quarta-feira, 24 de março de 2010

Quanto custa e quem está pagando?


Dia Mundial da água!

Nada como um dia mundial de alguma coisa, quando a desinformação e a hipocrisia aflora nas pessoas e na mídia para inspirar o rabujento aqui a latir. Ouvi merda no jornal do SBT, ouvi merda no trabalho, ouvi merda no rádio. Logo no dia em que devíamos estar falando sobre os problemas da água, merda, mais merda para nossa rede de esgoto não tratado. ("Merda" é uma bela palavra, adoro usá-la, é daquelas que dá prazer em falar, especialmente se enfatizarmos sua sílaba tônica "mé" e arrastarmos bem o "R" no estilo carioca!)


Não sei o que é pior, se é a falta de informação ou se é a informação errada, ou usada de forma errada, pois para mim ainda há dúvidas se as informações erradas não são plantadas por interesse de quem a planta ou se é pura ignorância mesmo.

A campanha para economizarmos água que mais vi esta semana está errada, é hipócrita, no mínimo burra! Foi aquela balela de não jogar papel no vaso, fechar a torneira para escovar os dentes e fechar o chuveiro para se ensaboar. Não me leve a mal, isso é bom, ajuda, mas é muito pouco. Esse tipo de campanha se baseia na estúpida idéia de que se todo mundo fazer um pouquinho, atingiremos juntos grandes resultados. A realidade (e a matemática) diz que se todos fizermos pouco, pouco se conseguiremos! O problema de fechar o chuveiro para tomar banho e só puxar a descarga quando o banheiro já estiver fedendo é que, em média, o consumo doméstico só representa uns 7% do consumo global de água doce do mundo. Ou seja, se todos se comprometerem com essas atitudes e conseguirem realmente reduzir o consumo em 10 ou 15%, conseguiremos baixar o consumo global em cerca de 1%. UAU! Para economizar de forma a realmente fazer diferença, de forma a fazer frente ao enorme crescimento populacional e enorme crescimento no consumo, temos que ser muito mais inteligentes e comprometidos do que o "todos fazer um pouquinho". A falácia do "não faça grandes coisa mas sinta-se bem por isso" náo vai nos ajudar nem a curto nem a longo prazo.

Minha teoria (lá vem!) é que se não é por pura ignorância que divulgamos essa idéia de que coletando a água do banho para lavar o carro estaremos salvando o planeta, é porque essa idéia foi plantada por interesse de alguém. Quem se interessaria por essa enganação? Para quem é que essa mísera economia de 1% faria alguma diferença afinal se não para o planeta? Aqui no Paraná eu sei o nome, SANEPAR, que não tem interesse algum em fazer mais investimentos em infraestrutura para atender ao segmento menos rentável de seu lucrativo negócio, a população.

Note que mesmo sem estar salvando o planeta, se a crescente população não começar a economizar água, a companhia de abastecimento vai ter que seguir investindo para satisfazer a crescente demanda, e isso não é legal. O cálculo da conta d água, para pessoas comuns, não muda se o cidadão gastar muito ou pouco, a conta é definida por políticas públicas normalmente eleitoreiras e, muito provavelmente, não pagam nem os tubos de PVC que são enterrados para levar água pro cidadão. Sendo assim, a companhia de abastecimento tem que fazer a turma gastar menos possível, para poder concentrar seus investimentos no abastecimento dos verdadeiros clientes, a indústria, que no balanço global de consumo de água doce representa 23%, 3 a 4 vezes mais que o consumo doméstico e, via de regra, consome água tratada.

Saindo das teorias de conspiração e voltando à nossa mal dividida pizza de água doce, já falei dos 7% do consumo doméstico e dos 23% do consumo industrial, faltam os 70%, que vão para a agricultura.

Ok, água para nos alimentar é um consumo nobre, certo? Superficialmente certo. O problema é que nossa alimentação não é mais regrada pela nossa fome e muito menos pelo que a natureza nos fornece, mas por um mercado exploratório altamente lucrativo. Planta-se conforme o valor do produto, seja onde for, custe o que custar. Quando morei na Inglaterra comprei banana, manga e melões em pleno inverno, todos com uma bela etiquetinha os identificando como produto israelense. Pergunte-me como que os israelenses conseguem plantar melões no meio do deserto, exportar para a Europa e ainda competir em preço com o alhoporó e maçã regional. Olha, não sei, meu chute é que eles não pagam pela principal materia prima usada na fabricação de melões, a água. Na realidade, se analisarmos bem, ninguém paga por ela. Via de regra, na nossa cultura onde os recursos naturais não tem dono, não são de niunguém, não se paga pela água, ela é grátis, é pegar e sujar. Se pagamos cerca de 15 reais para ter água limpa na torneira é bom entender que estamos pagando pelo serviço de tratamento e distribuição se uma água que não foi comprada pela Sanepar, a água em si ainda é grátis! A maior parte da água fresca usada na fabricação de alimentos (leia-se agricultura) nem é tratada nem é paga, é simplesmente desviada de seu curso natural, matando rios, lagos, e mares. O mar morto não está morrendo só porque está evaporando, o fato de a agricultura israelense não permitir que o rio Jordão, entre outros, desemboque no mar morto com certeza está ajudando. O mar de Aral já morreu por isso faz tempo (agricultura extensiva na Russia). O rio Colorado, aquele rio potente que vemos cavando o Grand Canion também já não chega mais em lugar algum em certas épocas do ano, desaparece (evapora) depois de passar por cidades como Las Vegas, aberrações Americana onde, no meio de um deserto hotéis de luxo esbanjam água em piscinas, chafarizes e imitações bregas de Veneza, e onde quase 2 milhões de habitantes (considerando sua região metropolitana) também precisam ser alimentadas com muito gado e agricultura extensiva.


(1 e 2) Exemplo do mar de Aral, que já morreu faz tempo graças a excessos na agricultura soviética. (3) Foto aérea de irrigações no deserto Saudita (clique na imagem para aumentar)


Rio colorado ainda no national park e depois de cruzar a fronteira para o méxico. Mesma escala, tirada do google maps. (clique para ampliar)

Se tentássemos tratar o problema da escasses de água como resolvemos problemas na indústria - onde problema é perda de dinheiro e por isso é tratado seriamente - não estaríamos pedindo para as pessoas economizarem água ao escovar os dentes, mas sim ao sujá-los. Um kilo de arroz, precisa de um a três mil litros de água limpa para ser cultivado. Durante os cerca de três anos que leva para um boi chegar na idade de abate, ele precisa de cerca de 35 mil litros de água limpa. A indústria alimentícia é o maior consumidor de água do planeta. Para economizar água, devemos nos concentrar nos 70% do consumo e depois nos 23%. Os 7% deveriam se a última prioridade. É claro que toda gota ajuda, mas ao jogar fora 100g de arroz que sobrou do almoço, você desperdiça cerca de 200 litros dágua, cerca de 100 vezes mais que ao fechar a torneira para escovar os dentes. Porque é que as campanhas não falam isso? Talvez porque jogar arroz fora signifique ter que comprar mais arros, enquanto jugar um pouco de água fora não signifique comprar nada a mais, nem água, necessariamente.

A relação entre a agricultura extensiva e a água é tão forte que países deserticos, não democráticos e com as decisões capitalistas tomadas por um grupo pequeno de tiranos supostamente inteligentes - como a Arábia Saudita - já estão tomando sérias providências no campo da agricultura para garantir seu futuro abastecimento de água. Estes países descobriram que ao exportar grãos, eles estão, na verdade, exportando seu recurso mais precioso e mais escasso, a água (o petróleo é preciosos também, mas ainda não é tão escasso para os Sauditas). Os atuais produtores agricolas estão sendo forçados com metas para a cessar o cultivo de produtos que exigem altas quantidades de água para voltarem a produzir produtos naturais do deserto (como tâmaras), ao mesmo tempo em que o governo está comprando terras em outros países para garantir seu abastecimento de comida utilizando a água e terras "alheias". Esses caras estão comprando terras nas África, na América do Sul, Brasil inclusive, compram praticamente em todo lugar que estiver vendendo. Fantástico! Para preservar sua água esses caras estão comendo com a água de outros países (pobres e trouxas) e pagando a terra com dinheiro ecologicamente sujo do petróleo.

Conclusão, quer economizar água e ajudar a salvar o planeta? Se fosse para dar apenas três dicas eu daria as seguintes:
1. Não disperdice nada, principalmete comida: Tudo o que temos e consumimos utiliza recursos naturais em sua fabricação inclusive água. Comida, especialmente, leva MUITA água. Portanto não a desperdice.
2- Evite produtos e alimentos industrializados: Os orgânicos e naturais podem ser mais caros, mas são melhores para a sua saúde e para a saúde do planeta. A agricultura extensiva mata. Mata ecossistemas, consome e polui muito mais água que qualquer outra atividade humana. Além do consumo de recursos naturais (água, solo e a destruição de áreas de mata para o plantio que satisfaça a crescente demanda) a agricultura extensiva também consome muita energia na logística necessária para sua distribuição e industrialização, sem contar com as perdas durante o transporte e armazenagem.
3- Coma as frutas e verduras da estação e nativas da região onde você vive. Vegetação nativa exige menos investimento para prosperar, enquanto frutos foras de época são ou irrigados extensivamente ou importados.

Sim... não lave a calçada, feche a torneira, use descargas económicas e o mínimo possível, re-utilize água da máquina, plante vegetação nativa em seu quintal, etc. Tudo isso também é bom, mas é muito pouco.

3 comentários:

  1. Lindo! Bravo! De uma olhada no site da National Geographic - ate o começo de abril vc pode fazer um download de um special issue so sobre a agua de graça. Eu fiz o download mas ainda nao tive tempo de ler...Tenha um bom dia e cuidado com o mau-humor...segundo o filme " What the bleep do we know?" o ser humano pode se viviar em emoçoes!!

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  2. De graça? Putz! Acabei de voltar do aeroporto com a edição especial embaixo do braço! Bem pelo menos ganhei um poster!

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  3. Pois é, você deveria participar do encontro mundial da água, ano passado aconteceu em Istambul e esse ano acontecerá em Nairobi, Quenia. Segundo alguns sites e jornais o do ano passado não chegou a lugar algum. http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5h9oKRBkH1CjP_t_zJF9WW4GPN8Wg

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