sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Levando a boiada




Quantas pessoas você conhece que não curtem cinema mas compraram recentemente fantásticos televisores plasma de altíssima definição com equipamento home theater e tudo mais, para ver novela das oito, faustão e Big Brother Barsil?
Quantas pessoas você conhece que ...
não gosta de música, não tem um equipamento de som em casa, mas anda por aí exibinido seus iPods ou possuem nos carros caríssimos mp3 players com entradas SD, USB e outras letrinhas mais, ligados a módulos de últra potência e caixas poliaxiais japonesas (nunca as chinesas) fabricadas na China para ouvir o último sucesso lançado na novela e distribuido pela Globo Misic mas baixado em baixíssima qualidade da internet?
Quantas pessoas você conhece que compraram mountain bikes com suspenção hidráulica regulável, 21 marchas indexadas, 3 coroas com geometria progressiva, freios a disco, para passear no parque Barigui alguns finais de semana?

Quantas pessoas você conhece que compraram uma máquina fotográfica digital de 10 megapixel, com lentes Carl Zeiss de alta precisão, bracketing de intensidade de flash, balanço de branco e exposição, visor de 3 polegadas e meia, obturador de alta velocidade e zoom optico de 20x mais 5x digital para tirar fotos mal enquadradas e fora de foco da família reunida no aniversário da tia?

Basta entrar na página inicial do site das Lojas Americanas: Computador Intel Pentium Dual Core E5300 2.6GHz 4GB 500GB DVD-RW Linux-Qbex + Monitor LCD 18,5" Widescreen (para usar processador de textos e internet); Esteira Eletrônica (o que é uma esteira eletrônica?) CLE20 (para pendurar roupas); Celular Motorola Z10 - GSM c/ Tecnologia 3G Câmera 3.2MP c/ zoom 8x Filmadora Edição de Vídeos Bluetooth Estéreo 2.0 Fone Cabo de Dados USB e Cartão 1GB (para ligar pros amiguinhos); e assim por diante.

Porque as pessoas precisam de GPS? Porque as pessoas precisam de fornos micro-ondas, gril do Jeorge Foreman? Porque as pessoas precisam de ESTEIRAS ELETRÔNICAS? de veículos que respondem a comandos de voz? Por que tem gente que há 10 anos atras não sabia da existência de telefones móveis mas não conseguem mais sair de casa sem o celular e ficam extremamente irritadas quendo tentam te ligar e não conseguem?

Somos hoje, na maior parte do tempo, manipulados para manter um sistema auto destrutivo vivo e saudável. Não digo que "o sistema" é fruto de um ente perverso que nos manipula por prazer. O sistema é apenas fruto da evolução artificial da ambição humana. Uso a palavra "evolução" por que a ambição é uma característica evolutiva e que continuamente se desenvolve tomando força cada vez maior em nossa espécie. Uso a palavra "artificial" porque esta evolução vem sendo moldada pelo próprio homem, especificamente pelos que têm o poder de faze-lo.

Consumimos objetos por pura vaidade. Não possuir certos objetos e luxos é sinal de mal desempenho profissional e social. Nesta cultura onde perdedores e vencedores são diferenciados superficialmente pelas aparências, e a aparência mais importante numa sociedade de consumidores é a aparência do poder de consumo, precisamos demonstrar nosso sucesso atravéz de nossos objetos. Afinal, conhecimento, cultura, esclarecimento e inteligência não aparecem na foto. Objetos sempre serão consumidos. Os comerciais, novelas e progamas de auditório apenas ditam quais os objetos queremos consumir hoje.

Consumimos objetos por falta de opção. O monopólio de indústria de transporte não nos permite mais viver sem um automóvel. Sem carro não podemos ver pessoas, trabalhar, sair para jantar, etc. Tanto as cidades quanto as rodovias que as ligam são planejadas e construídas para não freiar as ambições desta indústria. O monopólio da indústria dos calçados e da moda já fez com que os pés desclaços sejam vistos com desdém e sejam proibidos de entrar em edificios públicos, escolas, bancos, restaurantes, cinemas. O monopólio da educação já levou nosso país a ter um dos maiores números de profissionais com coleções de diplomas de graduação e pós graduações e empregos medíocres. Não interessa mais a qualidade da educação, mas sim quanto tempo de nossas vidas perdemos em instituições ditas de ensino e quantos diplomas e certificados carregamos. O quê acreditamos, nossos valores, experiências, vivências são meros detalhes. Somos forçados a doar nossos filhos a escolas terceirizando a educação deles, pois sem uma escola a criança de hoje não é considerada educada, e o pai que tentar ir contra este monopólio vai acabar preso! O monopólio da saúde nos força a visitar profissionais há pouco inexistentes para nos dizer o que comer, como nos lavar, como nos exercitar, consultores para tudo, tudo o que deveria, na verdade, fazer parte da nossa educação. Mas não está lá. Porque os monopólios das indústrias se suportam mutuamente, resolvendo problemas que sem eles não existiriam.

O pior é que tais forças já estão tão enraizadas nas nossas vidas que muitos de nós negaremos sua existência pois não nos vemos mais sem elas! Somos, desde pequenos, tratados como consumidores, estudantes, pacientes, motoristas, de modo que a maioria de nossas relações humanas já estão etiquetadas com o "quem é quem". Quem fala - quem escuta, quem vende - quem compra, quem julga, quem trata, quem influencia.

O autor David MacKay, em seu livro "Sustainable Energy - without the hot air" define as coisas que consumimos de uma maneira genial:

Um dos maiores drenos de energia no mundo "desenvolvido" é a fabricação de coisas. Em seu ciclo de vida natural, coisas passam por três estágios. Primeiro, uma coisa recém nascida é mostrada em sua embalagem brilhante em uma prateleira de loja. Neste estágio, a coisa é conhecida como "bem de consumo". Assim que a coisa é levada para casa e separada de sua embalagem, ela passa por uma transformação de "bem de consumo" para sua segunda forma, "entulho". O entulho vive com seu dono por um período de meses ou anos. Durante este período, o entulho é ignorado a maior parte do tempo pelo seu dono, que está em outras lojas comprando mais bens de consumo. Eventualmente, por um milagre da alquimia moderna, o entulho é transformado em sua forma final, "lixo". Para olhares não treinados, pode ser difícil de distinguir este "lixo" do altamente desejado "bem de consumo" de outrora. Entretanto, neste estágio o sábio dono paga ao lixeiro para que a coisa seja levada de sua casa.

 Existe alguma linha que separa o consumo conciente, saudável, sustentável, dos exageiros cometidos hoje? Qual a diferença entre necessidade e luxo? Qual a diferença entre conforto e mordomia? Qual a diferença entre descanso e preguiça? Cuidado e vaidade? Alimentação e gula? Não quero discutir aqui os pecados capitais, talvez os pecados do capital.

Não sei ainda s respostas, não estou certo. Vou continuar procurando e rabugeando neste site. O que posso dizer é o seguinte: Não precisamos saber o que é certo para identificar alguma coisa que está errado.

8 comentários:

  1. Meu vereador dos sonhos virtuais! Hehehehe é isso mesmo. Vamos nos infectando de porcarias que nos tiram a essência simples da vida. TV a cabo, fora! heheheh Estava brincando sobre a Hilux...hehehe. Eu mesmo estou com meu gol GIII 16V...tentei vender...mas parece que "virou lixo". Não interessa que gastei vários mil reais em sua manutenção. O preço é o mesmo como se nada fosse trocado. Vou continuar com ele. 10 anos em dezembro. Econômico, novo e valente. Estou tunnando ele...claro...10 anos de tecnologia.

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  2. Cara. Tamo vendendo o escort da Lu. 12k Se precisar de um carro maior.

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  3. O mais engrçado é ver o adsense/google ads colocando propaganda da Intel depois do post! Maravilhas da automação!

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  4. Valeu! Comprei um outro vw...um Polo. Vou ficar com o Gol para empresa...

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  5. Grande Rabuja
    Há alguns anos atrás a gente lia Ivan Illich, e Schumacher. Eles avisavam disso ai, como profundos arqueólogos da sociedade moderna. Small is beautiful , um clássico, The guide fr the perplexed, uma em cima da cabeça do prego e The rivers north of the future, e ainda mais antigo e iniciador Toward a history fo needs (de onde vem a história das necessidades e ds mitos da escassez, do prgresso e do desenvolvimento que sustentam a nossa falsa ciência da economia). Os três ultimos de Illich.
    Acho que vale a pena a leitura para quem tá na busca de respostas.
    De uma Illcihiano, tolstoyano e schumacheriano incurável.
    Com carinho
    Claudio

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  6. ooops eu quis dizer os dois ultimos, sorry

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  7. Nossa ! Muitas questões levantadas neste post: consumismo, desperdício, apatia, educação X escolarização...

    Muito interessante mesmo. Já estou fuçando algumas das referências que vc apontou.

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  8. Salve Luis... você vai ficar especialmente interessado nesse aqui: http://www.davidtinapple.com/illich/1973_energy_equity.html

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