sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

To leave or not to leave...




Vários eventos dessa última semana me levam a escrever sobre se devemos acreditar e ficar no Brasil, ou simplesmente procurar um lugar melhor. Primeiro tive, na Sexta Feira passada, um jantar com amigos, alguns que atualmente vivem nos Estados Unidos e outros que vivem por aqui, quando colocamos em discussão se o Brasil era um bom país para se viver ou não. Depois, esta semana, recebi um email vangloriando o primeiro ministro da Australia por ter a coragem de dizer "os incomodados que se mudem". Para terminar, mais um email, agora de minha mãe, pedindo que eu não ande de bicicleta na rua quando estiver com meu filho na garupa, que me restrinja aos parques.


Deixa eu dar uma breve pincelada sobre cada um desses pontos antes de discutir a dúvida quase que existencial que entitula a rabujada, e para deixar claro o motivo de meu mau humor.

O jantar com amigos

Entre os amigos eramos: eu  e minha amada esposa, que já temos um filho, que já tivemos a feliz experiência de morar na Inglaterra por 4 anos, mas já de volta ao Brasil há quase 5 anos; um casal ainda sem filhos que também já morou na Alemanha por vários anos (na verdade ele, antes de casar); um casal que mora a 3 anos nos Estados Unidos e já tem um filho e casa própria por lá; outro que já completou 3 anos na "America" mas ainda sem casa própria ou filhos; e um terceiro casal, também sem filhos, 100% brazuca.
Apesar de sermos todos da geração 70 (gerados nos 1970, com 30 a 35 anos, leia-se jovens) acredito que a diversidade de experiências permitiu excelente argumentação, mas no final dois pontos ficaram bam claros:
  1. Que o casal Rabuja é o único que tem certeza sobre o fato de o Brasil, hoje, não ser capaz de propiciar o que desejamos para nossas vidas e para a vida de nosso(s) filhos(s) e
  2. Que o conceito de qualidade de vida é muito diferente de pessoa para pessoa, por isso o local ideal para se viver também deveria ser muito diferente.

O Premier Australiano

O email que recebi basicamente "endeusava" o primeiro ministro da Australia por se posicionar de forma dura contra os que vivem na Australia mas não compartilham os valores Australianos, mais especificamente se referindo aos extremistas islamicos que lá praticam sua forma de terrorismo ("sua forma" pois, na prática, cada povo tem a sua) contra os católicos que imperam naquelas terras. Em linhas gerais ele pede aos "incomodados que se mudem". E é por essa frase que trago este assunto para esta rabujada, não por concordar plenamente com o Premier.
Em princípio, concordo que os valores locais devem ser sempre, pelo menos respeitados pelos estrangeiros que resolvem ali se instalar, respeitados se não adotados. O ponto que ponho em dúvida é se um estrangeiro anglo-saxão que invadiu a Australia com suas ovelhas, coelhos e catolicismo, que em 200 anos de autocracia consegui reduzui a população nativa local em 85%, realmente tem base moral para dizer que aquela terra é dele e que seus valores culturais realmente representam as raizes daquele espaço geográfico. Será que o mundo ainda não entendeu que, sejam quais forem seus valores culturais, supertições, cor de pele, etc., eles são todos frutos de uma longa história da migração, conflitos e micigenação de povos? Que muçulmanos têm o mesmo direito de migrar para terras australianas quanto tinham direito os ingleses que assim o fizeram ao longo dos últimos 200 anos e que os australóides 25 mil anos antes deles?
Não. Infelizmente o mundo não entende sua própria história e é por isso que temos ainda tantos conflitos.
O pensamento que impera hoje é o do "os incomodados que se mudem" e o que questiono é: quem incomoda quem? Quase parafraseando Karnak (a banda), é o Muçulmano que incomoda o Australiano, ou é o Australiano que incomoda o Muçulmano? Quem deve se mudar, o Muçulmano, o Australiano ou o Aborigene?
Independentemente da sua convicção pessoal com respeito a esse tema, o termo "os incomodados que se mudem" me incomodou, afinal, eu estou incomodado.

O email  de minha mãe

Quem acompanha minhas rabujadas já conhece e entende minha recente história com bicicleta. Pois é, disse à minha mãe esses dias que havia comprado uma cadeirinha de bicicleta e um capacete para meu filho, para que ele já pudesse andar de bike comigo, e a resposta foi: "restrinja-se aos parques, não ande com ele na rua". O problema é que apenas recentemente consegui me livrar do vício do automóvel e passei a usar minha bicicleta como principal meio de transporte. Ótimo, diz minha familia, mas não é assim que você deve educar seu filho, você precisa ensina-lo que fora do automóvel ele está desprotegido, que andar de bicicleta é pior que andar a pé, que fora de um automóvel ele não será respeitado na rua, não tem direito de passagem, que não há nada de errado em queimar combustível por 25 km todos os dias para ir e voltar da escolinha, que isso não faz mal a ninguém.
Claro que não é assim que eles e toda sociedade fala, mas é essa a mensagem que acaba passando. Carro bom, bicicleta ruim, no melhor estilo Orweliano (quatro patas bom, duas patas ruim). Meu piá começa a frequentar uma escola que fica a cinco quadras do meu trabalho, tendo que estar lá às 7:30 da manhã, ou seja, casamento perfeito em termos geográficos e de horários com o meu trabalho. Tenho duas opções, ou exponho meu filho a riscos "incalculáveis" enquanto mantenho e ensino hábitos saudáveis e sustentáveis, ou sucateio minha bike e dou continuidade aos valores modernos que na minha opinião estão corroendo o mundo, mas em compensação proporciono ao meu filho o conforto e a segurança climatizada de um banco trazeiro movido a hidrocarbonetos. É claro que entendo de onde vem o medo de minha mãe, porque ela imaginaria que dentro de um carro seu neto estaria mais seguro, mas somente se partir do princípio que eu, o pai, não estaria tomando todos os cuidados para não ser atropelado por um expresso desgovernado.

A dura conclusão

É obvio que sou uma pessoa insatisfeita e rabugenta. Neste blog, em específico, não sinto que eu rabuje mais do Brasil que do mundo como um todo, mas tenho que concordar que minhas frustrações mais diretas vêm do abismo que separa meus valores pessoais dos valores da sociedade onde vivo: o Planeta Terra, sociedade dita ocidental-cristã-capitalista, mais especificamente na America Latina pós-colonial, no Brasil, em Curitiba, com minha família, amigos, colegas, vizinhos e afins, cada camada com seu grau de influência, particularidade e profundidade.
Seguindo a discussão que tive com os amigos, será que não existe, nos limites do planeta terra, um lugar que esteje mais em linha com os meus valores do que a minha provinciana Curitiba (e todo seu contexto histórico-geográfico)? Seguindo a mentalidade do premier Australiano, devo eu, o incomodado, me mudar daqui? Que direito tenho eu , o incomodado, de incomodar ou outros com meus valores, minhas rabujices? Tenho o direito de tentar mudar o mundo à minha volta ou devo aceitar que sou eu quem não estou me enquadrando nos valores culturais da sociedade onde vivo, parar de encher o saco e me mandar... para Marte talvez? Se nem minha familia entende onde quero chegar, não entende a minha forma de terrorismo, devo eu me mandar deste país onde a sociedade pietonal descamisada e desprotegida por gaiolas de Faradey climatizadas não tem espaço nem respeito nas ruas, e ir morar em Copenhagen? Amsterdam? Lucca? Será que devo procurar um pais menos conservador, com um povo mais educado, menos inconsequente, mais esclarecido, menos superticioso, mais respeitador, que participe ativamente da construção de sua sociedade e depois respeite as regras definidas por ela? Um país onde o cara que anda na linha não é o trouxa e o cara que se dá bem não é o malandro? Uma cidade onde possa ensinar ao meu filho que o melhor meio de transporte é aquele que te leva de A a B em um tempo razoável, sem agredir a cidade nem o meio ambiente, incapaz de esmagar o transeúnte em seu caminho e que ao mesmo tempo te traz enormes benefícios à saúde?

Mas no Brasil tem o sol, o calor e as praias maravilhosas. Ah! Caia na real. De que me serve o sol se na maior parte do tempo em que estou fora de casa ou do trabalho, estou trancado dentro de um carro com os vidros escurecidos fechados para minha segurança e com o ar condicionado ligado para meu conforto? E quem diz que aqui tem mais sol que que no resto do mundo no mínimo acha que a terra é plana e o sol fica estacionado aqui encima!. O mesmo com relação às praias maravilhosas. Quem acha que as nossas são mais bonitas que as outras é porque nunca teve a curiosidade de olhar para as outras, sem contar com o lixo e sujeira que se acumulam nas nossas areias e águas durante os raros feriadões quando nosso povo se atira em massa nas rodovias despedaçadas em direção ao litoral para lá subsistir em meio ao caos dos super-populados e mal estruturados balneáreos que temos.

Mas no Brasil, quem tem dinheiro pode comprar uma vida mais confortável que la fora. Sim, desde que sua consciência se permita viver colaborando com a exploração da miséria. Podemos pagar para que alguém lave nosso carro porque não pagamos o suficiente para o cara ter seu próprio carro. Podemos pagar para alguém cortar a nossa grama porque não pagamos o suficiente para este alguém ter sua propria grama. Podemos pagar para que alguém limpe a nossa casa e cuide de nossos filhos porque não pagamos o suficiente para esse alguém sonhar com um futuro diferente do seu presente para seus próprios filhos. Muitos vivem felizes desta forma, explorando cegamente a miséria, eu fico muito incomodado com isso.

Mas o Brasil está crescendo, a economia está bombando, a coisa está melhorando! Fato, mas para quem? Enquanto o Brasil fica mais rico as distâncias entre as pessoas e classes continuam aumentando. Nossos políticos, jornalistas e empresários adoram falar de crescimento, PIB, entrada de investimentos, renda per cápita, IDH, etc. mas nem mencionam índices como P90/P10, ou Coeficiente de Gini, índicies que medem a distribuição de renda.
O P90/P10 mede a razão entre quanto ganham os 10% mais ricos e quanto ganham os 10% mais pobres. Neste critério o Brasil só é melhor que outros 7 países no mundo, dentre os que medem tal índice, e dou um doce para quem souber localizar no mapa dois deles: Guatemala, Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia. Estamos atrás de TODOS os nossos vizinhos sulamericanos. Nosso índice anda em torno de 68, ou seja, para cada real que vai pra mão do pobre, 68 reais vão pra mão do rico. O do Japão é 4, o da França é 9, o nosso é 68!
O Coeficiente de Gini é outro indicador que padroniza a desigualdade de 0 a 1, sendo 1 a desigualdade completa (toda riqueza na mão de um) e 0 a igualdade completa (distribuição totalmente igualitária). Neste índice, apesar de usar outro método e outros critérios, coincidentemente ou não também aparecemos esntre os piores da américa do Sul e entre os 10 piores do mundo (gráfico). O país cresce, mas parece que é só para caber nele cada vez mais miséria! Nas cores a nossa america latrina sobresai até sobre a áfrica! Por que o Lula não fala nisso?



Mas no Brasil o povo é festeiro, feliz e amigável. Bem, quem acha que o povo aqui é amigável nunca tentou atravessar uma via rápida pela faixa de pedestres, nunca tentou andar de bibcleta na rua, nunca tentou pedir ao vizinho para maneirar no volume do som do porta-malas do carro estacionado em frente à churrasqueira às 2 horas da manhã nem nunca ficou parado em um congestionamento enquanto o acostamento virava pista de espertinhos. O povo é amigável entre amigos, entre desconhecidos o povo é grosseiro e mal educado. Quem acha que o povo aqui é feliz, não vê nem Jornal Nacional, e certamente confunde manifestações de euforia, extravasos coletivos como Carnaval, Micaretas, Brasileirão, etc. com felicidade.
Não existe hoje um consenso sobre como medir a felicidade, mas o ídice oficial que chega mais perto disso (o Indice de Desenvolvimento Humano) coloca o Brasil em septuagésimo quinto lugar no mundo, atráz, inclusive, de muitos de seus vizinhos latino-americanos.

Voltando ao Premier Autraliano... ou eu começo a acreditar de que este país vai conseguir mudar para melhor e fico aqui me alimentando de esperança, ou, tão incomodado que estou, me mudo, não sei ainda para onde, mas para um lugar menos diferente de meus ideais. Gosto daqui, quero dizer, tenho ligações sentimentais com este país, por favor me ajudem a encontrar argumentos pertinentes para ficar.

7 comentários:

  1. Gostei do seu texto. Ele espelha muito do que penso. Parabéns, pela clareza de pensamento e de escrita.

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  2. Bick,
    Sentimentos sao sentimentos. Isso nao se quantifica ou se explica. Dificil decisao.
    Enfim, o Jantar estava otimo e a conversa como sempre melhor ainda. Obrigado pelos momentos e lembrancas e ate a proxima.
    Foreheadman

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  3. Sr. Petroski, obrigado pelo retorno.
    Sr. Testa, imagine o que seria de nós se Garcias Marques, Chicos Buarques, Vivaldis, Van Goths, Delespinasses, e outros zilhõs de exemplares não tentassem quantificar, explicar, explicitar, enfim, comunicar suas micro descargas elétricas cerebrais, sentimentos, na forma de palavras, outros sons ou imagens? Tudo bem, não sou artista, mas acredito que tenho a mesma necessidade de ser compreendido por todos a minha volta.

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  4. More, acho que nem quero mais esperar um ano para me debandar daqui... se vc quer escutar algo que o faça ficar, não espere ouvir isso de mim - rsrs, por mim podemos ir amanhã mesmo. Amo vc!

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  5. Nick, Lu, pra onde quer q vcs forem, manda o endereço pq sampa é só o primeiro passo pra eu conquistar o mundo!!! :D
    Espero vcs no domingo, hein?
    Bjoss!

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  6. cheguei aqui pelo bicicletada. adorei o blog cara. aconselho vc a fugir (no melhor sentido). é o certo. muita gente fez isso no passado. ir atras de um lugar melhor pra nós e nossos filhos.
    não adianta se matar por um país e por pessoas que não dão o menor valor pra isso. um país em que lutar por uma causa é considerado ridículo, romantico e infantil (como se houvesse algum problema em ser alguma dessas coisas).
    o problema dos pensantes no brasil é que são chamados de loucos quando jovens e de malucos quando velhos. sempre tive medo do braisl e tb tento fazer de tudo pra fugir dessa verdadeira ilha prisão. mas até isso é difícil, pois temos o estigma tatuado no nosso passaporte verde.
    "queremos suas mulheres jovens, homens e velhos tem que voltar".

    abx de um amigo igualmente rabugento (talvez um pouco mais)

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  7. Mais rabugento que eu! Vou te chamar de garoto enchaqueca...

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