quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Comer comida.

No livro "Em Defesa da Comida", Michael Pollan, um impressionantemente esclarecido jornalista americano, explica porque deveríamos voltar a comer mais comida e menos nutricionismo. O princípio básico é muito simples: a evolução das espécies.
O animal humano, como todos os outros seres vivos do nosso planeta, se tornou o animal que é hoje através de um processo evolutivo que começou a milhões de anos atrás (se é que podemos dizer que houve um começo e podemos definir este começo tão precisamente). Este processo não ocorreu sozinho, nosso alimentos também evoluiram paralelamente, sejam animais ou vegetais, e de forma sistêmica e interdependente conosco. Somos vivos e saudáveis porque comemos, e o que comemos, seja lá o que for, deve nos fornecer tudo que precisamos para nos manter vivos e saudáveis.

O livro mostra que muitos de nossos problemas de saúde dito "modernos", começaram a aparecer quando começamos a nos preocupar mais com a preservação da comida que com suas qualidades naturais, ou seja, a indústria alimentícia, e paralelamente o nutricionísmo, começaram a tentar reduzir alimentos em componentes básicos que possam ser facilmente processados industrialmente e em grande escala e que tenham longevidade aparente para poder sobreviver aos longos processos logísticos que as características da indústria e da distribuição maciça exige. E o homem, como animal integrante de um sistema cuja complexidade vai muito além do que sua racionalidade limitada pode imaginar ficou para trás.
Carboidratos, lipídios, acidos gráxos, ômegas numeráveis, são tudo criações da necessidade científica de desconstruir o complexo e incompreensíveis em blocos aparentemente mais simples, para tentar entende-los individualmente e fingir que desta forma o sistema completo pode ser compreendido e transformado em livros e produtos alimentícios que se dizem bons para nós. Não me levem a mal, não quero aqui criticar os métodos científicos, o que critico é a mania que temos de fingir que entendemos de um assunto quando apenas partes milionesimais destes assuntos foram realmente compreendidas individualmente e não de forma sistêmica.
Voltando ao livro e agora citando sua contra-capa para garantir que não estou infringindo nenhuma lei de direitos autorais (entendo que contra-capas são de uso público pois têm o objetivo de vender um produto). Aí, pelo menos na edição que minha avó me emprestou o autor (ou seu editor, ou seu assessor de marketing, vá saber) resume as seguintes recomendações (as quais comento em itálico):
1. Não coma nada que sua avó não reconheceria como comida. Se não existia antes da invenção da indústria alimentícia e do nutricionismo é porque não fez parte de nosso processo evolutivo, nosso corpo, enzimas, e seja lá o que mais usamos para transformar o alimento em coisas úteis para nossas células, não conhece seus elementos ou não sabe o que fazer com a combinação de elementos apresentada.
2. Evite comidas contendo ingredientes cujos nomes você não consegue pronunciar. Cenoura, batata, carne de vaca são bons para você, niacina, mononitrato de tiamina, xarope de milho com alto teor de frutose, azodicarbonamida, diglicerídio etoxilado provavelmente não.
3. Não coma nada que não possa um dia apodrecer. Se nem bactéria e fungoconseguem identificar que o troço é comida, por que você vai comer?
4. Evite produtos alimentícios que aleguem vantagens para a saúde. Dois pontos: (1) até que ponto os nutricionistas sabem e concordam com o que faz bem e o que faz mal para a saúde dentro das quase infinitas combinações de dietas e hábitos no universo? e (2) é muito fácil perceber que o que faz bem à saúde e o que faz mal à saúde segundo a ciência depende muito de quem está patrocinando a pesquisa; até hoje o cigarro pode ser vendido livremente e sem controle! até hoje fabricantes de manteiga e margarina brigam no ibope para saber que é mais saudável.
5. Dispense os corredores centrais dos supermercados e prefira comprar nas prateleiras periféricas. Essa na verdade talvez não se aplica a qualquer mercado, mas o que o autor quer dizer é: o que o mercado prefere vender, produtos com alto "valor agregado" ou tomates?
6. Melhor ainda: compre comida em outros lugares como feias livres ou mercadinhos hortifrutis, evitando tentações, atravessadores, excesso de conservantes para garantir que os produtos suportarão a cadeia logística do distribuidor...
7. Pague mais, coma menos. Além da economia em volume, vais economizar em saúde e academias. Alimentos de qualidade são mais caros. Não tem muito o que discutir (nota: o inverso não é necessariamente verdade).
8. Coma uma variedade maior de alimentos. Antes de sermos o que somos não conhecíamos a agricultura, eramos nômades e extrativistas, evoluímos com a variedade. Manga não dá o ano inteiro, mas extranhamente podemos comprar mangas o ano inteiro nos supermercados. Existem mais de 100 raças de galinhas, mas provavelmente apenas uma é a mais produtiva industrialmente.
9. Prefira produtos provenientes de animais que pastam. Animais que pastam como oposto de animais que comem farinha de vísceras e ossos com hidrolisados de carne e dióxido de titânio, enriquecida com soja transgênica, antibióticos e hormônios... a ração.
10. Cozinhe, e se puder, plante alguns itens de seu cardápio.
11. prepare suas refeições e coma apenas à mesa.
12. Coma com ponderação, acompanhado, quando possível, e SEMPRE com prazer. Esses três últimos tem a ver com nossa relação com a comida, o ato de comer e o lado social da refeição. O Slow-Food contra o Fast-food, o fato de que tudo isso acaba sendo bobagem se a vida não for vivida com prazer. Com prazer, ma prazer sustentável. E sustentável aqui não apenas no sentido ambiental da palavra, mas no sentido que o prazer não pode estar te fazendo a longo prazo.

Bom apetite!

3 comentários:

  1. adorei, vou procurar este livro. na verdade, eu já sigo isto. só frequento feiras de orgânicos e procuro comer só coisas realmente saborosas e, de preferência, preparadas por mim mesma. esse lance das pequisas patrocinadas, tem que ser muito burro pra naao enxergar isso; mas a maioria da populaçao nao aceita essa verdade ululante. bjos nick!

    ResponderExcluir
  2. O livro em português é fácil achar. Nos links aí encima tem um para o site do autor. Lá tem um monte de links interessantes sobre o assunto, DIYs, sustentabilidade, respeito inter-espécies, etc.

    ResponderExcluir
  3. Fui eu quem deu esse livro para a Mamie. Achei super interessante , e acabei de ler um chamado " Bad Science" , de Ben Goldacre. O cara esculacha a medicina "alternativa" , a industria dos cosmeticos,a industria do nutricionismo, fala sobre o efeito placebo... Muito legal tambem. Acho que vc iria gostar. Bjs!!

    ResponderExcluir