quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Share a smoke


Visconde de Guarapuava Out-2009

Já rabujei sobre o trânsito, sobre o uso excessivo e muitas vezes egoísta que fazemos de nosso automóvel e do mal que isso faz à nossa saúde individual. Ainda não comentei muito sobre o mal coletivo gerado por essa nossa cultura vaidosa e individualista. Mal coletivo pela queima desnecessária de milhares de litros de combustíveis (fósseis ou não). Mal coletivo por tornar nossas cidades um grande emaranhado de vias por onde têm prioridade de passagem nossas máquinas carboníferas com vidros escuros sobre os cidadãos desmaquinados e nus (fato este belissimamente descrito no artigo de Goura Nataraj, "Bicicletas e a história afetiva da cidade"). Será que algém já pensou em calcular a área da cidade dedicada aos veículos (ruas, avenidas, estacionamentos) e compara-la à área dedicada a, por exemplo, lazer, educação, pedestres = pessoas? ...


Cada dia colocamos mais veículos nas ruas, duzentos mil, trezentos mil por mês, só no Brasil (dependendo do mês e do que se considera veículo), resultando no notável entupimento das vias e avenidas da cidade. Resultado é que cada vez mais as cidades são planejadas para os veículos transitarem em paz. Trincheiras, binários, cebolões, avenidas, ciclovias mal planejadas (veja blog do odois.org), sempre pensando em como fazer caber mais veículos por hora dentro das estatísticas. Já para os quilômetros e quilômetros de engarrafamento criado por essa técnica, nosso prefeito Beto, e a esmagadora maioria da população que o reelegeu, pensam que a melhor solução é criar novas trincheiras, mais avenidas "verdes" e cheias de semáforos, binários, tudo para fazer com que a cidade fique cada vez mais agradável para CARROS e que cada vez mais pessoas usem CARROS e que rapidamente as ruas fiquem entupidas novamente (veja o caso da Visconde de Guarapuava, que já teve quatro faixas, agora tem seis, e já estão falando em retirar o canteiro para construir mais umas).

Eu digo que a solução é no caminho contrário: temos que desincentivar a utilização de carros.

Fornecer alternativas e forçar uma mudança de comportamento. Substituir ruas por ciclo-pistas, criar mais canaletas exclusivas para o transporte coletivo, cobrar mais por comportamentos egoístas (caso de Londres e seu pedágio urbano, o "congestion charge"), premiar comportamento autruista (também na inglaterra, as faixas exclusivas para carros com dois ou mais passageiros, o "car share lane") e investir mais em soluções verdadeiramente “democráticas”. O visionário Ivan Illich já dizia na década de 70: "Diga-me a que velocidade se move e te direi quem és? Se não pode contar com seus próprios pés para se locomover, é um marginal, porque o veículo se converteu em símbolo da segmentação social e em condição para a participação da vida social. Ao conseguir propiciar aos motoristas a quebra de uma nova barreira de velocidade a indústria do transporte está patrocinando, inevitavelmente, novos privilégios para uma minoria e agonia para a maioria".

Não precisamos necessariamente ser contra carros! Pessoalmente tenho o meu. Precisamos apenas garantir uma utilização mais inteligente de todas as opções disponíveis.

Já sabemos que bicicletas são uma excelente opção, mas acredito ser uma ilusão infantil querermos um mundo em que todos ou a maioria use bicicleta de uma hora para a outra, ainda mais em uma cidade molhada como nossa Curitiba. A boa notícia é que existe uma solução alternativa para os que querem continuar em seus veículos e ajudar no trânsito, e uma solução que ao invés de tirar um veículo da rua (como a bicicleta), pode tirar até três: carona.

O conceito de carona casa muito bem com o problema de horário de pico ou rush hour. São muitas pessoas que saem de casa no mesmo horário para chegarem no trabalho/escola no mesmo horário. Além disso temos em Curitiba áreas essencialmente residenciais, áreas essencialmente industriais e áreas essencialmente comerciais. Essas características juntas devem, estatisticamente, criar oportunidades de caronas interessantes a serem aproveitadas.

Agora, como operacionalizar isso e fazer bom uso destas eventuais coincidências de percurso e horários? Grandes empresas ou comunidades de bairro podem criar seus mapas de carona onde cada morador/funcionário descreve o trajeto, regularidade e quantidade de acentos livres nos veículos onde os que buscam caronas podem verificar as opções, e onde atuais motoristas podem identificar pessoas com rotas comuns a elas. De forma um pouco mais abrangente, comunidades da internet podem fazer o mesmo, utilizando ferramentas de mapas como o Google Maps e ferramentas de relacionamento como Orkut o Facebook para se informarem mutuamente sobre rotas e horários.

Vejam o exemplo que criei no Google Maps. Coloquei no mapa dois possíveis trajetos que faço todos os dias entre minha casa e meu trabalho (quando não vou bicicleta). Se você clicar sobre um dos trajetos, o que talvez te interesse pois coincide em parte com o seu, vai ver que coloquei também os horários aproximados de saída de cada um dos pontos de partida (manhã e tarde), quantas vagas tenho no meu carro, se sou flexível a "cotovelinhos" (pequenos desvios de trajetos para buscar caroneiros em casa) e meu email de contato. Quem achar que pode pegar carona comigo entra em contato, trocamos números de telefone e pronto. Como dono deste mapa, posso cadastrar outras pessoas para poderem criar os seus roteiros ou posso deixar aberto para qualquer usuário criar o seu. Neste caso está aberto.


Visualizar Caronas CWB em um mapa maior

Convido a todos a criarem suas rotas aí e se disponibilizarem na nobre tarefa de tirarmos carros das ruas compartilhando o que temos.

LETS SHARE OUR SMOKE!

Notas finais:

Tive essa idéia por conta própria a algum tempo atrás, mas pesquisando a respeito achei vários sites mais profissionais de caronas. Concordo que para esse tipo de coisa, as idéias não devem entrar em concorrência, afinal estamos falando em atitudes colaboracionistas, mas todos estes sites que achei (e listo abaixo) tinham alguma coisas que não era muito bem o que eu buscava. E mais uma vez tenho que dar o braço a torcer aos ingleses. No site do "Transport of London", orgão da prefeitura de londres que administra todo o sistema de transporte da cidade (pedágios, metrôs, ônibus, etc.) já existe essa iniciativa (entre muitas outras) para a cidade. se chama "Car Share", e possue tanto soluções para o cidadão comum como para comunidades ou empresas.




Segue os outros links para avaliação:


http://www.caronabrasil.com.br/ - Muito bom... até me inscrevi, mas aí começam a pedir telefone residencial, endereço completo, CEP e ficamos meio titubeados.


http://www.vaipraonde.com.br/ - Mais orientado para caronas entre cidades (passeios) que para a rotina horário de pico do dia a dia.


http://www.caronasegura.com.br/ - Idem ao anterior


http://www.ecarona.com.br/ - Talvez o mais parecido com o que eu esperava, mas não mostra rotas completas e por enquanto só tem usuários de SP. Podemos começar a mudar isso.

Devem ter mais...

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