quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Negação é o problema




Porque é que a cada dia que passa tenho menos esperança com relação ao mundo, menos esperança de que meus filhos e netos terão uma boa vida, uma melhor vida, geração após geração? Porque é que eu acredito que, apesar de todo avanço e conquistas tecnológicas, nossa civilização já passou do ponto? Teve seu ápice em algum tempo no passado e agora está em declínio? Porque não acredito que conseguiremos frear o consumo do planeta? Porque acho que não seremos capazes de reduzir a população mundial, ou o consumo global, ou ambos, a números sustentáveis, sem que tenhamos que passar por uma severa crise ambiental? Não sei. Não sei mesmo. Se soubesse não usaria palavras como "acho", "acredito". Mas tenho meus palpites. E talvez nestes palpites residam as causas raízes de todos os nossos problemas. Talvez não.


Meu principal palpite é que apesar de toda nossa ciência, ainda vivemos como seres ignorantes. Não gostaria que a palavra ignorância fosse lida aqui com o sentido pejorativo com o qual ela é freqüentemente utilizada. A ignorância por si só, não há de ser vista como um problema, uma vez que sempre haverá um limite para o nosso saber e além deste limite sempre teremos nossa ignorância. Talvez o melhor sentido de ignorância que eu queira usar seja o de negação. O problema é que insistimos em ignorar, negar o que já sabemos, em ignorar nossa história, ignorar nossa ciência. Sabemos muito, talvez o suficiente, talvez em alguns campos de conhecimento já tenhamos ultrapassado o suficiente faz muito tempo e em outros campos ainda não tenhamos chegado lá, não há como saber (ignoramos), mas fato é que nós já sabemos muito.

Tem muita gente que anda por aí movida a energia fóssil, formada orgânica ou inorganicamente (há controvérsias) nas entranhas do planeta durante os milhões de anos de sua história geológica, mas insiste em acreditar que a terra foi criada em 6 dias, a 10 mil anos atrás, e terminará em um julgamento final apocalíptico, haja o que houver. Ignorando a história da terra, os mecanismos físicos e químicos que formaram o planeta e o mantém, os tempos envolvidos no maravilhoso processo natural de criação, ignora-se também a fragilidade deste sistema todo. O lugar onde vivemos não foi criado em 6 dias e nem poderá ser recriado ou concertado em mais uma ou duas semana conforme a vontade de um ser supremo, ele é muito mais precioso do que isso e deveria ser tratado como tal. É o único lar que temos, outro não será criado para nós.

Tem muita gente que aprecia o fato de que tanto o Pequinês quanto o Setter Irlandês (foto) são o mesmo animal, o cão doméstico, mas com suas características físicas artificialmente selecionadas por criadores ao longo de um ou dois pares de milênios, a partir dos lobos selvagens. O problema é que, ao mesmo tempo, essas pessoas não aceitam que todas as demais formas de vida, inclusive a nossa, passaram por um processo semelhante ao longo de um ou dois pares de milhares de milênios, mas naturalmente guiado pela cruel realidade da sobrevivência do mais apto, a seleção natural. Ao ignorar este fato, menosprezando a história da vida, subestimando espécies que estão aqui a mais tempo que o homem e que tem tanto direito à terra, água e ar quanto qualquer um de nós, tratamos do planeta e de tudo que há nele como posses, propriedade, sentindo-nos no direito de usar e abusar de recursos e de seres vivos. Os animais não apenas não foram criados no quinto dia como não foram nomeados por Adão, não sabemos sequer quantos animais realmente existem, muito menos temos nomes para cada um deles. Na verdade, hoje, com toda nossa ignorância, estamos sendo capazes de extinguir espécies mais rapidamente do que somos capazes de nomeá-las e classificá-las. Na história geológica da terra já passamos por várias extinções em massa e a mais famosa, a dos dinossauros, não foi sequer a maior delas. Hoje já existem estimativas (talvez sensacionalistas, verdade) que dizem que a atual taxa de extinção é maior que a da grande extinção do Permiano (há 145 milhões de anos atrás quando se extinguiram 90% das espécies do planeta). Dependendo de quanto tempo essa alta taxa perdurar, a coisa pode ser feia.

Muita gente por ai vê o vai e vem da vida (na verdade o vem e vai) em seu ciclo inevitável, mas mesmo assim prefere ignorá-lo. A vida não é tão preciosa quanto gostaríamos que ela fosse. Tiramos a vida de milhares de seres vivos diariamente, muitos desnecessariamente. Sabemos disso, mas preferimos não pensar nisso e sem pensar nisso damos vida ao ciclo do extermínio. Colocamos, então, a vida humana num pedestal sagrado e tentamos nos convencer que essa sim é preciosa, mas mesmo assim mantemos atitudes assassinas, sabendo, mas sem querer as ver. Não é porque não estamos segurando a faca ou puxando o gatilho que não estamos matando. Amamos o próximo, ignoramos o distante. Matamos com nossa irresponsabilidade, através de nosso voto, nosso estilo de vida, nosso consumo. Um quarto da população do planeta vive da mesma forma que vivíamos há 4 mil anos atrás, outro quarto do planeta consome mais água que os outros três quartos restantes juntos, com seus desperdícios, piscinas, agricultura moderna que nos dá melões em pleno inverno, etc.Como conseguimos viver com este paradigma? Escolhendo ignorar as consequências de nossos atos, supervalorizando algumas vidas e ignorando outras. Proibimos castrações, preservativos, educação, contraceptivos de um lado e deixamos morrer de fome, sede ou guerra do outro.

Muitas pessoas andam por aí com uma pergunta na cabeça: "qual o sentido da vida?". A busca pelo sentido da vida move a ciência, a filosofia, e, convenhamos, muito charlatanismo, charlatanismo histórico. O mais interessante é que já sabemos exatamente porque estamos aqui. Sabemos de onde viemos, sabemos o porquê, mas ignorando estes saberes somos incapazes de definir para onde vamos. Escolhemos ignorar as respostas que estão na nossa cara porque não gostamos delas. Gostaríamos de ser mais especiais do que somos. Gostaríamos de ter sempre alguém que nos ame, que nos proteja, que cuide de nós. Gostaríamos de viver eternamente e de receber um doce ao final do longo e penoso dia de nossa existência. Mas não. A idéia de sermos resultado de uma evolução aleatória, guiada por uma realidade sistêmica, de minúsculas moléculas de proteínas encadeadas com uma forte tendência a se multiplicar não nos encanta nem um pouco. A idéia de nossa vida ter somente o valor de uma reprodução bem sucedida não nos apetece. A idéia de não sermos superiores a uma lesma, pelo menos pelos critérios naturais, não nos agrada. Então, ignorando este saber lutamos por nos engrandecer cegando-nos de nossa natureza. Cegos, deixamos de nos preocupar com nosso propósito, a perpetuação de nossos genes, e nos preocupamos com nossas vidas a ponto de colocar em risco nosso único propósito, a vida de nossos filhos, netos e bisnetos.

O que mais me dói é ver toda essa negação, sendo perpetuada sob uma bandeira sagrada de bondade, esperança e amor, bandeira esta protegida por lei em muitos países, e no mundo inteiro protegida sob uma carapaça de tabus e dogmas: "uma questão de fé" ou "isso não se discute". Será que é de conforto que nosso coração precisa ou será que não seria mais fácil lidar com a verdade? Será que em vez de nos perguntarmos se o mundo estaria preparado para lidar com a verdade não deveríamos começar a nos perguntar se o mundo conseguirá sobreviver sem ela?

Fecho com uma bela frase de Thoreau enriquecida e vitaminada pelo supertramp Christopher McCandless :

"Ao invés de amor, dinheiro, fé, fama, justiça, dê-me verdade."

3 comentários:

  1. Penso muito parecido com o que vc colocou, com a diferença de que quem tem fé não é necessariamente ignorante da verdade ou é tolo a ponto de pensar que o mundo foi criado em 6 dias e que tudo acabará num apocalipse final... mas vc sabe bem qual o tipo de fé que tenho e eu sei exatamente como vc pensa e é por isso que posso dizer que entendi exatamente o que quis dizer e que assino embaixo.

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  2. Entendo... Baseio meu mau humor no que vejo por aí (amigos, familia, jornal, etc) e no que leio. Veja alguns dados ALARMANTES publicados em uma edição de 2006 da Science Magazine: "Nos últimos 20 anos, o percentual de adultos Norte-americanos que aceitam a evolução caiu de 45 para 40%...". Segundo a pesquisa isso é fruto de ondas do crescente fundamentalísmo religioso e politização da ciência. Uma outra pesquisa, publicada no mesmo artigo indica que se a pergunta for colocada de forma mais direta, apenas 14% dos Norte-Americanos aceitam que evoluímos de acestrais não-humanos.
    Não achei dados do Brasil, vou procurar no meu livro "A Cabeça do Brasileiro" e posto aqui se tiver alguma coisa, mas este padrão muda bastante na Europa. Lá temos cerca de 80% de "geneticamente esclarecidos" na França, uns 75% na Italia e Alemanha, caindo até uns 50% na Grécia. Mesmo melhor, ainda é assustadoramente grande a proporção de criacionistas por aí. Na Turquia, por exemplo, mais de 70% não acha que somos fruto de uma evolução natural. Medonho.
    Coloquei um link para este artigo na seção de Links para aguçar a cabeça.

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  3. Oi, voltei. No "A Cabeça do Brasileiro" (também acabei de coloca-lo na lista de livros por ser extremamente esclarecedor) tem uma pergunta de múltipla escolha que retrata muito bem a nossa realidade. A pergunta é sobre o destino, e o percentual de resposta é assustadora mas não surpreendentemente o seguinte:
    - 32% acha que Deus decide o destino;
    - 28% acha que Deus decide o destino, mas as pessoas podem mudar um pouco (??);
    - 24% acha que deus decide o destino mas as pessoas podem mudá-lo muito (????);
    - 14% acha que não há destino, as pessoas decidem tudo sobre suas vidas;
    - 3% não expressou opinião.
    O livro vai além, extratificando nosso fatalismo em por região, capitais ou interior, gerações, escolaridade e religião, mas aí sai um pouco do tema dessa rabujada. Em todo caso essa estatística, mais que qualquer outra, escancara uma evidência de que minha preocupação descrita na rabujada acima é bem fundada: a maioria dos Brasileiros acredita que não há nada que possamos fazer para mudar o rumo do planeta.

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