sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O porteiro que largou o emprego pelo Bolsa Família



Recebi um dia desses um email que contava a infeliz história de um porteiro, em Natal-RN, que resolveu pedir demissão porque chegou à conclusão que estaria melhor com os benefícios “bolsa esmola” do governo que com o salário que recebia. Resumindo, a conta ficava assim:


- Salário do porteiro já acrescido de horas extras e benefícios: R$830,00
- Benefícios do Governo: Bolsa escola R$175,00 (x2 para quem tem dois filhos); Cartão Cidadão R$ 350,00; Vale Gás R$ 70,00; Vale Transporte R$ 160,00; Vale Refeição R$420,00; Soma tota: R$ 1.350,00.

O email terminava usando a expressão “ISSO É UM ABSURDO!”, e dizendo que isso tudo faz parte do Bolsa Família, citando inclusive o artigo da lei que regulariza este benefício (truque para ganhar credibilidade) e acusando o atual governo a financiar a vadiagem.

O objetivo da rabujada de hoje não é mostrar que este email é uma fraude, nem reclamar da montoeira de imbecilidades que recebemos por email quase todos os dias, e pior, emails vindos de pessoas teoricamente cultas e bem informadas. Disso com certeza rabujarei algum outro dia. A idéia de hoje é continuar um pouco o tema da última rabujada, hipocrisia.

De cara já vou explicando que o email é uma fraude. Não tem nada a ver com o Bolsa Família, que não chega nem perto dos R$1.350,00, mas varia entre R$22,00 e R$200,00, dependendo das condições da família beneficiada. O texto do email traz outros absurdos também. Não sei como acontece em Natal, mas aqui onde vivo quem paga vale transporte ou vale refeição são empresas para seus funcionários. Hoje, os antigos programas bolsa esmola do governo federal, os criados por governos anteriores (é! assistencialismo e compra de votos não é uma invenção moderna!) como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Cartão Alimentação e Auxilio Gás, foram todos unificados no infame Bolsa Família.

Mas como eu disse, não é o email que eu queria discutir, mas a idéia que ele tenta passar. Vou tentar resumir o meu ponto de vista com uma única pergunta: - Qual é o problema realmente, é o governo oferecendo ajuda para famílias com renda mensal inferior a R$140,00 por pessoa, ou é um condomínio pagar R$850,00 por mês para um porteiro? Ou re-fraseando, o “ABSURDO” é o Bolsa Familia ou é o salário do porteiro?

Eu digo que o problema é que estamos muito confortáveis criticando governos enquanto nós mesmos exploramos a pobreza. Pagamos mal a diarista, pechinchamos o preço da mão de obra do pintor, pagamos mal o indivíduo que controla quem entra e quem não entra em nossas casas (o porteiro), sustentamos confortavelmente um enorme mundo de subempregos. O pior é que muitas vezes nos sentimos bem com isso, nos auto-sugerindo que se estas pessoas não tivessem este subemprego estariam passando necessidades. Eu digo o seguinte: estas pessoas passam necessidades e ainda tem que se sugeitar a subempregos. É isso sim que fazemos.

Aí alguns hipócritas se desculpam: “Mas subempregos são necessários! Como faríamos sem eles?”

Limpamos nossa própria bunda, por que não podemos lavar nossa própria roupa, recolher nosso próprio lixo? Tem catador de lixo reciclando garrafas PET na Finlândia? Não, quem compra garrafa PET na Finlândia paga uma taxa a mais pelo não retorno da garrafinha (valor que vem estampado na própria embalagem) e recupera este valor caso as deposítes em máquinas de retorno automáticas disponíveis nos supermercados. Tem funcionários recolhendo carrinhos de bagagem nos estacionamentos de aeroportos na França? Um ou outro, pois para retirar um carrinho, o viajante precisa inserir uma moeda de um Euro em uma trava e esta moeda é liberada somente se o viajante retornar o carrinho nos locais designados encaixando o mesmo em outro carrinho. Tem empregada doméstica na Inglaterra? Tem, mas custa uma fortuna, os “cleaners” baratinhos são normalmente imigrantes ilegais que tentam levar a vida por fora do sistema, e mesmo assim cobram por hora. Via de regra as pessoas limpam a própria casa ou deixam a casa suja e pagam uma limpeza cara de vez em quando. Existe motorista particular na Alemanhã? Sim, mas lá esta profissão não se classifica como subemprego, pois não é qualquer um que consegue pagar por eles. A única vez que eu entrei em um Mercedez-Benz zerinho na minha vida foi em um taxi em Heidelberg. O subemprego não se caracteriza pela natureza do trabalho em si, mas pela sua valorização financeira e perante a sociedade.

Aí outros hipócritas se desculpam: “Mas os ciquenta reias que pago para minha diarista é melhor que nada!”. Sim, excelente raciocínio! Ciquenta reais é melhor que nada. Nada melhor que uma vida feliz e com saúde. Portanto cinquenta reais é melhor que uma vida feliz e com saúde. Imbecil! Você somente vai começar a ajudar sua diarista quando começar a paga-la por hora o suficiente para garantir que seus filhos possam escolher outra profissão, algo proporcional ao quanto você precisa para viver. Faça as contas.

Aí, os hipócritas que sobraram, vão falar: “Mas sem estes empregos eles estariam desempregados!”.

Emprego é uma questão de mercado, e o mercado de empregos deve ser controlado pelo governo e sociedade. Para mim é obvio o que ocorre quando se aplica liberalismo ao mercado de empregos. Acontece o que acontece hoje: poucos têm bons empregos e ganham muito com isso, muitos se sub-empregam para prover conforto aos de bons empregos, e a sociedade de castas se mantém desta forma, garantindo que os que estão por cima continuem por cima e garantam que seus filhos continuarão por cima, enquanto os que estão embaixo não tem saída melhor se não ensinar seus filhos a serem humildes e trabalharem para sustentar a casa, sem ter tempo para pensar no que realmente gostariam de fazer da vida.

Aí talvez more a raiz do problema: a falta de vontade pública e governamental em dar outra oportunidade aos subempregados. Para que mudar o que está bom? Poderia ficar ótimo! Mas poderia ficar pior. Se, hipoteticamente, o email que iniciou esta rabujada trouxesse informações precisas, seria um caso bem interessante. Imagine o Bolsa Família provendo R$1.350,00 de lambuja para qualquer um. Isso serviria como concorrência aos demais subempregos, tirando do mercado a oferta de mão de obra barata e elevando o salário de algumas categorias flageladas mas necessárias. Os condomínios seriam obrigados a pagar muito mais que R$1.350,00 por mês para encontrar alguém disposto a cuidar do conforto e segurança de seus moradores, ou teriam que aprender a abrir seu próprio portão, tirar seu próprio lixo, trocar seu próprio gás, receber sua própria correspondencia. Se você realmente acredita que R$200,00 por mês é concorrencia para subempregos é orque nunca tentou sacar R$200,00 no banco no dia primeiro e teve que ir ao supermercado no quinto dia. Cadê os R$200,00 cinco dias depois?

É possível também aumentar a oferta de emprego no país re-pensando a jornada de trabalho. A nossa é de 44 horas (sem horas extras), a da França é menos que 39, a da Suécia menos que 38. Vamos nos aproximar do mundo civilizado, trabalhar menos, democratizar o trabalho e aumentar o mercado de trabalho em 10% da noite pro dia! Dez por cento é mais que nosso desemprego oficial! Porque não? Vai custar caro? O que será que iria acontecer se procura fosse maior que a oferta? Vamos ter que pagar mais para a doméstica para poder concorrer com a indústria, que alem de pagar mais, treinar, dá benefícios como recolhimento de INSS, vale alimentação e as vezes até capacitação técnica? Por que não fazemos quatro turnos de seis horas em vez de três de oito? Será que não daria para aliviar o peso de uma solução destas na indústria com uma revisão nos encargos trabalhistas? Afinal mais gente trabalhando, menos seguro desemprego e Bolsas Famila, e os encargos não precisariam ser tão altos. Será que esta conta não fecha ou simplesmente não é interessante?

Outro argumento interessante é “menos desemprego menos problemas”. Muita gente que não está disposta a pagar por esta democratização do emprego não tem noção de quanto lhe custa os problemas sociais do país, problemas como o desemprego e o subemprego. Quanto lhe custa murar a casa, precisar de um carro para não se expor aos problemas de andar a pé, ficando vulnerável nas ruas? Quanto lhe custa o seguro do carro, os estacionamentos seguros para ir ao cinema, shopping? O segurança do prédio, da fábrica, da escola? Quanto a mais lhe custa todos os bens de consumo, uma vez que todas as empresas, bancos, etc. precisam gastar uma parte importante de seus orçamentos em segurança? Quanto lhe custa o fato do governo gastar o equivalente 1% do PIB em segurança pública, ao invéz de botar o dinheiro na saúde pública, educação, desenvolvimento humano?
Não posso responder a todas estas perguntas, mas tenho exemplos alarmantes. O governo federal e os estados, juntos, têm gasto mais de 30 bilhões de reais em segurança pública por ano. Uma reportagem da revista veja publicou que a classe média brasileira já gasta mais em seguros que em feijão. A mesma matéria dz que a General Motors do Brasil gasta quase 3 vezes mais com segurança que sua matriz americana e produz 30 vezes menos (é claro que a revista Veja não chama seus leitores de hipócritas). A arrecadação anual da indústria da segurança brasileira já passa dos 4 bilhões de reais, o setor bancário, sozinho, gasta 1,5 bilhão de reais por ano em segurança. Não digo que uma melhor distribuição de renda no país eliminaria estes gastos, mas usando o exemplo da GM presumo que, se chegarmos aos níveis de segurança dos EUA, que não é lá essas coisas, poderíamos reduzir estes gastos em 2/3, imaginem estes 20 bilhões a mais aumentando em 40% o orçamento da saúde ou da educação para 2010 (que estão ambos em torno de 53 bilhões)?

Números aborrecem. Ainda mais quando eles indicam descaso ou incompetência. Fato é que se os R$200,00 do bolsa família está concorrendo com algum tipo de emprego, eu não desejo este emprego nem para meu pior inimigo, nem mesmo pro Lula que não trabalhava nem por salário de metalúrgico. Fato também é que se algum de nós realmente quiser acabar com a exploração da miséria, precisará descer de seu (nosso) pedestal de hipocrisia, calcular mentalmente a mínima renda mensal pela qual nos sujeitaríamos para trabalhar, e usar este patamar para pagar qualquer tipo de serviço. Tenho certeza que muitos de nós passaríamos a viver uma vida muito mais modesta.

4 comentários:

  1. Texto longo, quase prolixo, e absolutamente correto!

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  2. sou porteiro tenho familia com os descontos q sao muitos o maximo q recebo e 650$ conheço pessoas mais carentes q nunca receberam bolsa familia com certeza os responsaveis por distribuir estao fazendo a festa esse valor de 1350$ nao existe porq ate eu pediria as contas do emprego ok.abraço!

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  3. Descobri este espaço pesquisando a história do Porteiro do RN e a indignação de uma "patroa", pois andava a dialogar com a minha família (potiguar) sobre a eleição de Dilma.
    Gostei deste espaço...

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  4. Obrigado Marcelo, ando meio vagal nas minhas rabujada, talvez até um pouco decepcionado com o processo eleitoral, por isso meio quito... é uma fase. O Rabuja já volta...;)

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