaria 2013 no novo mundo oceânico. Mas mesmo não querendo morrer tenho certeza que Valdo morreu bem, feliz, livre, mais livre do que eu com certeza e provavelmente mais feliz (olha que, por incrível que pareça pelas minhas rabujadas, me considero feliz!). Acho que o que me comoveu foi o fato de Seu Valdo representar um pedacinho de minhas próprias frustrações, de ser um pouco de o que eu gostaria de ter sido se não tivesse sido, de certa forma, empurrado para um mundo de responsabilidade e falsa segurança, e de que seus planos reais acabaram sendo também frustrados pela inevitável e inesperada chegada da morte. Já citei Chris McCandless antes em muitas conversas, mas esta cabe como uma luva no que eu quero dizer aqui:
“Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espírito, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do homem que um futuro seguro. A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é a sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante, cada dia um novo e diferente Sol.”

Conheço algumas histórias de gente que morreu prematuramente fazendo exatamente o que tinha que fazer, livres, realizados e verdadeiramente felizes - McCandless é uma delas e magnificamente relatada em livro e filme. Mas conheço muito mais histórias de gente que morreu de forma muito mais trágica, às vezes até tardiamente, mas ainda não realizados. Talvez o conceito de morte prematura e trágica é que esteja errado. O termo não deveria estar ligado à idade da pessoa nem à naturalidade ou à improbabilidade do evento, mas ao teor de liberdade da situação que levou o indivíduo à morte. Da mesma forma que o conceito de morte natural está obviamente equivocado, afinal, nada mais natural do que a morte.

Já rabujei antes sobre a supervalorização da vida. O estar vivo e o permanecer vivo são frequentemente superestimados a ponto de cometermos crueldades inimagináveis com outras pessoas, privando-as de uma morte digna ou forçando-as a vidas sem sentido. O que precisa ser muito mais valorizado é o “o que fazemos com a vida”.

Seu Valdo estava trabalhando muito bem este aspecto.

5 comentários:

  1. nich, acho que aqui cabe bem a frase (ou dito popular) que diz que o que importa é a qualidade e não a quantidade.
    importa mais o que uma pessoa realiza em sua vida do que os anos que ela está 'viva'. a qualidade sobre a quantidade.
    e concordo com o padre valdo qdo ele propõe que o mundo seria um lugar muito melhor se mais pessoas tivessem uma atitude de maior boa-vontade uns com os outros, como “grãozinhos de areia compõe uma bela praia”.
    tem uma história que ouço desde pequena sobre um homem que todo dia cedo ia à praia jogar novamente para o mar as estralas-do-mar que amanheciam na areia antes que o sol as queimasse e elas morressem. qdo lhe disseram que isso não ia adiantar nada, que ainda sim a grande maioria iria morrer, ele pegou mais uma estrela-do-mar, a jogou o mais longe que pode e disse: para esta aqui eu fiz a diferença :)

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  2. É, depois que nasceram as duas. Não mergulho...não salto de paraquedas...andar de bike em estradas...nem pensar. Já me arrisquei demais antes. Depois de encaminhadas...voltaremos as aventuras radicais.

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  3. isso aí o movimento deve ser constante e a vida deve ser o meio para não ficar e sim andar os caminhos e como diz A. Machado "al andar se hace el camino y al volver la vista atrás se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar". Cada um de nós temos um destino mais é responsabilidade de cada encontrar os temperos e sazonar a nossa vida pois só temos uma! Até

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  4. Parabéns Senhor Rabuja! Te passei um sms mas não sei não...

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  5. Hoje, dia 15 de março, segunda-feira, às 19hs a turma da bicicletada-curitiba está organizando uma palestra/debate com David Vanegas e Diego Cardona, membros da `Cicloexpedicion por Suramérica’, projeto composto por 14 ciclistas colombianos que estão percorrendo todos os países sulamericanos para promover a bicicleta como um veículo da paz, da sustentabilidade e da igualdade entre os povos.

    Tentem ir, prestigiar os companheiros, e, se possível, ajudem a divulgar um pouco mais.

    Este é o site do projeto: http://www.cicloexpedicionporsuramerica.org/

    Palestra: A Bicicleta como ferramenta de resistência ao modelo de desenvolvimento capitalista
    Local: Prédio Histórico da UFPR (Pça. Santos Andrade) – Núcleo de Psicologia do Trânsito
    Quando: às 19hs desta segunda (15/03/2010)
    Entrada Franca!

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