terça-feira, 16 de março de 2010

Malandro, malandro! Mané, mané!


Época de acertar as contas com a receita. Época de se dar conta de que este país não me serve mesmo. Cada vez me sinto mais peixe fora dágua, desesperançoso, odiando me sentir um otário, mas sem nunca abdicar de meu direito de rabujar sobre o que está errado.


Assustador perceber que 90% das pessoas com quem falo a respeito da declaração de ajuste do imposto de renda esnoba experteza, malandragem ou no mínimo complacência a pequenas “sonegações”: “A empresa é quem paga meu plano de saúde, mas declaro que quem pago sou eu, e só nessa ganho uns duzentão” ou “Pô, use o Zé Nerisvaldo, o contador que a turma da fábrica usa... o cara é mágico!” ou pelo menos “não quero nem saber o que o contador coloca lá, quanto mais eu receber de restituição mais ele recebe, isso garante o bom funcionamento da coisa”. E essa gente ainda se ve no direito de reclamar dos Zé Dirceu, dos Arrudas, do pedágio, do salário do professores, SUS, etc.

“Mas eu sou peixe pequeno!” responde um, “Vai me dizer que meus duzentão resolveria o problema do SUS?” se defende outro, ou até “Já me robam o suficiente! Tenho que garantir o meu!”... São infinitas as demonstrações de descaso, egoísmo, ou até incapacidade mental que escuto de gente supostamente honesta e bem educada. Todos os peixes são isoladamente pequenos, alguns são mais pequenos outros são menos, e os teus “duzentão” pagariam a vacinação conta a gripe A de pelo menos 15 pessoas. Quanto aos que combatem a ladroagem com ladroagem, não tenho como argumentar contra uma lógica absurda, isso não é um combate, mas um jogo entre iguais.

Volte meia, no trabalho, quando vejo um subordinado ficar quieto enquanto um chefe faz cagada, digo-lhes: “Quem está certo tem sempre o direito de brigar com quem está errado, idenpendentemente de relações hierárquica”. No caso da ladroagem generalizada do país, para reclamar do que está errado, é fundamental estar certo.

Enquanto isso o otário aqui segue sendo um otário.

4 comentários:

  1. Pois é Nick, temos que sair deste país o mais rápido possível para não nos contaminarmos, pois é fácil querer roubar de ladrão, é bem como diz o ditado: "ladrão que rouba ladrão tem 7 anos de perdão".
    O que mais me deixa indiguinada é saber que nem a metade do dinheiro arrecadado do imposto(eu vai para o S.U.S. ou coisa parecida, pois se fosse não sobraria muito para colocar nas cuecas.

    ResponderExcluir
  2. O que mais me irrita é a irresponsabilidade e egoísmo do consumidor. Nego sonega duzentão, dois mil reais, mas pouco se importa com os 27% de impostos em geral que paga na hora de trocar seu carro novo por um novo carro novo. Ninguém pensa em usar um ônibus ou uma bicicleta, ou ir a pé, em vez de gastar um monte em combustível que na verdade é 50% em impostos! Damos nosso dinheiro para o governo com dor no coração, mas não nos importamos em comprar chocolates Nestlé com óleo de palmeira vindo de empresas desmatadoras, voamos de GOL e esquecemos do cheque de R$ 700.000 vindos do presidente da companhia como "empréstimos" a um coitado senador da república em plena época de crise aérea! É total a estupidez. Ficamos preocupados com o que o governo vai fazer com os 15% de nosso dinheiro mas não ligamos muito pros outros 85% que invariavelmente vão tabém para o governo, para empresários sem escrúpulos, corruptores, etc.

    ResponderExcluir
  3. Bom, se te serve de consolo não é só no BR que isso acontece. Sugiro a leitura semanal da revista "The Economist", pode ler tudo de graça online... minha visão de Brasil mudou depois que comecei a me inteirar do que acontece em outros países.

    ResponderExcluir
  4. Obrigado Ana, valeu a dica... vou inclui-la em minhas leituras. Não tenho a fantasia de que exita um lugar perfeito, apenas que existam lugares, no mínimo menos descarados, onde as pessoas que roubam tenham ao menos vergonha de dizer isso publicamente. Vivi 4 anos na Inglaterra, país que, historicamente, não tem moral nenhuma para pregar o certo ou o errado, mas lá notei o cidadão comum ou muito mais honesto ou pelo menos muito mais reservado com suas picaretices particulares.

    ResponderExcluir