terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A Copa do COP




Só para fechar meus acompanhamentos do COP 15, evento que não tem nada a ver com COPA DO MUNDO, pelo contrário, é muito mais urgente e importante, mas sofre de uma preocupante falta de popularidade:


Até agora só li criticas e chororôs sobre o resultado do encontro, mas nada além do esperado. Eu particularmente acho que a imprensa estava um pouco otimista com relação a este encontro, quando na realidade não dava para esperar um acordo bom entre interesses tão diversos. A impressão que me deu é que todos os países, pelo menos da boca pra fora, entendem o problema e têm um interesse comum em reduzir emissões de carbono.
Dá para dividir os grupos de interesse da seguinte forma: Alguns podem fazer a diferença e sabem que podem – os grandes emissores China, EUA, Europa, Índia, Brasil, etc -  outros são insignificantes – os subdesenvolvidos e que não estão em vias de se desenvolver. Dentre os que podem fazer a diferença, tem os velhos ricos, que têm dinheiro para fazê-lo e são responsáveis históricamente pelos níveis de concentração de carbono atuais – os ditos desenvolvidos EUA, Europa – e os novos ricos, que têm dinheiro para fazê-lo mas acha que se o fizer vai estar sendo prejudicado pois terá que “se desenvolver” sem a bonanza energética do passado – que são os ditos em desenvolvimento ou agora chamados de BASIC (Brasil, Africa do Sul, India, China). Dentre os insignificantes tem os coitadinhos, que já sofrem diretamente com problemas climáticos e têm dificultades de arcar com os custos deles (elevação dos níveis das marés que podem alagar países oceânicos, mudanças climáticas que levam a desastres naturais e escacês de alimento, etc) e os outros, que não sofrem tanto, ou que não descubriram ainda como irão sofrer. Estes últimos praticamente sem voz no assunto, mas cheios de razão para criticar todos os outros.
Na briga de interesses só há um interesse comum. Em comum, todos deixaram claro que ninguém está disposto a gastar sozinho e ninguém quer crescer menos que o outro por causa disso. Os Velhos Ricos, que na realidade são os grandes responsáveis pela situação atual, não querem freiar seu “desenvolvimento” sem um igual comprometimento dos Novos Ricos, que, na realidade, são tão responsáveis quanto eles pelo que vai acontecer no futuro. Os Novos Ricos não aceitam freiar seu desenvolvimento logo agora que estão conseguindo sair da merda sem perceber que serão uns dos primeiros a voltar para a merda quando a merda começar a estourar. Os Coitadinhos choram e se desesperam com toda razão pois realmente não fazem muita diferença para ninguém nesse joguinho econômico mas já são os primeiros a sofrer as suas consequências.
Resumindo, não ia ter como sair um acordo bom para todos, em longo prazo, uma vez que palavras como “desenvolvimento” e “crescimento” não foram banidas da negociação ou não tiveram, pelo menos, uma nova e sustentável definição elaborada já no início das coversas. Impossível, a negociação foi, mais uma vez, centrada em economias e dinheiro, o que move o mundo, não em pessoas e meio ambiente.

Dito isto, e tentando colocar um pouco mais de otimísmo na web, será que não dá pra dizer que, dentro dos limites de seu alcance, dentro dos limites do atual vocabulário económico, dentro dos limites da atual agenda que rege o mundo ($$), o COP15 não teve um relativo sucesso?
Eu me surpreendi vendo o Brasil, juntamente com os outros BASICs, tendo um pouco de voz no assunto (nem quando a reunião foi aqui tivemos tanta voz!). Acho que é a primeira vez em que os novos ricos participam tão ativamente (mais que os Velhos Ricos Europeus) da redação de um acordo desse tipo. Isso para mim é uma reviravolta importante para o esquema de equilíbrio de poderes, afinal os Novos Ricos podem ser ignorantes e prepotentes, mas estão queimando carvão e depredando suas florestas de forma mais muito mais agressiva que os Velhos Ricos conseguiram fazer nos últimos séculos.

Eu me surpreendi com a quantidade de líderes que foram pessoalmente ao encontro (Obama, Wen, Lula, Sarkozy, etc) e principalmente com a participação ativa dos dois grandões (em termos de emissões, EUA e China). Isso quer dizer, no mínimo, que seus acessores lhes estão dizendo que o COP15 tem grande importância política, diferentemente do que aconteceu nas edições anteriores do encontro, ou no máximo, isso quer dizer que alguns destes líderes estão realmente preocupados com o assunto.

No final das contas, o acordo, mesmo sem força de lei, não saiu fechado, o que não quer dizer que o fim esteja próximo. Temos um novo draft, que está um pouco mais próximo de uma visão real do que está acontecendo e de o que deve ser feito para mitigarmos suas  consequências se comparado a Kyoto. Ano que vem tem mais, COP 16, no México, mais alguns pequenos passos deverão ser dados, pois provavelmente teremos mais dados para tentarmos entender como a natureza nos estará cobrando os juros sobre estes quase 200 anos de subsídios que sustentaram nossa superpopulação e seus desejos megalomaníacos.

A pergunta e mensagem que deixo para o final são, por que, afinal, precisamos da ONU para resolver o problema do clima? Acho que precisamos da ONU sim, mas para coordenar os custos do clima, ou seja, garantir que os ricos que foderam (Europa, Estados Unidos) e fodem (Brasil, China, Índia) com o planeta, vão ajudar os coitados que sofrem suas consequência e não vão deixar o povo na mão. Mas por que precisamos da ONU para mudar nosso estilo de vida?
A maioria de nós abusamos dos automoveis, consumimos carne bovina em excesso, compramos produtos industrializados em excesso, a maioria deles todalmente desnecessários e muitos vindo da China mesmo (é fácil culpar os Chineses, mas eles só produzem porque alguém compra!), usamos sacolas plásticas descartáveis, giletes descartáveis, copos plásticos descartáveis, consumimos mais embalagens que comida, usamos mais gasolina que bebemos água, tomamos mais refrigerante que suco de frutas, compramos mais sucos em embalagens tetrapack que laranjas. Emitimos carbono para tudo: locomoção sem suor e sem perder tempo, cortar grama sem suor e sem perder tempo, espremer laranjas sem suor e sem perder tempo, lavar roupas sem suor e sem perder tempo, fatiar cebolas sem suor e sem perder tempo... tudo para, no fim do dia, perdermos tempo suando em uma academia, emitindo mais carbono sobre uma esteira elétrica, para não nos tornarmos gordos cardíacos.

Para finalizar, voltando ao trocadilho infeliz do início da Rabujada - COP vs COPA - o problema não é a ONU nem os líderes de nosso mundo. O problema somos nós. O Google Trends não mente. Mesmo no período em que se publicava mais informações sobre a COP que sobre a Copa do Mundo (gráfico inferior), o interesse público se mostrou, em média, quase 10 vezes maior por esta que por aquela (gráfico superior).



A única coisa de que podemos ter certeza até agora é de que as copas serão cada vez mais quentes.  

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