quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Les crétins et les lapins


Aqui em Tours 245km dos 400km das vias públicas pavimentadas são ou acalmadas (velocidade limitada a 30 km/h) ou possuem faixa exclusiva para bicicletas ou são ciclovias. Não é a toa que 7% da população economicamente ativa usa a bicicleta para ir ao trabalho.

Aqui, motoristas e pedestres estão habituados com os ciclistas, o que somente aumenta a segurança nas ruas. De fato há estudos que demonstram que o aumento no número de ciclistas nas ruas de fato diminui a incidência de acidentes com bicicletas, pois uma vez que o ciclista passa a ser norma, o motorista passa a antecipar sua presença. Bicicletas deixam de "surgir do nada" como habitualmente alegam motoristas que atropelam ciclistas "acidentalmente". Aqui, via de regra, o respeito e a antecipação imperam.

Mas a estatística diz que onde tem pessoas tem idiotas.

Segunda feira eu voltava do trabalho no final da tarde, pedalando por uma via acalmada (como já disse, velocidade máxima permitida 30 km/h). Eu pedalava forte. Não sei a que velocidade estava pois normalmente não uso "fredometros", mas imagino que estava bem perto dos 30, quando um carro atrás de mim me deu umas buzinadas.

Olhei para trás e notei que a condutora berrava e gesticulava com as mão algo que não fui capaz de compreender. Não falo libras, muito menos em francês. Então mantive minha posição e segui meu ritmo até parar no próximo semáforo.

Parado no sinal, o tal veículo encosta ao meu lado, abre a janela e a senhora vocifera comigo:

- Vous avez une piste cyclable, monsieur, pourquoi ne pas utiliser la piste cyclable?


A senhora evidentemente fazia referência à faixa pintada na calçada com desenhos de bicicletas que acompanha aquele trecho de via, e me perguntava nervosamente porque absurdo eu não a estava utilizando aquele privilégio urbanístico de primeiro mundo, mas meio que querendo dizer "ponha-se no seu lugar e saia da minha frente!".

É precisamente nesses momentos que eu odeio minha falta de fluência no dialeto humano local. Meu cérebro pensou clara e pausadamente "Vous avez une route parallèle, madame! pourquoi n'utilisez-vous pas la route parallèle?", mas de minha boca apenas saiu:

- Vous avez une route parallèle, madame! pourquoi tu num vá pá putaquetepariu?

O sinal abriu antes que a senhora pudesse tentar fazer senso do que eu disse e mais que rápido a cretina saiu acelerando para evitar de ter que andar a 30 km/h atras de uma bicicleta e andar a 30 km/h na frente de uma bicicleta.

Não me levem a mal. Eu normalmente uso as ciclovias e ciclo-faixas disponíveis, inclusive aquelas presentes naquele trecho em específico, mas existem situações quando eu prefiro andar na rua mesmo! No caso do trecho em questão, trata-se de uma ciclo faixa sobre a calçada, o que quer dizer que além de ter que negociar o espaço com pedestres, carrinhos de bebê, árvores e bueiros, é preciso também parar em cada cruzamento e negociar as guias dos meio-fios, que são rebaixadas suficientes para uma mountain-bike, mas não o suficiente para meus pneuzinhos de hipster. Tudo bem se você está passeando domingo com as crianças, mas quando você quer andar rápido é impraticável e perigoso. Na rua tenho a preferencial e vou na velocidade dos carros. É melhor para todos!

Não há uma lei que me obrigue a usar uma ciclo-faixa dentro de uma área calma, quer dizer que eu tenho o privilégio de escolher onde andar da mesma forma que os motoristas podem escolher dar a volta na área calma e exercer seu direito de acelerar suas caixas de aço a velocidades sobre-humanas longe dali (o que na verdade é também um privilégio).

Não sei se o problema é nossa cultura do automóvel, que induz algumas pessoas a acreditarem que seus bens privados de quatro rodas possuem mais direito ao espaço público que um cidadão em duas rodas, ou se é a probabilidade estatística do cretino, inevitável e, ao que tudo indica, em ascensão, mas tem dias que mesmo na minha pequena cidade ciclo-amigável é difícil de manter o otimismo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Dia D - Também quero falar do aniversariante!

 
Ontem foi o "dia D", aniversário de Charles Darwin, e tanto meu CaraLivro, quanto meu Piador, quanto meu feed de leitura do Blogger foram abarrotados de textos, memes e matérias sobre nosso finado herói. Tudo tão inspirador que não resisti dedicar parte de meu pouco precioso tempo para compartilhar alguns pensamentos e historietas a respeito.

No ano passado, quando fomos visitar a "Cité de Sciences et de l'Insdustrie" em Paris - meio que um museu de ciências mesmo - estávamos na entrada do museu, discutindo entre todos quais exposições cada um gostaria de ver, quando eu pulei à frente e disse - "EU QUERO VER A DO DARWIN!" (Darwin l'Original era o nome).

Nessa hora o Martin me pergunta: "Quem é Darwin?", e eu respondo rapidamente, dramatizando como apenas um pai nerd-super-excitado frente a uma visita a um museu é capaz de dramatizar:
- Darwin foi o cara que respondeu à pergunta mais importante do universo: "Qual o sentido da vida?"

Exagero? Talvez. Mas se pensarmos bem, Charles Darwin, com seu livro "Sobre a Origem das Espécies por Meio de Seleção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida" (sim, descobri hoje que este foi o nome completo do livro hoje conhecido como "A Origem das Especies") nos apresentou a primeira explicação sólida e plausível com respeito às origens de toda a variedade de vida na terra. Por sólida e plausível quero dizer: amplamente apoiada em evidências e re-confirmada por ainda mais evidências que foram surgiram mais tarde. Darwin publicou "A Origem" quarenta anos antes de que as pesquisas de Mendel sobre hereditariedade fossem descobertas, antes de surgirem as teorias de placas tectônicas e flutuação continental, antes da descoberta da genética e quase um século antes da Embriologia. E tem mais, Darwin coletou e estudou fósseis, mas até 1859, quando finalmente "A Origem" foi publicado, nenhum fóssil "humano" havia sido estudado.

Sim, algumas pequenas correções a ideias e proposições periféricas foram feitas, mas Darwin acertou em cheio no princípio fundamental: (1) a luta pela sobrevivência, (2) a diferenças entre indivíduos fazendo que alguns sejam mais aptos a sobreviver às pressões do meio que outros (e por isso a gerar mais descendentes) e (3) a transferência dessas diferenças à próxima geração, tudo isso ocorrendo ao longo de muitas gerações.

De tudo o que eu li ontem nas celebrações do "Darwin Day 2017" (leia-se blogs, links e posts sobre Darwin do dia de ontem) foi o detalhe sobre como alguns de seus manuscritos do "A Origem" sobreviveram ao tempo. Parece que apesar de Darwin ser extremamente rigoroso ao preservar suas amplas trocas de correspondências com amigos e outros cientistas (conhecidamente Wallace), ele não ligava muito para a preservação de seus manuscritos. Uma vez que o manuscrito foi impresso pelo seu editor, sua maior parte foi provavelmente destruída, sobrando apenas umas 45 páginas (das mais de 600 originais), mas muitas delas contendo desenhos e rabiscos seus e de seus filhos.

A página mais famosa é a onde Darwin rabisca a primeira árvore da vida "não Lamarckiana" (a que vem do conceito original e errôneo de Lamarck publicada coincidentemente no ano em que Darwin nascia, 1809) explicando a especiação e a extinção de espécies e suas relações com espécies ainda existentes.



Mas que eu mais gostei de ver é a batalha entre a berinjela e a cenoura, assinada por um de seus filhos (FD - Francis Darwin), que nos lembra que até os mais conceituados cientistas correm sempre o risco de terem sua lição de casa comida pelo cachorro ou destruída por um amado filho.



Voltando à porta da "Cité de Sciences", quando dei ao meu Martin minha resposta super-excitada com relação a Darwin e o "Sentido da Vida", lembro que minha mãe imediatamente retrucou: "Respondeu mais ou menos, né?"

Nessa eu soltei um de minhas frases-feitas: "Não é porque muita gente não gostou da resposta que a resposta não seja correta!".

Qual o sentido da vida? Sobreviver e copiar nossos genes.

Confesso que também considero a resposta muito mais frustante que inspiradora, mas é o que há! Se você quiser mais, invente teu sentido para a tua vida! Mas entenda que será só teu e de ninguém mais. E seja lá o que ele for, a realidade não vai te apoiar!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

R$4,25 está caro? - Primeira parte


O assunto agora, pelo jeito, é o aumento de preço das passagens de ônibus em Curitiba.

Desde que me conheço por gente, curitibanos se orgulham de ter o melhor sistema de tranporte público do país, mesmo sem muito utilizá-lo, mas não aceitam que o melhor normalmente custa um pouco mais caro.

Calma! Ainda não estou defendendo ou atacando ninguém, por enquanto estou apenas provocando.

Se o sistema de transporte curitibano é o melhor do país ou não eu não sei, mas me dói um pouco o peito imaginar que o melhor seja tão feio, sujo e desconfortável. Pegue as ruas esburacadas, lombadas por tudo, trânsito caótico e nervoso, poupação mal educada a some aos grandes monstros metálicos munidos de velhos motores movidos a um óleo diesel ultrapassado, fica realmente difícil de imaginar um resultado diferente.

A última vez que tentei usar o transporte público de uma maneira sistemática foi em 2009 ou 2010, quando tentei ir trabalhar de ônibus e não consegui sair do terminal da Barreirinha. De minha casa ao terminal poderia ter pego um alimentador, mas resolvi caminhar pois não chovia muito e no fundo a diferença de tempo seria pequena. Do terminal da Barreirinha tinha que pegar o "ligeirinho Tamandaré-Cabral" e no terminal do Cabral trocar para o "Inter2" que me deixaria literalmente na "China", o ponto a uma distância "caminhável" da fábrica onde trabalhava. Chegando no terminal da Barreirinha abri caminho em meio à multidão para chegar na fila do ligeirinho e desisti depois do terceiro ônibus passar e a fila avançar apenas um par de metros pois o ligeirinho já chegava cheio. Calculei que precisariam mais quatro ou cinco ônibus para conseguir entrar em um deles, saí e peguei um taxi.

Imagino que a coisa tenha mudado nos últimos 7 a 8 anos, mas não sei se para melhor ou pior. Imagino também que nem toda linha seja assim e que não sejam assim todo o tempo, fato é que a linha que eu precisava no horario quando eu precisava, não me serviu. Pelo que eu leio a respeito, de lá para cá a rede de transporte teve preços congelados, desintegrou-se com a zona metropolitana, reintegrou-se à zona metropolitana e os ônibus não foram devidamente renovados. E agora, a cereja no bolo, é a nova tarifa de R$4,25.

Se R$4,25 é caro ou barato eu não sei. Aqui em Tours uma passagem integrada (que permite a troca de ônibus/tram) custa 1,50 euros, com a diferença que se você pretende usar somente um ônibus/tram, você pode comprar uma passagem mais barata por 1,30 euros. Mas vamos lá, 1,50 euros são aproximadamente 5 reais, ou seja 18% mais caro que em Curitiba.

Mas porque será que aqui é mais caro?

Começamos com o diesel. Um litro de diesel, hoje, em Curitiba está custando cerca de 2,8 Reais (84 centavos de euro) aqui custa 1,1 Euro, ou seja, o Diesel aqui é 30% mais caro.

Continuamos pelos salários, o salário mínimo anual no Brasil, para 40 horas semanais de trabalho está em 3.660 dolares, na França em 20.071 dolares (fonte wikipedia), para 35 horas semanais. Ou seja, de uma maneira simplista, a mão de obra humana aqui custa mais de 5 vezes mais que no Brasil.

Nossos conhecidos articulados curitibanos


Continuemos com os veículos. No Brasil vocês sabem o que temos. A grande e velha tecnologia dos ônibus. Aqui temos pequenos ônibus elétricos cisrulando no centro, grandes ônibus "low-ride" pela cidade e um bonde super-moderno fazendo o eixo principal norte-sul.

Novo Tram, ou bonde, de Tours
Simpáticos elétricos que rodam pelo centro


Levando em conta outros números (fonte web site da URBS e do equivalente francês Filbleu), uma vez que a população, o número de usuários e as distâncias percorridas não são equivalentes, podemos chegar a um valor comparativo de faturamento por quilômetro:
- Passageiros/viagens por dia: 1.6 milhoes em Curitiba contra 93 mil em Tours.
- Quilometros percorridos por dia: 320 mil em Curitiba contra 28 mil em Tours.

FATURAMENTO POR QUILOMETRO = [Preço de uma viagem] X [número de viagens por dia] / [distância percorrida por dia]


Fazendo uma média bastante simplificada, mas que deve ter um significado real, esses numeros querem dizer que enquanto em Curitiba um ônibus fatura R$21,25 por quilômetro rodado, aqui em tours, um onibus fatura apenas R$16,60. Ou seja que aqui em Tours veículos melhores, mais limpos, modernos e confortáveis, com motorístas mais bem pagos (5x) e diesel mais caro (30%), faturam por quilometro rodado 20% menos.

Uma boa indicação de que ou tem alguma coisa errada com as minhas contas, ou que tem alguma coisa errada com a administração pública de Curitiba.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Coordenadas Politicas VI - Reabilitar Criminosos é mais importante que puni-los?



Começo desqualificando um pouco a pergunta pois, no fundo, punição não deixa de ser uma possível forma de reabilitação, mas claro, não é a única. Mas vamos deixar este ponto de lado por hora para  discutir o assunto sob uma ótica diferente.

Primeiro ponto que preciso esclarecer é a noção de "livre arbítrio". Apesar da ciência ainda não estar perto de uma compreensão completa de nosso cérebro, o pouco que já sabemos nos campos da física, química, bioquímica, biologia e neurociência nos permite afirmar que o livre arbítrio, no sentido realmente pleno do termo, não passa de uma ilusão. Seja como for que o nosso cérebro nos ajuda a tomar algumas decisões, ele o faz dentro de um universo operado por leis fundamentais, conhecidas ou ainda misteriosas, mas que determinam seu funcionamento. Isso quer dizer que tudo o que ocorre neste preciso momento dentro de nossa cabeça depende de interações físico-químicas determinadas que seguem essas regras fundamentais. Como não detemos o controle sobre estas regras, não podemos muda-las, dirtorce-las nem as desrespeitar, não podemos realmente controlar o que ocorre em nossas cabeças. Tudo o que existe no universo conhecido segue um mesmo conjunto de "leis", inclusive o nosso cérebro. Em suma, rebobine todo o universo, suas partículas, suas posições no espaço e condições energéticas para qualquer momento do passado, e tudo ocorreria exatamente da mesma maneira, inclusive todas as decisões humanas. Em filosofia, chamamos esta maneira de compreender o universo, de determinismo.

De um ponto de vista determinista, qualquer decisão que você tome hoje depende de quem você é hoje e de todas as variáveis que possam te influenciar no processos de decisão. Mas o que você é hoje depende de quem você era ontem e de todas as variáveis que influenciaram nas decisões tomadas de ontem para hoje. Siga esta lógica voltando no tempo e logo verás que ela te levará além do momento a partir do qual você passou a existir, ou seja, quando o você realmente não existia. Não existindo o você "zero", o você de hoje passa a ser nada mais nada menos que a soma de todas as variáveis que te influenciaram ao longo de sua vida, variaveis essas, completamente fora de teu controle. Esta é uma realidade difícil de aceitar, eu sei, porque temos realmente a sensação de estarmos no controle de nossos atos (fora excessões como o ato de comer chocolate assistindo TV), mas convenhamos, esta não é a única ilusão que sofremos no nosso senso comum. Nossa sensação de que a terra é plana, que o sol gira ao redor da terra, de que a emoção vem do coração, de que a matéria é sólida, de que realmente tocamos objetos, são exemplos de ilusões hoje reconhecidas como ilisões pela maioria (sera?)

Voltando agora à questão de justiça, da punição e reabilitação de criminosos, mas agora sob uma ótica determinista, vemos que ninguém pode ser culpado por seus erros nem receber méritos por seus acertos, uma vez que ninguém realmente detém o controle dos acontecimentos. Mas calma, isso também não quer dizer que, por isso, devemos deixar o mundo queimar no caos da impunidade, isso apenas muda a maneira de ver as coisas para uma maneira mais positiva e mais prática.

Uma vez que aceitamos a ausência de um agente real e moral por traz de uma ação, removemos da equação da justiça qualquer fator pessoal, ou seja, deixamos de punir ou repreender com intuito vingativo e passamos a ver a punição como uma ferramenta de construção social: de fazer do mundo um lugar melhor.

Por favor não confundam meu discurso determinista com o discurso vitimista. O discurso vitimista se apega à falsa suposição de que a sociedade é o agente, ou que o acaso é o agente, substituindo o sentimento de vingança por um sentimento de pena, que também não ajuda em nada. Uma pessoa que comete um crime (que desobedece uma regra social) e deseja permanecer no jogo social, precisa ser tratada como um problema a ser resolvido para que a sociedade possa se sustentar. Pode ser que a correção não seja imediata, pode ser que a correção seja impossível ou inviável, e nestes casos, a sociedade precisa ser sim protegida do dito criminoso, indefinidamente ou durante o período correcional.

Muitos mecanismos podem ser utilizados para proteger a sociedade durante o período correcional.

O criminoso poderia ser removido da sociedade para tratamento (sentença temporal) , ou na falta de um tratamento viável ou conhecido, permanentemente (prisão perpétua ou pena de morte). Mas dependendo do crime, a remoção da sociedade pode não ser necessária. Conheço gente perfeitamente normal que é incapaz de se comportar adequadamente quando dirige um automóvel! Tenho certeza que muitos de nossos políticos corruptos, se comportariam de uma forma perfeitamente aceitável se não tivessem acesso ao poder. Em casos como estes, a remoção do direito de conduzir, ou dos direitos políticos, poderiam ser soluções suficientes.  Existem também as penas educativas (multas, castigos) que podem ser muito eficazes na correção de contraventores! Quem aqui nunca fez birra, mas depois de passar duas horas de castigo na cama, percebeu que a birra não é a melhor ferramenta de negociação com os pais? Tem ainda a punição que tem o objetivo de corrigir ou mitigar os efeitos de uma contravenção: devolução de bens usurpados, pagamento de indenização a vítimas, etc. Há que se levar em consideração também o fator coercivo das penas. Pelo medo da punição, deixamos de fazer o que é errado. Enfim, a psicologia moderna nos oferece inúmeras alternativas, a justiça tem apenas que ser criativa e pragmática!

O problema é que tudo isso se transforma em idealismo quando a mecânica da administração pública não funciona. Tenho certeza que nosso código penal se baseia em princípios muitas vezes históricos, não científicos, ultrapassados, mas também em principios que funcionam. Não sou especialista nem sequer conhecedor do código penal. Em todo caso o que vemos no Brasil é uma grande incapacidade de aplicar nossos códigos existentes, da constituição federal a regimentos internos escolares, passando, certamente, pelo código penal.

As vezes tenho a impressão que toda essa discussão política é fomentada para nos animar a ignorar os problemas de fundo, nos animar a discutir o sexo dos anjos enquanto o mundo real segue girando como sempre. As vezes fico pensando se não deveríamos suspender por uns quatro ou cinco anos, dar férias (não remuneradas) a todo nosso legislativo, e dedicar nossa atenção e orçamento (20 bilhões de reais por ano!) para aprender a simplesmente seguir a as regras e leis existentes.

Que tal, primeiro aprendermos a jogar bola, para depois voltarmos a discutir e melhorar as regras?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Coordenadas Políticas V - É legítimo que as nações privilegiem suas próprias religiões em detrimento de outras?


Legítimo, em alguns países, pode até ser, mas mas não consigo imaginar algo de bom nisso. No Brasil, acredito ser até inconstitucional.

Se estamos falando de política não deveríamos estar falando de religião. Em um estado laico e livre, a única obrigação religiosa de um político, governante, legislador, juiz, é garantir que sua religião não terá nenhuma influência em seu trabalho e em suas decisões, garantindo assim que o estado continue laico e livre. O governo existe para gerenciar um pais, não para guiar uma cultura.

Estado e religião se misturam por muitíssimo tempo e a única coisa boa que saiu dessa mistura foram inúmeros excelentes péssimos exemplos de como governar um país. É claro que não podemos ignorar os traços culturais (positivos e negativos) deixados pelas diferentes religiões ao longo dos anos e milênios, mas muitos fatos históricos importantes precisam ser deixados como fatos históricos. Sim, a história de Abrão, Noé, Buda, Cristo, Joseph Smith, Maomé ajudaram, de uma forma ou de outra a nos definir culturalmente, mas não é por isso que precisamos te-los como exemplos ou referências ainda hoje. O holocausto, a inquisição, o imperialísmo, o escravagismo, a revolução socialista também moldaram nossa sociedade e foram devidamente engavetados para o bem da humanidade.

Eu, sinceramente não vejo o Brasil sendo de nenhuma maneira ameaçado por uma religião proveniente de outra nação. O problema do Brasil, neste sentido, vem de dentro mesmo.


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Coordenadas Politicas IV - Casais homosexuais deveriam ter os mesmos direitos que casais heterosesuais, inclusive o direito à adoção?

Mais um tema que mexe com convicções inconscientes e irracionais.

A cultura ocidental tem, por influência da igreja católica imagino, uma obsessão anormal por tabus sexuais. Pode que outras culturas também tenham suas obsessões, não posso dizer, mas a ode à virgindade, castidade e pureza, principalmente de um ponto de vista masculino (ou seja, da mulher), é particularmente e estranhamente forte em nossa cultura. Pessoas são sistematicamente julgadas por suas preferências e comportamento sexual e, raramente, de uma maneira ou com um propósito positivo. Sexo denigre, assim como sua ausência.

Realmente não consigo entender a relação que as pessoas vêm entre comportamento sexual e afetivo de uma pessoa e seus direitos como pessoa. Eu entendo que o casamento foi por muitíssimo tempo uma instituição dominada pela igreja, e que por muitíssimo tempo todos os direitos associados a um casamento dependia de sua validade perante a instituição religiosa dominante. Mas isso acabou! É passado! O casamento e suas consequências legais são hoje do domínio da lei civil, que não deveria ter nenhum objetivo especifico em ser conforme às vontades de homens de vestidos e chapéus estranhos que nunca tiveram uma relação afetiva completa (pelo menos oficialmente, legalmente, ou no mundo real). Para deixar claro como a ideia é estúpida e ignorante, é como se alguém dissesse que  socialistas não podem dirigir, que corintianos não podem ter direito a décimo terceiro ou que vegetarianos não podem votar.

Nossa evolução social é marcada pela luta entre dominadores e excluídos. Primeiro veio a luta de classes, logo a dos sexos e das etnias. Muitas batalhas foram vencidas em nome da inclusão social mas em todos estes campos ainda restam cicatrizes de guerras que precisam ser resolvidas. A batalha legal é agora em torno de preferências afetivas, e a historia me diz que ela também sera vencida.

Mas a pergunta do teste focaliza, em especial, ao direito à adoção.

A preocupação com a adoção e, por consequência, pela educação infantil, é válida, mas não deixa de ser preconceituosa. Todas as pessoas com quem eu já conversei sobre este assunto específico, são contra esta ideia por medo que o comportamento afetivo dos pais tenham uma influência negativa na criança, seja causa de traumas ou qualquer coisa do tipo. A verdade é que uma criança precisa de um ambiente saudável, de pais responsáveis e carinhosos, capazes de educar e de serem educados. Instabilidade emocional, violência doméstica, influências ideológicas não são características exclusivas de casais homossexuais. Há que tenha evidências do contrário! Eu, sinceramente tenho mais receio de uma criança educada por um "machão" que por uma "bicha".

Adoção é uma coisa boa e todo caso de adoção deve ser avaliado caso a caso. Existirão casos de homossexuais que terão seus processos de adoção negados? Obvio que sim, como existem casos de recusa em casais heterossexuais. Mas a lei não deve tomar decisões "a priori".

Fecho com uma frase que já usei muitas vezes quando discussões como estas se esquentaram:

- Não me importa ter um filho ou filha "bicha", importante é que não sejam "filhadaputa".

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Coordenadas Politicas III - Suicidio Clinicamente Assistido


A terceira pergunta do teste das coordenadas politicas é se suicídio clinicamente assistido deveria ser legal.

Porque será que não temos o direito de tirar nossa própria vida? Bem, acho que esse direito, na realidade, nós o temos, desde que não precisemos de ajuda para isso. Ou seja, uma pessoas fisicamente apta, pode se matar, uma pessoa inapta, não pode. Parece justo? Posso, sempre que quiser, me atirar do alto de um viaduto e sofrer uma morte dolorosa, que oferece perigo aos demais e faz a maior sujeira, mas não posso escolher morrer na tranquilidade de uma clínica, dopado, sem dor, e sem incomodar a ninguém. Interessante.

Existe todo tipo de argumentação contra e a favor da assistência clinica ao suicídio e à eutanásia (que não são sinônimos). Na argumentação entra muitas vezes o custo social de se perder indivíduos, o custo de mante-los vivos, sofrimento de pacientes terminais, sofrimento da família e para alguns, sobra até para deuses e seus dogmas. Eu tenho a impressão de que a maioria de defensores ou atacantes desta ideia, por mais que tentem justificar suas posições, na realidade se apegam a suas ideias e convicções fundamentais. Uns acham que sim e ponto, outros acham que não e ponto, e logo buscam os mais diversos argumentos para justificar seus pontos de vista, até que os argumentos se esgotam e acabam se calçando a um ser supremo e imaginário que apoia a falta de argumentos de toda a humanidade.

Eu, que não disponho de tal apoio, preciso chegar a uma conclusão de alguma outra maneira, mas como toda verdade não universal se baseia em uma convicção, parto também de uma. Minha convicção particular é o respeito à liberdade e ao bem estar. É o que quero para mim, e o que acredito ser bom para todos. Partindo desta convicção, a resposta à pergunta passa a ser clara e fácil, o que não significa que o problema estaria resolvido.

Se prevalece a liberdade e o bem estar, quer dizer que qualquer individuo psicologicamente saudável, deveria ter a liberdade de decidir o seu destino (difícil é definir o que é um individuo psicologicamente saudável hoje em dia) e na pratica, alguns poucos países já encontraram soluções legais na defesa de mais essa liberdade. Via de regra, a solução se apoia no estabelecimento de critérios claros, avaliações caso a caso por bancas especificas e, muitas vezes, envolvimento de tribunais de justiça especializados, afinal tão importante quanto garantir a liberdade individual é garantir que indivíduos vulneráveis não terão sua sorte usurpada por indivíduos com interesses pessoais.

No final, esta é mais uma discussão entre duas vertentes da filosofia ética que são em muitos ponto conflitantes: consequencialismo e deontologia. De uma forma geral, a primeira determina que o certo ou errado depende das consequências de uma ação, enquanto a segunda, define que certas ações são certas ou erradas de acordo com regras pré-definidas. Na pratica, vejo que a maioria de nós navega livremente entre os dois casos, ou seja, acreditamos que matar é errado, mas aceitamos que existem situações em que matar é a melhor ação a ser tomada. Não preciso dar exemplos específicos, mas exemplos genéricos começam com ações diretas como auto-defesa, guerras, conflitos armados e decisões médicas, e terminam em ações indiretas e seus efeitos colaterais, como a recusa a ajuda ou caridade, individualismo, meritocracia, etc.

Eu acho que já passou a hora de começarmos a legislar de acordo com uma moral mais cientifica. As diversas disciplinas de nossas ciências ainda têm muito a desvendar nesse universo, mas não podemos mais ignorar o que já se conhece com respeito à realidade. Isso vale para todo tipo de lei. Aqui, acabamos de discutir um pouco sobre o suicídio assistido, onde uma legislação inteligente poderia evitar sofrimento desnecessário. Mas acredito que a aplicação uma ética mais consequencialista e cientifico a outros assuntos, como matriz energética, infraestrutura, alimentação, etc. é o melhor que se pode fazer para garantir um futuro melhor para todos, afinal, o que é o futuro se não consequência de nossos atos presentes?