segunda-feira, 1 de março de 2010

O mal educado


Para onde foi a educação? em seu sentido mais amplo possível! alguém viu? alguém lembra dela? pior, alguém sente falta? O amplo sentido sobre o qual rabujo abrange desde o mais básico "bom dia" até a mais complexa educação científica, conhecimento, confundida com o "ensino superior", passando também por como se comportar no trânsito, onde atirar a bituca de cigarro e se preferimos aprender sobre a Índia com Parag Khanna ou com Gloria Perez.


Tenho um palpite interessante analisando parte da histórioa de nosso curriculo escolar. Até 1968, ensinavam-se, nas escolas do Brasil, coisas como Filosofia e Sociologia. Isso era sinônimo de educação? claro que não! mas sem dúvida ajudava nos (seres humanos, brasileiros) a pensar. Em 68, ano em que fomos guiados pelo excelentíssimo senhor presidente Costa e Silva, senhor da nossa ditadura por aproximadamente dois anos, e que, em Curitiba, nem nome de rua virou, nossos comandantes resolveram que o pensamento não era mais uma disciplina útil para um povo e tais disciplinas passaram a ser consideradas "subversivas". Sociologia e Filosofia foram então substituídas por outras duas competências chamadas "Organização Social e Política Brasileira" e "Educação Moral e Cívica" (OSPB e EMC obvia e respectivamente). Agora nós não pensávamos mais, não tirávamos nossas conclusões sobre o que era melhor ou pior, sobre o que queríamos de nosso país, mas sabíamos exatamente como as coisas deviam funcionar e como nos comportar segundo o regime em vigor. Trocou-se pensamento por treinamento.

Em 1996, dez anos depois de sairmos da ditadura militar, cinco anos após sairmos do feudalismo maranhense, não coincidentemente quando iniciávamos a revolução burguesa do novo liberalismo, tais disciplinas foram impregnadas de um caráter negativo de doutrinação do autoritarismo militar, e foram condenadas pela Lei de Diretrizes e Base da Educação. Resumindo, passou-se a considerar que civismo e conhecimentos sobre a "nova" organização sócio-política do país também não eram bons. Em comum, os dois regimes, acreditavam e acreditam que pensar é perigoso, mas enquanto o militarismo buscou o controle através do adestramento das massas populares, o novo liberalismo capitalista controla através da total alienação. O esquema passa a ser a transformação do cidadão em consumidor: não pense, não entenda, não se importe com o que está acontecendo com o país, em troca te dou um pouco de "poder aquisitivo" e uma bela economia (ferramenta que utilizarei para botar a mão no pouco poder aquisitivo que te dei).

Estou exagerando? Notem que a educação de hoje se restringe à colocação profissional. Quando eu e a Lu começamos a procurar um maternal para nosso filhote de dois anos de idade, nos deparamos com escolas que se diziam boas através de estatísticas de aprovação no vestibular da UFPR! Meu, nós buscávamos um maternal, um ambiente que nos ajudasse a socializar um pequeno filho-único sem necessariamente atrapalhar a educação que escolhemos para ele, não temos ainda como saber se vamos ou não querer que ele ingresse na UFPR ou coisa parecida! Mas é isso que a maioria das escolas fazem hoje em dia: treinam para vestibular. Apostilas produzidas em massa e distribuídas a todos os cantos do país substituíram livros de verdade, escritos por pesquisadores de verdade e a diversidade acabou. Os professores mais bem pagos do país são os que ajudam os alunos a "papar vagas" na "Federal", ensinando em salas de aula de cursinhos que parecem mais auditórios de Silvio Santos ou de Edir Macedo, tanto pela quantidade de neurônios estimulados quanto pela interatividade permitida.

Será que existe uma grande conspiração que leva todas as escolas a empurrar-nos para uma carreira brilhante e consumista? Acho que não. Não se faz necessário. Basta que as escolas ajam de acordo com a lei máxima do sistema em vigor, vendendo o que os pais e alunos querem comprar. Consumidores buscam instrução para aumentar sua "estabilidade" e melhorar seu "poder aquisitivo", e a escola não faz nada além do que vender o produto, de forma a criar mais um negócio muito lucrativo (e monopolista).

Hoje, muita gente concorda que não é na escola que nossos filhos são educados, que educação é dada em casa, em família. Corretíssimo, desde que a família já não esteja estragada pelos valores modernos. Desde que a educação familiar não inclua, por exemplo, horas e horas frente à TV.
"... A televisão diminui de maneira considerável o diálogo entre crianças e os pais. É o que comprova um estudo realizado pelo Dr. Dimitri A. Christakis, da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington. No levantamento, realizado com 300 crianças entre dois e quatro anos, constatou-se que para cada hora de TV, as crianças ouviam 770 palavras a menos de um adulto..."
Sem contar que a mensagem que a televisão prega raramente é boa. Enquanto alguns sugerem que telenovela pode ser uma ferramenta para transmitir mensagens sociais muito importantes que ajudem, por exemplo, a lutar contra a disseminação da epidemia de AIDS ou promover a proteção dos direitos de minorias, eu me pergunto se é certo fazer isso vendendo a "Nova Schin" e promovendo a idéia de que o "novo Ford Focus" é a solução para seus problemas de congestionamento nas cidades. Sem contar que sabemos exatamente qual a motivação das emissoras de TV em suas brigas por "IBOPE": vender comerciais e ganhar dinheiro. Desculpem-me, TV, por melhor que seja o programa, não educa ninguém. Mesmo aqueles belos documentários de 45 minutos da Discovery Channel não conseguem substituir um bom livro. Não dá. Ninguém dá um "pause" na TV para pensar sobre o que disse a bela voz de Lombardi narrando sobre a natureza psicopata de Hitler ou sobre a luta de Uganda pela sobrevivência em uma Guerra Civil. A informação, aquela voz, juntamente com imagens e idéias resumidas a ponto de se transformarem em chilchês, simplesmente entram na nossa mente sem termos tempo para processá-las, questioná-las, sem termos alguém para discutir sobre elas, enchendo nossas cabeças de meias verdades e preconceitos resumidos, superficionalidades (se é que isso existe).

Voltando à chamada educação formal vemos, como "nunca antes na história desse país", universidades se espalhando como igrejas evangélicas, democratizando o acesso ao ensino superior. Bom seria se o ensino fosse bom e fosse para as pessoas certas. O problema é que nossos ideais "franco-revolucionários" de igualdade assumem que todos somos iguais e com a mesma capacidade de aprender, mas basta-nos visitarmos três clínicos gerais que perceberemos que nem todos deveriam ostentar o diploma na parede do consultório. A regra geral é que quem tem dinheiro para ser treinado a ingressar na boa universidade pública sem fins lucrativos acaba com um diploma de peso na parede, independentemente de sua capacidade de aprender e de aplicar as competências necessárias à função, enquanto quem não recebeu o devido treinamento por ter sucumbido à educação pública a vida inteira, tem que brigar por cotas ou se virar para pagar universidades particulares muitas vezes duvidosas, cujos diplomas pesam tanto quanto o conhecimento passado por elas. Em ambos os caso, vemos saindo de nossas universidades pessoas treinadas muito além de suas capacidades (seja por herança genética, desnutrição ou pura falta de educação ou interesse mesmo) porque o sistema, seja ele público ou privado, não se preocupa em filtrar os incompetentes garantindo a qualidade do profissional na saída, mas se preocupa em garantir que um número cada vez maior de supergraduados apareçam em suas estatísticas e em provas tipo OAB, cuja própria existência já deveria ser uma vergonha para qualquer universidade.

Findos os estudos formais, segue o resto da vida, e lá vem a nossa síndrome de pós-graduações. Será que as pessoas realmente acham que um currículo cheio de credenciais acadêmicas vai realmente esconder o vazio entre as duas orelhas em uma entrevista ou na vida real? Vejo a turma se matando em MBAs e especializações, mas sem nenhuma real vontade de aprender alguma coisa! Eu mesmo caí nessa de fazer um curso de pós-graduação em "Gestão da Manufatura" onde aprendi quase nada, e se a empresa onde trabalho, quem me subsidiou o curso, realmente achasse importante que eu o fizesse, teria, com toda certeza, me solicitado o certificado de conclusão (ou diploma) antes de me promover a um "gestor da manufatura". Tenho total convicção de que meu tempo teria sido muito mais bem aproveitado se, durante as mais de 380 horas em que fiquei sentado abstinente numa salinha de aula do CEFET, eu tivesse sentado em minha cama lendo sobre o assunto ou sobre coisas muito mais interessantes do que "Sistemas Integrados de Gestão". Pronto, não faço mais isso, vou ler que ganho mais.

Voltando à educação genérica, aquela que faz com que uma conversa de bar seja interessante ou não, cada vez mais sinto dificuldade em encontrar gente para me entreter. Gente para falar de política sem ter que falar de políticos, para falar de esportes sem ter ouvir piadas de resultado de futebol, para falar de cultura sem ter que entender a filosofia por trás do mais novo seriado da TV a cabo, para falar de história sem mencionar um filme de Spielberg. Parece que educação é como bicicleta, erroneamente vista como coisa para criança e para estudante. Adultos já encaminhados profissionalmente, e com "poder aquisitivo" para prová-lo, não sentem mais a necessidade de se educar (nem de andar de bicicleta), sentam-se sobre seus diplomas com um controle remoto na mão e orgulhosamente assistem seus seriados "filosóficos" e novelas "educativas", enquanto, por outro lado,
uma vasta população de pessoas, muitas delas com gostos literários e acadêmicos bem desenvolvidos, são educadas muito além da sua capacidade de dedicar-se ao pensamento analítico.

Voltando ao tema do segundo parágrafo, estamos mais uma vez em um ano eleitoral. Propagandas do TSE instigam-nos a votar com responsabilidade, exercendo nossa cidadania, tentando nos fazer orgulhosos de fazermos parte de uma das maiores democracias do mundo, democracia direta, sem intermediários. Rousseau gostava de diferenciar o homem do animal através da liberdade: os homens seriam capazes de tomar decisões desconectadas de de sua natureza, de de sua programação natural, agindo com liberdade como oposto do agir instintivamente, naturalmente do animal. Pensando assim, com que liberdade escolhemos nossos governantes se a grande massa não conhece a organização política, não conhece os poderes do país e suas incumbências, não conhecem as inclinações partidárias que diferenciam um Democrata Trabalhista de um Social Democrata, conhecem sequer o funcionamento da votação por legenda. O povo vota instintivamente, guiado pelos sinais da propaganda gratuita, do marketing eleitoral, teatrinho tão obvio quanto o que vende Skol no verão e Brahma na época da copa. Que liberdade é essa? Que democracia é essa? Será que, neste ponto, somos educados o suficiente para Rousseau diferenciar-nos de um jumento?

2 comentários:

  1. nich, este seu post veio muito de encontro com um que eu comecei a escrever, mas por falta de embasamento, me abstive, que se entitulava politics (bom, eu e minha mania de títulos em inglês que nem consigo argumentar a favor além de que eu gosto).

    comecei lembrando de uma aula de geografia na oitava série, qdo a professora inicia a aula perguntando para uma turma de pouco mais de 30 alunos, na faixa dos 14 anos, de um colégio particular de curitiba, o que os alunos pensavam (ou talvez 'achavam' fosse o caso) sobre política.

    imediatamente a maioria se pôs a falar como era contra os partidos e os próprios políticos, e em suma, como odiavam a política. foi assim que ela nos diz que não podemos nos permitir sermos ignorantes políticos, quando estamos inseridos justamente numa sociedade democrática direta e estávamos à beira de começar a exercer nosso direito ao voto. e este foi meu primeiro contato com a política. pra mim funcionou!

    concordo plenamente que as escolas não são (e nunca foram suficientes) e que a educação deveria ser continuada em casa, e sim, longe do BBB 257 ou da novela das oito.

    mas por outro lado, existem diversas formas de se aprender, e por mais que concorde que a TV (pensando nos documentários da Discovery) não nos dá tempo de digerir as informações, não deixam de ser um começo, que pode muito bem instigar a curiosidade do telespectador, que muitas vezes acontece comigo. e sim, no final das contas, os livros continuam sendo muito melhores, mas isso não vai me impedir de assistir TV ou ir ao cinema ou ao teatro :)

    e as conversas... sim, infelizmente está cada vez mais difícil ter uma conversa com conteúdo... as pessoas aceitam e se conformam com a "verdade" televisionada, afinal de contas, foi dita pela Fátima Bernardes ou pelo William Bonner.

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  2. Realmente Ale, não tenho TV a cabo em casa porque sei exatamente o efeito que os excelentes documentários da Discovery (e outros) têm em mim. Confesso que toda vez que vou a SP, quando tenho acesso a TV cabo nos hoteis, quando não estou enchendo a cara de chop com algumas das poucas pessoas que conseguem me entreter com bos conversas, fico até altas horas da madrugada assistindo a filmes e documentários. Note que não tenho nada contra eles, gosto de muitos destes programas, mas é importante ter em mente da superficialidade deste tipo de mídia. O post é sobre educação, não sobre entretenimento... ;)

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