segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O que resta da cidade...



Domingo não é dia de Rabujar, é dia de brincar, ouvir música, curtir a família e andar de bicicleta. Mas andar de bicicleta no domingo é bem diferente dos outros dias da semana...

De segunda a sexta, quando tiro a magrinha da lavanderia para ir trabalhar, o que vejo e o que sinto não é a mesma coisa que no domingo. Dia de semana reclamo de tudo, irregularidade do asfalto novo na ciclovia, pedras que rolam da linha de trem, motoqueiros que usam a ciclovia para cortar caminho, guia mal rebaixada, dificuldade para atravessar as ruas, trânsito, fumaça, falta de conservação e iluminação das vias, invisibilidade do cicista, etc. Domingo não, o sol, a ausência de pressa e de trânsito intenso de automóveis mudam a cara das coisas. Até os muros, barreiras á liberdade de trânsito e ladrões de horizontes, ficam diferentes, mais bonitos. Canvas urbanos, basta um pouco de tempo para aprecia-los. Eu que cresci ouvindo que "tempo é dinheiro" começo a relaizar que tempo é muito mais que isso, não há dinheiro que compre o tempo.



para quê serve um muro?

A cidade é hoje um labirinto onde o cidadão se perde entre a propriedade privada e canaletas de asfalto exclusivas para os bem-providos. Discute-se sobre radares e trincheiras enquanto o cidadão comum se expreme entre o meio fio e o muro, sem espaço, sem sol, sem ar.  Cadê as crianças jogando bola na rua? jogando bets? andando de bicicleta? desapareceram entre os Nintendos e as cercas elétricas, shoping centers e academias. Domingo, 10:00 da manhã, o gol estava sem goleiro, sem bola, sem ninguém.


pobre trave, sozinha, abandonada, em pleno domingo de todos os santos

Mesmo sem a freguesia de sempre, as ruas ainda escondem algumas belezas. Acompanhando a ciclovia que sai da Barreirinha em dierção ao Bacacheri, encontramos ainda alguns trechos que ficaram à margem do progresso canibal, por conta da linha férrea que a acompanha. Na cidade o trem é um grande amigo do ciclista. É mais ou menos como aquele cachorrão que protege o passarinho do faminto Frajola.



A ferrovia é anterior à era do exageiro (talvêz marque o início dela), por isso ela é construida sob uma lógica conservacionista, ou seja, de forma a não desperdiçar energia. Dois princípios fazem dela mais eficiente por natureza: curvas de nível e ausência de paradas desnecessárias. O "acelerar para depois freiar" é a principal fonte de consumo de enrgia do ato de dirigir um carro na cidade. Toda energia cinética dada ao peso do carro é transformada em calor ao se freiar o veículo. Trem não para, então nossos apáticos urbanistas têm que se torcer para minimizar cruzamentos entre ruas e trilhos, e nessa, a ciclovia ganha continuidade.


andando na linha

O mesmo desperdício exsite nas subidas e descidas, praticamente inexistentes nas vias férreas. Nos automóveis com seus grandes tanques de gasolina e motores despreporcionalmente potentes, isso fica escondido por trás de toda a sua ineficiência intrínsica, mas em uma bicicleta isso é muito fácil de se perceber, e como a linha do trem não segue as apressadas linhas retas mas sim as suaves curvas de níveis, a ciclovia que a acompanha também ganha suavidade. Quem anda de bibcleta sabe, uma reta pode até ser o caminho mais curto entre dois pontos, mas não é necessariamente o melhor caminho.


casainha ferriviárias no Bacacheri

Mas o melhor da ferrovia não se limita a estas tecnicalidades. A via férea é mais bonita que as outras. Trilhos de aço, dormentes de madeira maciça, pedras, vejetação. Sua imutabilidade parece congelar também o tempo à sua volta, preservando um pouco da cidade de nossos bisavôs. Um de meus trechos favoritos é onde se vê as casinhas ferroviárias que se expremem entre a história da linha e um dos maiores ícones da desigualdade de Curitiba, o Graciosa Country Club. São quatro casinhas compridas que parecem de outros tempos, bem no meio de uma região super-valorizada, e que ainda estão ali provavelmente porque não se pode construir mais ali ou porque as pessoas têm medo de morar de frente para a linha de trem.


Estribo-Ahu + Photoshop

Ao longo desse pequeno trecho (entre a Barreirinha e o Bacacheri) ainda consigo sentir um pouco de prazer em minha cidade natal. Não é fácil, concordo, faz-se necessário um olhar fotográfico para conseguir encontrar beleza em meio a fios de luz e avenidas. Com um olhar tele-objetivo isolo o trecho florido dos postes de luz e dos automóveis estacionados. O olhar 55mm isola a silhueta de Bob Marley das caixas de luz enferrujadas da Copel. Com um balaço de cores saturado e alto contraste se faz mais verde o gramado acizentado pela fuligem. Um pouco de Photoshop deixa carros modernos e construções fúteis quase que imperceptíveis numa foto que simula a Curitiba dos velhos tempos. Fazer o que... uso a tecnologia para remediar alguns dos males que a própria tecnologia nos causa.

2 comentários:

  1. boa noite, estas casinhas que vc vê junto da linha, se não me engano , ali era a famosa colonia argelina.

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  2. É verdade. Ali era a estação Colônia Argelina, demolida nos anos 80. Mas as casinhas beirando os trilhos, não fazem parte da colônia original que não prosperou, são casas de ferroviários mesmo.

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