segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Embalagens nossas de cada dia




Comprei uma webcam pela internet esses dias e a recebi ontem pelo correio. Para minha surpresa - na verdade não sei porque ainda me surpreendo com esse tipo de coisa - percebi que não foi apenas uma webcam que comprei. Junto com ela veio pelo menos mais uns 3/5 de seu peso em embalagem puramente desnecessária.
A câmera veio embalada em um saquinho plástico de PVC que por sua vez encaixava-se em um blister plástico (possivelmente de PET ou de PVC também) que por sua vez se encaixava em uma caixa de papelão simples mas multi-colorida (mas sem nenhuma informação verdadeiramente útil impressa sobre ela), que trazia um saquinho adicional que trazia um envelope branco com uma janela transparente por onde se via o CD contendo os drivers de instalação. Tudo isso devidamente protegidos em uma caixa de papelão duplo. Tudo isso junto pesando um total de 32o gramas, sendo que a câmera pesa umas 200g.

Pra que tudo isso? Embalagem, concordo que é necessário, mas será que é preciso usar tantos materiais diferentes e em tanta quantidade? A webcam deve ter no máximo uns 3x5 cm, com mais um pezinho de mesma dimenções. A caixa que chegou pelo correio tinha cerca de quatro litros em volume, de ar! ... e papel! ... e plástico! .... alguns deles colados uns nos outros de forma a dificultar tremendamente sua reciclabilidade (neologísmo?).
Minha primeira reação ao perceber de que se tratava aquele caixote foi "rabujar" (definitivmente neologísmo). A primeira reação de minha mulher foi dizer que se a câmera estivesse chegado embrulhada em papel de pão eu ia reclamar a falta de uma embalagem decente. Minha segunda reação foi, depois de instala-la de forma satisfatória no alto de minha telinha de 14 polegadas, sentar no meu blog e rabujar um pouquinho mais (stress relief!).
Segundo uma fonte deveras confiável (http://www.withoutthehotair.com/) toda essa embalagem deve carregar uma energia equivalente a uns 1,6 kWh (considerando umas 100g de papel/papelão e 20 gramas de PET. Isso é equivalente a 150ml de oleo diesel, que seriam suficiente para impulsionar minha Toyota Bandeirante por mais de um quilometro! Isso sem contar com a energia que foi utilizada pra transportar essa caixa de 4 litros, por uma kombi velha do correios até a minha casa.
É, parece que mesmo adicionando uma fração de responsabilidade pela fumaça da Kombi 150 ml de combustível parece pouco, não parece? Mas para que? Para nada! Para entulhar meu escritório com mais uma caixinha de 4 litros, que tenho que guardar caso queira preservar uma remota possibilidade de, caso a webcam venha a deixar de funcionar, eu possa troca-la em garantia, pois a loja exige a embalagem de volta no caso de troca (para que? revender para o próximo mané?). Ou para ficar acumulando pó até que ela vá para meu lixo e vire estatística de aterro sanitário, pois duvido que alguém vá se dar ao trabalho de separar o plástico e o papel colados um no outro para que possam ser devidamente reciclados.
Uns vão argumentar que a embalagem é necessária para proteger o produto. Tá, mas não precisaria de tanto (3/5 do peso do produto e umas 10 vezes seu volume!). Outros vão dizer que uma embalagem grande ajuda o "consumidor" a tocar e experimentar o produto sensorialmente para se convencer de que os R$150,00 pedidos por ele são realmente válidos (nota, comprei pela internet... nem vi essa embalagem até duas semanas depois da compra!). É mais ou menos como as bonitas embalagens dos Softwares da Microsoft expostas belamente nas prateleiras brilhantes e bem iluminadas da FNAC. De que outra forma fabricantes e revendedores vão convencer "consumidores" a pagar dois mil reais em um CD? Notem que não quero discutir aqui a valorização de softwares e seus custos de desenvolvimento, apenas a forma que isso se traduz em valor para os "consumidores" na hora do "flerte consumista".
Para mim, o Rabuja, não tem argumento que justifique. É pura irresponsabilidade da espécie para com seu planeta e seus descendentes. É ignorância humana sobre os mecanísmos sistêmicos que regem a ação e reação da relação homem VS habitat.
Sugiro um exercício final: usando regra de três, transforme os 150ml de oleo diesel queimados na manufatura dos 120 g de embalagem de minha nova webcam, numa quantidade equivalente a toda embalagem que você joga fora por semana e por mês (porque hoje em dia são raros os casos de pessoas que conseguem usar uma casa - por isso quero dizer cozinhar, lavar, limpar, viver, etc. - e esvaziar seu grande saco de lixo "reciclável" apenas uma vez por semana). Quantas idas ao shoping center isso equivale?

Nota 1: o "reciclável" entre aspas é porque nós, Curitibanos em geral, apesar de precursores do SE-PA-RE sofremos de uma inacreditável ignorância generalizada sobre o que é reciclável e o que não é.
Nota 2: o "consumidor" entre aspas vem um pouco de minha relação pessoal com essa palavra horrorosa para descrever nossa "classe". Algum dia "rabujarei" especificamente sobre este assunto.

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