segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Vício



Faz mais ou menos um mês e meio que decidi que já era hora de levantar a cabeça para a realidade e começar uma luta interna e externa para largar um vício que carrego fazem muitos anos.


O primeiro passo para largar um vício é reconhece-lo, não necessariamente ainda como um vício, mas pelo menos como um problema. Sempre encarei este problema não como tal e mais como uma opção, preferência, hobby, no máximo um hábito. Hoje, depois de mais de trinta dias lutando contra ele, com algumas batalhas ganhas entretanto longe ainda de uma vitória absoluta, já tenho completa convicção que é de vício que se trata.

Uma vez reconhecido o problema, ainda classificado como um hábito, e após uma longa análise sobre quais aspectos de minha vida teria eu que mudar se quisesse alguma chance de sucesso, percebi que eu deveria iniciar a luta com um investimento significante. A importância de se investir em algo antes de dar os primeiros passos é a força psicológica que este ato tem, dando-te uma maior sensação de perda quando uma pequena batalha é perdida. Esta sensação é fundamental para que se tenha sempre a motivação necessária para que tropeções momentâneo sejam imediatamente seguidos de reerguidas, pois tropeços sempre existirão, o importante é não se largar estatelado no chão, mas imediatamente levantar-se e apressar o passo para tentar recuperar a vantagem. Muitas vezes é esta a atitude que separa um fracasso de um sucesso.

Na primeira semana de luta senti o primeiro sintoma da abstinência. Vencida parte da barreira psicológica, enraizada a vontade de largar o hábito, senti já no primeiro dia sintomas fortes de dependência física. Dores musculares, sudorese e muita, muita sede, sem contar com uma inexplicável sensação de insegurança. Tão fortes foram estes sintomas que tive a primeira recaída, e depois de um dia "limpo", voltei a sujar minha consciência uma vez mais. No terceiro dia minhas convicções e a lembrança do investimento feito me colocaram novamente nos eixos e consegui passar mais um dia limpo. Mas novamente os efeitos físicos foram sentidos, e desta vez mais fortes que da primeira: muito suor, cheguei a reconhecer uma mudança em meu cheiro ao longo do dia, ataques de sede, dores no corpo e até caimbras. As caimbras realmente me assustaram, mas serviram para eu reconhecer ainda mais o problema e realizar a profundidade física, ou fisiológica, da dependência. Acho que neste dia comecei a reconhecer que era viciado, física e psicologicamente.

Hoje, apesar de melhor, ainda sou bastante dependente. Minha contagem mostra progresso: primeira semana fiquei dois dias limpo, na segunda o tempo frio e chuvoso de Curitiba me desanimou e tive uma pequena recaída, só consegui a façanha uma vez. Terceira semana consegui três dias, e na quarta, o mesmo número mas com dois dias seguidos, sinal claro que a dependência física pode ser vencida com um pouco de persistência. Hoje estou estacionado nos três dias limpos por semana, mas convicto de que em pouco tempo conseguirei romper a barreira impostas pelas sequelas da dependência prologada, pulando para os cinco dias da semana, faça chuva ou faça sol.

Acho que posso dizer que sou dependente a cerca de 12 anos, começou a ficar sério alguns meses depois de minha primeira carteira, quando comprei meu próprio carro e pela primeira vez me senti realmente livre. Livre para ir e vir, levar a namorada para sair, ir a bares, voltar altas horas totalmente embriagado, de felicidade, realização e álcool. Indo um pouco mais fundo, lembrando de minha infância e presenciando agora o desenvolvimento de meu próprio filho, começo a realizar que as raízes de minha dependência estão muito além de minha primeira carteira. As brincadeiras de criança, filmes de televisão, comerciais, as próprias atitudes de meus parentes mais próximos e de toda a sociedade a minha volta, tudo exerceu influência nas minhas decisões, e tudo fez com que o problema não fosse percebido facilmente por mim.

Conheço muita gente que sofre do mesmo vício mas não o percebe como tal, pior, negam, e mesmo depois deste meu depoimento, certamente continuarão negando. Como eu, estas pessoas abusam da substância, do planeta, e sempre que o fazem se sentem melhores, mais capazes, algumas se sentem até indestrutíveis. Colocam seu corpo em situações de risco, forças físicas para as quais nós seres humanos não fomos adaptados a suportar. A sensação de poder, superioridade, proteção e realização que o uso da droga proporciona é dificilmente igualável. Entorpecidos e dependentes, vejo parentes e amigos se comportarem de forma selvagem, totalmente diferente da postura amigável das situações corriqueiras. Xingamentos, individualismo, egoísmo, classicismo, falta de respeito com o próximo, não são comportamentos incomuns nos usuários de hidrocarbonetos.

Estatísticas nem sempre são confiáveis, dependem muito de quem paga por elas, mas são um bom indicador. Segundo elas, este problema já mata mais que o cigarro, direta, ou, digamos, "passivamente". Foram mais de 254 mil pessoas mortas em acidentes nos último 8 anos, uma média de quase 32 mil por ano. Algumas pesquisas indicam que cerca de 11 mil pessoas morrem por ano em decorrência da poluição causada pelos automóveis, isso só nas 6 principais capitais do país, onde o problema já passou de cronico. Somando estas duas frentes, a ativa e a passiva, temos 65 pessoas morrendo por hora, de acordo com estudos, seis vezes mais que o tabagismo, que mata cerca de 10 pessoas por hora no Brasil, isso porque não estou contando os ainda controversos e incompreendidos efeitos colaterais da depredação do plante para a extração de materias primas e energia para a manufatura e descarte de toda a tropa mundial. Não quero começar uma discussão sobre qual droga é mais pesada pois não é esse o ponto, quero apenas encontrar comparativos para o problema e demonstrar não somente que o Automóvel é realmente um vício, mas que nas proporções atuais de uso e consumo, é um vício que mata. E mata muita gente.

Quando resolvi que lentamente tentaria trocar o carro pela bicicleta, percebi que além de todos os sintomas comentados anteriormente - que meu corpo dependia cronicamente do automóvel, que meu modo de vida dependia do automóvel - percebi também que socialmente, de uma forma muito mais ampla, esta droga vicia de forma sistêmica. Possuir um carro passou a ser a ambição das pessoas, desde criança, e não usa-lo uma vez que o possui, passou a ser considerado insanidade. "Por quê você vem de bicicleta?", me perguntam no trabalho. Costumo responder que é "porque preciso trabalhar para viver". Existe uma pressão social para o uso do carro.

A cidade, não somente seus cidadãos, está viciada em carros. Calcula-se que 70% do espaço urbano público está destinado aos automóveis, veículos estes que transportam apenas 17% da população. Quanto mais carros mais trânsito, quanto mais trânsito mais avenidas, quanto mais avenidas, mais carros, e assim sustentamos um dos ciclos viciosos mais rentáveis da história (depois das guerras), enquanto a grande maioria dos cidadãos são cada vez mais espremidos no pouco que lhes sobra, em calçadas e ciclovias estreitas e esburacadas, em ônibus e terminais super lotados.

O sistema econômico, não apenas a cidade, está viciado em carros. Frente a crises, países lançam incentivos acima de 2 mil dólares por cidadão (abastado) para fomentar a compra de mais carros, girar a economia e gerar empregos, pior, com a desculpa de que assim estaríamos ajudando o meio ambiente. Outros cortam impostos, lançam financiamentos, para garantir que o sistema de enriquecimento que sustenta os bolsos mais abastados do país não entre em falência. Esta indústria, se somada à da dos combustíveis que alimenta a tropa, já parece ser uma das principais de nosso país. O governo, não só o sistema econômico, está viciado em carros, e é incapaz de vez uma saída diferente.

Tem como sairmos dessa? Neste país, minha esperança é pouca mas ainda não acabou (se não não estaria rabujando aqui). Mas porque tanto negativismo? Porque essa mudança exigiria algumas bases que não temos hoje, e talvez sejam necessárias algumas gerações de população e consequentemente de políticos para passarmos a te-las. Estamos falando de um pouco mais do que investimento em transporte público e ciclo-faixas, mas também de consciência coletiva, mudança de valores e vontade pública e política.

Mudanças culturais positivas ocorrem de cima para baixo. É como educação ou altruísmo, precisam ser ensinados e cobrados por alguém, difícilmente vão surgir espontaneamente em nossa espécie. No nosso modelo de democracia, no qual o povo, que não sebe o que está fazendo, elege políticos por interesse próprio, e estes atuam em interesse próprio, ou no máximo representando o interesse próprio de seus eleitores ou patrocinadores (qual a diferença?), inclusive garantindo que o povo continue sem saber o que está fazendo, dificilmente surgirão forças políticas benevolentes capazes ou motivadas a lutar contra o sistema, impondo transformações sociais positivas realmente relevantes. Para começar é este ciclo que precisaria mudar, e essa é apenas a parte mais difícil, não a única.

Iniciada a vontade e poder de de mudança ainda tem o vício econômico que precisaria ser resolvido, aí talvez o mundo sinta a maior síndrome de abstinência de todas. Temos toda a indústria automotiva, que invariavelmente seria bastante freiada por isso, com ela as auto peças paralelas, a indústria de combustíveis, postos de distribuição, oficinas mecânicas e auto-centers. Faça um teste na avenida comercial mais próxima a sua casa: quantas lojas de carro tem? quantos postos de gasolina? quantos auto-centers? quantas lojas de som ou "tunning" automotivos? Compare com a quantidade de verdureiros, teatros, livrarias (pode somar esses últimos se quiser)? No meu bairro é mais fácil instalar insufilme ou abastecer o tanque do que comprar um quilo de abobrinhas. Mas isso também só depende de vontade pública. Todo este comércio surgiu para abastecer o mercado. Se o mercado mudasse, a oferta mudaria com ele, e poderíamos ter em todos o bairros, pequenos distribuidores de alimentos orgânicos, frescos e de qualidade, mais livrarias, teatros, e onde temos hoje nosso singular Mercado Municipal ou nosso único Ceasa, poderíamos ter um singular posto de gasolina e um auto-center. Exagero? A "lista online" aponta, em Curitiba, 442 endereços para "carros usados", 248 relacionados à palavra "gasolina" e 173 para "Auto-Center", contra apenas 33 para "Legumes", 81 para "livraria" e 13 para "teatro". "Bicicleta" retorna 35 endereços.

Acredito que a experiência em que estou metido (tentando largar o vício) pode servir de exemplo. Antes de começar a andar de bicicleta, tive que perceber que minha conexão psicológica e física com o carro era um problema. O investimento, uma boa Caloi 10, veio depois e só a partir daí começou a haver mudança. Da mesma forma, antes de construir quilómetros de ciclo-faixas ou comprar centenas de ônibus, é preciso conscientizar as pessoas de que o excessivo uso do automóvel é um problema, se não as ciclo faixas vão acabar vazias e abandonadas, ou virarão (como acontece) pista de cooper, estacionamento, ou "moto-faixas", e os ônibus ficarão muito caros para os poucos passageiro que não tem dinheiro para comprar um carro. Hoje vemos em comerciais imagens de automóveis reluzentes viajando em alta velocidade por avenidas livres, belas estradas e paisagens estonteantes, e enquanto os consumidores sonham com o automóvel reluzente, não percebem que o que eles realmente precisam são as avenidas vazias, belas estradas e paisagens estonteantes!

Os valores estão invertidos, e antes de qualquer coisa precisam ser realinhados.

9 comentários:

  1. Excelente!!! Nossa Nicky, meu velho, a mudança está em nós, mesmo! Procuro andar a pé o máximo que consigo. Andar de bike no centro é muito complicado. Meu sogro e sogra estão viciados em bike, ele, neto de quem trouxe os primeiros GM para Curitiba, tem 3 carros (GM) e anda muito de bike...há anos. Atualmente encontrou um grupo...naquela lojinha do Sr. Américo...chegando ao São Lorenço...altas trips de bike!

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  2. Mudar a mentalidade e atitude social de um brasileiro ( nao apenas de brasileiros, é claro...), no que diz respeito ao status atribuido ao carro ( nao so ao carro, é claro...) é missao quase impossivel!!!Acho que vc deveria investir num curso de holanděs, vender carro, casa, cachorro etc e se mudar para Amsterdam!!

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  3. Ah!! E ai tem que comprar uma bakfiets e uma loopfiets!! E ter uma casa com quarto de hospedes pois viriamos te visitar com frequencia!!

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  4. Além da proposta, motivo deste texto, a produção textual também está excelente. Parabéns Fuperhomem
    Iara

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  5. A Missão é impossível... mas nada que uma boa crise energética não possa resolver. Voltaremos à era do apagão!

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  6. Os posts tão ótimos, Nicholas. Eu tbem fico mais á vontade a pé, sempre que rola. Mas as rodagens pela região metropolitana sempre exigem automobilizações por demais. Abraço.

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  7. Nicholas, o seu depoimento é muito interessante. Alías, não só este post mas o blog como um todo. Seu modo de escrever, direto e coloquial, é ótimo. Parabéns.

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  8. Caramba que legal!!!! Este pode ser um aditivo do livro Apocalipse Motorizado!!! Parabéns!!

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  9. Sem dúvida as inspirações são comuns! Valeu!

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