sexta-feira, 7 de abril de 2017

Mais uma infâmia dos chapéus de poliestireno...

Boris..

Nada contra capacetes, muito pelo contrario! Tenho quatro em casa, um de cada tipo para cada ocasião. Tenho uma touca/capacete para o inverno, um capacete com viseira para os dias de chuva, um capacete fechado tipo BMX e um bem ventilado e leve para os dias mais quentes. E muitas vezes ando sem capacete mesmo. Passear no parque com as crianças ou andar calmamente pelo centro da cidade, são atividades que, na minha opinião dispensam grandes proteções.

Como mencionei no post anterior, falando da morte incidental de Mike Hall, atropelado por um carro durante uma prova ciclística, um chapéu de plastico dificilmente vai salvar tua vida quando um carro te atropelar por trás em alta velocidade. Mas por alguma razão, algumas pessoas acreditam tanto no poder magico que poliestireno-expandido exerce sobre a vida de um ciclista,que exigem o uso de capacete por ciclistas mesmo quando não estiverem andando de bicicleta (como se uma pessoa sem bicicleta pudesse ser considerada um ciclista!).

Como também disse no post anterior, a primeira pergunta que aparece quando um ciclista se acidenta é se ele estava usando capacete. O ápice deste comportamento insano pode ser demonstrado pelo tweet abaixo. Lance Armstron, famoso "infamoso" ciclista americano, prestando condolências a um outro colega ciclista Steve Tilford falecido esta semana, recebe como resposta a frase "USEM CAPACETE":


Steve Tilford morreu em um acidente de automóvel. O carro que ele conduzia bateu em uma carreta atravessada na pista, e logo, já fora do carro, foi atropelado por outro caminhão que também não viu a carreta a tempo. O motorista do caminhão também veio a falecer pelos ferimentos decorridos do incidente. Mas Tilford era um ciclista, então ele deveria estar usando um capacete!

Eu insisto, bicicletas são apenas marginalmente mais perigosas do que sapatos! O que realmente causa mortes no trânsito são automóveis! Se o mundo fosse um pouquinho mais sensato, as campanhas pelo capacete seriam assim:

1/2 (metade) dos ferimento graves na cabeça acontecem DENTRO dos automóveis. Se dirigir, use capacetes!
Note que a bicicleta da campanha não tem freios, o que deveria ser a primeira preocupação sensata, não a falta de um chapéu!

Alguns cartoons divertidos (prós e contras) que encontrei pela web...







... somente uma coisa a dizer com respeito a bicicletas: USEM "PACACETE"!

 Be safe!

sexta-feira, 31 de março de 2017

Na maioria das vezes acidentes não acontecem, são causados.

- Ele estava usando capacete? - vão perguntar os mais cretinos tentando culpar o ciclista por sua própria morte. Não sei, provavelmente sim, não faz diferença. Afinal, quantos aqui realmente acreditam que usar um chapéu de plastico faz alguma diferença quando um automóvel em alta velocidade atinge o ciclista por trás? Eu, particularmente acho que uma folha de papel alumínio talvez ajude melhor, pelo menos ajudaria a blindar o cérebro do ciclista contra as ondas eletromagnéticas que saem dos celulares dos motoristas, que insistem em usa-los enquanto dirigem.


Mike Hall morreu esta manhã, atropelado por um automóvel, durante um dos últimos estágios da corrida "Indian Pacific Wheel", uma corrida por mais de 5.000 km cruzando o continente Australiano de costa a costa.



Irônico é ver que o cara andava reclamando exatamente do fato dos Australianos não terem o habito de ultrapassar ciclistas com segurança. Vejam seus 'tuits' desta semana:




Talvez falte uma plaquinha mais para nossos amigos australianos:


Sad!

terça-feira, 7 de março de 2017

SNATCH e a bicicleta laranja


Roubaram a bicicleta do Martin no estacionamento do super-mercado. Não, o idiota aqui não havia trancado a bicicleta. Tínhamos saído de manhã para comprar uma broca na Leroy-Merlin, eu e a Nina na bicicleta da Lu (que tem cadeirinha) e o Martin com sua BMX. Na volta passamos no super-mercado para comprar um saco de aveia para empanar frango para o cardíaco que vos escreve, de onde voltamos a pé, bem, eu empurrando a bicicleta da Lu com a Nina na cadeirinha e o Martin sem bicicleta nenhuma e com cara de bunda.

Saindo de casa nem pensei em levar um cadeado. A bicicleta da Lu é uma super holandesa com câmbio de sete velocidades no cubo da roda, cestinha alemã e selim gourmet inglês. Vale o dobro do que vale a minha (e tem cinco vezes mais peças), mas tem também um cadeado embutido. A BMX do Martin é de procedência desconhecida. Estava jogada no jardim da casa que alugamos em Barcelona, vi nela potencial para uma reforma para quando o Martin tivesse tamanho, e a trouxe para a França na mudança. Aqui a reformei faz um par de anos, mas por reforma entende-se, desmontar, limpar, pintar, trocar o selim, câmaras e as manoplas, e montar de novo. O maior investimento foram os 8 euros da lata de tinta laranja. Ficou massa, mas não vale muito, não muito dinheiro, mas nessas horas dinheiro não compra honra. Fiquei PUTO! Puto com o idiota que rouba a BMX de uma criança e puto com o idiota que saiu de casa sem um cadeado de bicicletas naquela manhã. E não foi por falta de cadeados! Tenho pelo menos três!

Voltei pra casa fumegando... e pensando.

Roubo de bicicleta é um esporte mundial. O que faz da bicicleta o meio de transporte urbano ideal, o fato delas serem leves, rápidas e dispensarem burocracia como licenças e registros, faz também que bicicletas sejam ideais para serem roubadas. Nunca vi estatísticas a respeito (UAU!) mas por estar no meio chuto que bicicletas sejam roubadas pelos seguintes motivos:

O Estudante

Sem dinheiro e sem escrúpulos o estudante precisa de um meio de transporte urbano leve, rápido e sem registro para ir de seu muquifo à universidade, da universidade ao café, do café ao bar, do bar ao muquifo. Esse tipo de meliante tende a roubar bicicletas urbanas típicas e dificilmente identificáveis, aqui na França as velhas Gazeles, Motobecanes ou Peugeots que decoram todos os postes dos centros urbanos, ou as novas Btwins, que pouco a pouco vão substituindo as marcas mais clássicas (e mais bonitas). No Brasil seria uma entre as muitas marcas a venda no Carrefour e que já deixaram de existir depois que descobriram fraudes fiscais e fecharam suas fábricas CKDs, mas que pouco a pouco vão sendo também substituídas pelas Btwins. Bicicletas pouco personalizadas e de produção seriada são virtualmente impossíveis de serem recuperadas uma vez roubadas pois é impossível comprovar que ela é ou foi sua. Em contra partida, o estudante que usa uma bicicleta roubada dificilmente vai trancar sua bicicleta, o que abre caminho para um programa extra-oficial de "bike-sharing" universitário. Ah! os tempos universitários, quando as bicicletas - e parceiros(as) - eram de todos e de ninguém!

O Picareta

Não necessariamente sem dinheiro, mas certamente sem escrúpulos, o picareta rouba bicicletas para canibalizar suas peças. Além de leves, rápidas e sem registro, bicicletas têm também a vantagem se serem relativamente baratas e usarem peças relativamente baratas, e por isso existe um enorme mercado de up-grade/personalização/gourmetização de bicicletas, focando em acessórios, selins, peças de carbono, etc. Note que quando digo barato não estou comparando com o segundo melhor meio de transporte urbano, o sapato, comparo com o sexto melhor, o automóvel. Se você passa muito tempo em seu automóvel e por isso resolve trocar seus bancos por bancos melhores, recobertos por couro inglês, gravados e moldados a mão sobre uma estrutura de aço cromo-molibdênio ao mesmo tempo leve e resistente, você provavelmente vai ter que vender seu automóvel para dar entrada nos novos bancos. Com uma bicicleta você simplesmente vai na internet e compra um selim da Brooks por cenzão e resolvida a questão. O problema é que a partir daí você nunca mais vai poder estacionar sua bike no centro sem correr o risco de voltar para casa com uma solução dolorosamente menos anatômica que um selim, justamente por causa do bike-picareta. Poucos bike-picaretas roubam bicicletas para vender pois bicicletas que têm algum valor no mercado de usados são também relativamente raras de serem encontrar no mercado de usados, e o bike-picareta sabe que se tentar vender uma Cinelli ou uma Vitus no eBay, o primeiro comprador interessado será o antigo proprietário que vai certamente buscar a bicicleta com um carro de polícia.

O Cigano

Assim como a vida não é filme, o cigano não é aquele homem com um olhar misterioso, cabelos brilhantes e postura imponente, que sapateia ao som de guitarras flamencas rodeado por mulheres voluptuosamente sexies. Se a vida fosse filme, seria provavelmente o filme Snatch(2000), mas trocando o Brad Pitt pelo Matheus Nachtergaele.



A relação entre o cigano e o roubo de bicicletas pode ser entendida se entendermos a relação entre os ciganos e os bens materiais em geral. O bom cigano não tem vínculos afetivos com nada que não seja de ouro ou da família (o cachorro sendo claramente classificado como família). Tal característica é facilmente comprovada quando se vê o que resta de seus acampamentos quando eles resolvem partir (quando são expulsos de onde estão): móveis quebrados, colchões mijados, carros incendiados e esqueletos de bicicletas são itens comuns a serem deixados para trás. Materialismo 0 x Praticidade 10. Tendo isso em conta, imagino que ao contrário dos outros meliantes anteriormente descritos (o estudante e o picareta) o cigano não sofre de falta de escrúpulos, ele apenas não consegue entender a relação doentia de amor e ódio que nós, cidadão conformes, temos com nossos objetos. Como é que somos capazes de amar nossos iPhone3 um dia, e o odiarmos no outro, a ponto de troca-lo por um iPhone4, ou 3GS? Não é falta de escrúpulos, é incompatibilidade de valores. Cigano vê bicicleta, cigano pega bicicleta. Cigano não quer bicicleta, cigano larga bicicleta. E zuzubem!

Ao chegar em casa, depois de muito pensar sobre o roubo da BMX, eu já tinha o crime esclarecido em minha cabeça. Estudante não foi pois além de eu morar longe do centro (seu habitat preferido) eu não acredito que a BMX laranja seja a escolha mais adaptada às suas necessidades. Além de pequena e desconfortável, chama muita atenção. Picareta, dificilmente! O banco da bicicleta da Lu que estava estacionada ao lado da BMX vale quatro vezes a BMX, e nem sequer tentaram mover a bike da Lu. Fora o quadro recém pintado de um facilmente reconhecível laranja fosco, todas as peças da bike do Martin estão ou amassadas ou riscadas ou enferrujeadas, coisa que para uma BMX só aumenta status, mas para um picareta não agrega nenhum valor.

Só podia ter sido um cigano!

O cigano é uma instituição, estão por toda parte, são in desejados e inevitáveis, mas estão por aqui faz tanto tempo que já são parte da paisagem. Não são um fenômeno Francês, são um fenômeno Europeu. Não sei como o resto da Europa trada deste "problema" mas os Franceses tratam da mesma maneira que tratam todos os outros problemas, assim:

Cada cidade com mais de 5000 habitantes tem, por lei, uma área para receber o que eles chamam de "população itinerante". A lei foi claramente criada com os trabalhadores itinerantes em mente, gente que trabalha em demandas sazonais como colheitas manuais ou grandes projetos de construção civil mas, na prática, essa gente acaba pagando por campings para ficar longe dos ciganos que, normalmente, transformam estas áreas em terra de ninguém (e de todos, como uma república estudantil). Assim sendo, para evitar problemas com a população (que não gosta dos ciganos) e com a lei (que não gosta de ciganos), as cidades criam estas zonas em locais de acesso restrito, fora da vista de seus cidadãos. Coincidentemente ou não, tem uma zona destas aqui pertinho de casa, tão bem escondida que eu nunca tinha visto, não fosse pelos ciganos que muitas vezes perambulam pelo supermercado, e pela placa de trânsito apontando o caminho:



Esse é a placa oficial, normalmente a gente percebe que está perto de uma área destas por causa destes sinais:

Ou desses:
"NÃO! ao projeto de àrea para dente itinerante..."

Bem, pois enquanto os políticos fingem resolver problemas, o papai aqui precisava recuperar a bicicleta do seu filho. Uma questão de honra!

Depois do almoço peguei o carro e fui procurar esses ciganos malditos! O plano era tentar encontrar a bicicleta observando a uma distância segura, e se a situação permitisse, recupera-la imediatamente, se não desse, dar queixa e voltar com a polícia (se a polícia tivesse tempo para mim).

Vesti minha jaqueta preta, coloquei uma toquinha de bandido e levei o Martin comigo para que me ajudasse na observação e para garantir que meu instinto paterno não me deixaria meter-me em uma encrenca de maiores proporções. Fomos primeiro de volta ao supermercado, com a esperança de encontrar a bicicleta jogada por lá, nada. Ao lado do supermercado tem um estacionamento abandonado invadido por ciganos, demos duas voltas nele observando, e nada. Então dirigi-me à "Aire de Gens du Voyage", seguindo a plaquinha a partir da rotatória do supermercado. Como se vê no pequeno mapa abaixo, a área fica realmente escondida entre o cruzamento de duas estradas secundárias. É possível identifica-la na foto aérea (quadro embaixo à direita da foto) mas passou completamente desapercebida durante os quase três anos que morei por aqui. A foto mostra a via secundária que leva nada a lugar nenhum, a plaquinha à esquerda e a entrada da zona a direita.


Bastou eu embicar meu imponente Renault elétrico no pequeno caminho que leva ao acampamento e imediatamente avistamos dois molequinhos, com uns 6 a 8 anos de idade (difícil dizer dada à estatura frequentemente sub-nutrida dos filhotes de ciganos), rodando em círculos sobre a reconhecível BMX laranja. Passei lentamente ao lado deles confirmando a identidade da bike e entramos no acampamento. Em meio ao acampamento mais crianças brincando e apenas dois homens conversando em um canto. Dei a volta apontando o carro já para a saída e sem desligar o carro saí para o confronto direto com os perigosos desconhecidos:

- Bom dia senhores - disse em meu eloquente Francês - esta bicicleta me foi roubada esta manhã no estacionamento do Auchan (o supermercado).

Os dois homens vieram imediatamente em minha direção explicando, em um Francê tão eloquente quanto o meu, que bem que eles haviam estranhado quando um menino sem braço passou aquela manhã pelo estacionamento deixando para as crianças aquela bela bicicleta. Pediram desculpas e me trouxeram a bike. Eu, em retribuição àqueles agradáveis senhores, pedi desculpas às crianças, que voltariam a ficar sem bicicleta, coloquei a bicicleta no porta-malas e voltei para casa, orgulhoso de mim mesmo, e perfeitamente consciente que tive mais sorte que juízo.

Fato é que apesar de aquela turma de gente itinerante não agir exatamente de acordo, a última coisa que eles querem é encrenca com a polícia. Eles sabem que vivem à margem da sociedade e que ninguém gosta muito deles. A polícia não gosta deles porque dão trabalho. O governo não gosta deles porque vivem segundo suas próprias regras e não dependem do governo. A população não gosta deles porque vivem segundo suas próprias regras e não dependem do governo. É quase que inveja, pois na verdade, aqui, ninguém gosta muito de ninguém mesmo, mas todos dependem do governo e dão trabalho à polícia, seja porque reclamam dos ciganos, ou porque reclamam dos vizinhos que também dependem do governo.

Bem, voltamos para casa com a bicicleta, com mais uma história para contar e com a convicção de que a vida realmente não é filme. Minha mulher ainda imagina que eu enfrentei um cigano do tipo Snatch:


O que realmente enfrentei foi isso:



Se cuidem, e tranquem bem suas bicicletas!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Les crétins et les lapins


Aqui em Tours 245km dos 400km das vias públicas pavimentadas são ou acalmadas (velocidade limitada a 30 km/h) ou possuem faixa exclusiva para bicicletas ou são ciclovias. Não é a toa que 7% da população economicamente ativa usa a bicicleta para ir ao trabalho.

Aqui, motoristas e pedestres estão habituados com os ciclistas, o que somente aumenta a segurança nas ruas. De fato há estudos que demonstram que o aumento no número de ciclistas nas ruas de fato diminui a incidência de acidentes com bicicletas, pois uma vez que o ciclista passa a ser norma, o motorista passa a antecipar sua presença. Bicicletas deixam de "surgir do nada" como habitualmente alegam motoristas que atropelam ciclistas "acidentalmente". Aqui, via de regra, o respeito e a antecipação imperam.

Mas a estatística diz que onde tem pessoas tem idiotas.

Segunda feira eu voltava do trabalho no final da tarde, pedalando por uma via acalmada (como já disse, velocidade máxima permitida 30 km/h). Eu pedalava forte. Não sei a que velocidade estava pois normalmente não uso "fredometros", mas imagino que estava bem perto dos 30, quando um carro atrás de mim me deu umas buzinadas.

Olhei para trás e notei que a condutora berrava e gesticulava com as mão algo que não fui capaz de compreender. Não falo libras, muito menos em francês. Então mantive minha posição e segui meu ritmo até parar no próximo semáforo.

Parado no sinal, o tal veículo encosta ao meu lado, abre a janela e a senhora vocifera comigo:

- Vous avez une piste cyclable, monsieur, pourquoi ne pas utiliser la piste cyclable?


A senhora evidentemente fazia referência à faixa pintada na calçada com desenhos de bicicletas que acompanha aquele trecho de via, e me perguntava nervosamente porque absurdo eu não a estava utilizando aquele privilégio urbanístico de primeiro mundo, mas meio que querendo dizer "ponha-se no seu lugar e saia da minha frente!".

É precisamente nesses momentos que eu odeio minha falta de fluência no dialeto humano local. Meu cérebro pensou clara e pausadamente "Vous avez une route parallèle, madame! pourquoi n'utilisez-vous pas la route parallèle?", mas de minha boca apenas saiu:

- Vous avez une route parallèle, madame! pourquoi tu num vá pá putaquetepariu?

O sinal abriu antes que a senhora pudesse tentar fazer senso do que eu disse e mais que rápido a cretina saiu acelerando para evitar de ter que andar a 30 km/h atras de uma bicicleta e andar a 30 km/h na frente de uma bicicleta.

Não me levem a mal. Eu normalmente uso as ciclovias e ciclo-faixas disponíveis, inclusive aquelas presentes naquele trecho em específico, mas existem situações quando eu prefiro andar na rua mesmo! No caso do trecho em questão, trata-se de uma ciclo faixa sobre a calçada, o que quer dizer que além de ter que negociar o espaço com pedestres, carrinhos de bebê, árvores e bueiros, é preciso também parar em cada cruzamento e negociar as guias dos meio-fios, que são rebaixadas suficientes para uma mountain-bike, mas não o suficiente para meus pneuzinhos de hipster. Tudo bem se você está passeando domingo com as crianças, mas quando você quer andar rápido é impraticável e perigoso. Na rua tenho a preferencial e vou na velocidade dos carros. É melhor para todos!

Não há uma lei que me obrigue a usar uma ciclo-faixa dentro de uma área calma, quer dizer que eu tenho o privilégio de escolher onde andar da mesma forma que os motoristas podem escolher dar a volta na área calma e exercer seu direito de acelerar suas caixas de aço a velocidades sobre-humanas longe dali (o que na verdade é também um privilégio).

Não sei se o problema é nossa cultura do automóvel, que induz algumas pessoas a acreditarem que seus bens privados de quatro rodas possuem mais direito ao espaço público que um cidadão em duas rodas, ou se é a probabilidade estatística do cretino, inevitável e, ao que tudo indica, em ascensão, mas tem dias que mesmo na minha pequena cidade ciclo-amigável é difícil de manter o otimismo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Dia D - Também quero falar do aniversariante!

 
Ontem foi o "dia D", aniversário de Charles Darwin, e tanto meu CaraLivro, quanto meu Piador, quanto meu feed de leitura do Blogger foram abarrotados de textos, memes e matérias sobre nosso finado herói. Tudo tão inspirador que não resisti dedicar parte de meu pouco precioso tempo para compartilhar alguns pensamentos e historietas a respeito.

No ano passado, quando fomos visitar a "Cité de Sciences et de l'Insdustrie" em Paris - meio que um museu de ciências mesmo - estávamos na entrada do museu, discutindo entre todos quais exposições cada um gostaria de ver, quando eu pulei à frente e disse - "EU QUERO VER A DO DARWIN!" (Darwin l'Original era o nome).

Nessa hora o Martin me pergunta: "Quem é Darwin?", e eu respondo rapidamente, dramatizando como apenas um pai nerd-super-excitado frente a uma visita a um museu é capaz de dramatizar:
- Darwin foi o cara que respondeu à pergunta mais importante do universo: "Qual o sentido da vida?"

Exagero? Talvez. Mas se pensarmos bem, Charles Darwin, com seu livro "Sobre a Origem das Espécies por Meio de Seleção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida" (sim, descobri hoje que este foi o nome completo do livro hoje conhecido como "A Origem das Especies") nos apresentou a primeira explicação sólida e plausível com respeito às origens de toda a variedade de vida na terra. Por sólida e plausível quero dizer: amplamente apoiada em evidências e re-confirmada por ainda mais evidências que foram surgiram mais tarde. Darwin publicou "A Origem" quarenta anos antes de que as pesquisas de Mendel sobre hereditariedade fossem descobertas, antes de surgirem as teorias de placas tectônicas e flutuação continental, antes da descoberta da genética e quase um século antes da Embriologia. E tem mais, Darwin coletou e estudou fósseis, mas até 1859, quando finalmente "A Origem" foi publicado, nenhum fóssil "humano" havia sido estudado.

Sim, algumas pequenas correções a ideias e proposições periféricas foram feitas, mas Darwin acertou em cheio no princípio fundamental: (1) a luta pela sobrevivência, (2) a diferenças entre indivíduos fazendo que alguns sejam mais aptos a sobreviver às pressões do meio que outros (e por isso a gerar mais descendentes) e (3) a transferência dessas diferenças à próxima geração, tudo isso ocorrendo ao longo de muitas gerações.

De tudo o que eu li ontem nas celebrações do "Darwin Day 2017" (leia-se blogs, links e posts sobre Darwin do dia de ontem) foi o detalhe sobre como alguns de seus manuscritos do "A Origem" sobreviveram ao tempo. Parece que apesar de Darwin ser extremamente rigoroso ao preservar suas amplas trocas de correspondências com amigos e outros cientistas (conhecidamente Wallace), ele não ligava muito para a preservação de seus manuscritos. Uma vez que o manuscrito foi impresso pelo seu editor, sua maior parte foi provavelmente destruída, sobrando apenas umas 45 páginas (das mais de 600 originais), mas muitas delas contendo desenhos e rabiscos seus e de seus filhos.

A página mais famosa é a onde Darwin rabisca a primeira árvore da vida "não Lamarckiana" (a que vem do conceito original e errôneo de Lamarck publicada coincidentemente no ano em que Darwin nascia, 1809) explicando a especiação e a extinção de espécies e suas relações com espécies ainda existentes.



Mas que eu mais gostei de ver é a batalha entre a berinjela e a cenoura, assinada por um de seus filhos (FD - Francis Darwin), que nos lembra que até os mais conceituados cientistas correm sempre o risco de terem sua lição de casa comida pelo cachorro ou destruída por um amado filho.



Voltando à porta da "Cité de Sciences", quando dei ao meu Martin minha resposta super-excitada com relação a Darwin e o "Sentido da Vida", lembro que minha mãe imediatamente retrucou: "Respondeu mais ou menos, né?"

Nessa eu soltei um de minhas frases-feitas: "Não é porque muita gente não gostou da resposta que a resposta não seja correta!".

Qual o sentido da vida? Sobreviver e copiar nossos genes.

Confesso que também considero a resposta muito mais frustante que inspiradora, mas é o que há! Se você quiser mais, invente teu sentido para a tua vida! Mas entenda que será só teu e de ninguém mais. E seja lá o que ele for, a realidade não vai te apoiar!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

R$4,25 está caro? - Primeira parte


O assunto agora, pelo jeito, é o aumento de preço das passagens de ônibus em Curitiba.

Desde que me conheço por gente, curitibanos se orgulham de ter o melhor sistema de tranporte público do país, mesmo sem muito utilizá-lo, mas não aceitam que o melhor normalmente custa um pouco mais caro.

Calma! Ainda não estou defendendo ou atacando ninguém, por enquanto estou apenas provocando.

Se o sistema de transporte curitibano é o melhor do país ou não eu não sei, mas me dói um pouco o peito imaginar que o melhor seja tão feio, sujo e desconfortável. Pegue as ruas esburacadas, lombadas por tudo, trânsito caótico e nervoso, poupação mal educada a some aos grandes monstros metálicos munidos de velhos motores movidos a um óleo diesel ultrapassado, fica realmente difícil de imaginar um resultado diferente.

A última vez que tentei usar o transporte público de uma maneira sistemática foi em 2009 ou 2010, quando tentei ir trabalhar de ônibus e não consegui sair do terminal da Barreirinha. De minha casa ao terminal poderia ter pego um alimentador, mas resolvi caminhar pois não chovia muito e no fundo a diferença de tempo seria pequena. Do terminal da Barreirinha tinha que pegar o "ligeirinho Tamandaré-Cabral" e no terminal do Cabral trocar para o "Inter2" que me deixaria literalmente na "China", o ponto a uma distância "caminhável" da fábrica onde trabalhava. Chegando no terminal da Barreirinha abri caminho em meio à multidão para chegar na fila do ligeirinho e desisti depois do terceiro ônibus passar e a fila avançar apenas um par de metros pois o ligeirinho já chegava cheio. Calculei que precisariam mais quatro ou cinco ônibus para conseguir entrar em um deles, saí e peguei um taxi.

Imagino que a coisa tenha mudado nos últimos 7 a 8 anos, mas não sei se para melhor ou pior. Imagino também que nem toda linha seja assim e que não sejam assim todo o tempo, fato é que a linha que eu precisava no horario quando eu precisava, não me serviu. Pelo que eu leio a respeito, de lá para cá a rede de transporte teve preços congelados, desintegrou-se com a zona metropolitana, reintegrou-se à zona metropolitana e os ônibus não foram devidamente renovados. E agora, a cereja no bolo, é a nova tarifa de R$4,25.

Se R$4,25 é caro ou barato eu não sei. Aqui em Tours uma passagem integrada (que permite a troca de ônibus/tram) custa 1,50 euros, com a diferença que se você pretende usar somente um ônibus/tram, você pode comprar uma passagem mais barata por 1,30 euros. Mas vamos lá, 1,50 euros são aproximadamente 5 reais, ou seja 18% mais caro que em Curitiba.

Mas porque será que aqui é mais caro?

Começamos com o diesel. Um litro de diesel, hoje, em Curitiba está custando cerca de 2,8 Reais (84 centavos de euro) aqui custa 1,1 Euro, ou seja, o Diesel aqui é 30% mais caro.

Continuamos pelos salários, o salário mínimo anual no Brasil, para 40 horas semanais de trabalho está em 3.660 dolares, na França em 20.071 dolares (fonte wikipedia), para 35 horas semanais. Ou seja, de uma maneira simplista, a mão de obra humana aqui custa mais de 5 vezes mais que no Brasil.

Nossos conhecidos articulados curitibanos


Continuemos com os veículos. No Brasil vocês sabem o que temos. A grande e velha tecnologia dos ônibus. Aqui temos pequenos ônibus elétricos cisrulando no centro, grandes ônibus "low-ride" pela cidade e um bonde super-moderno fazendo o eixo principal norte-sul.

Novo Tram, ou bonde, de Tours
Simpáticos elétricos que rodam pelo centro


Levando em conta outros números (fonte web site da URBS e do equivalente francês Filbleu), uma vez que a população, o número de usuários e as distâncias percorridas não são equivalentes, podemos chegar a um valor comparativo de faturamento por quilômetro:
- Passageiros/viagens por dia: 1.6 milhoes em Curitiba contra 93 mil em Tours.
- Quilometros percorridos por dia: 320 mil em Curitiba contra 28 mil em Tours.

FATURAMENTO POR QUILOMETRO = [Preço de uma viagem] X [número de viagens por dia] / [distância percorrida por dia]


Fazendo uma média bastante simplificada, mas que deve ter um significado real, esses numeros querem dizer que enquanto em Curitiba um ônibus fatura R$21,25 por quilômetro rodado, aqui em tours, um onibus fatura apenas R$16,60. Ou seja que aqui em Tours veículos melhores, mais limpos, modernos e confortáveis, com motorístas mais bem pagos (5x) e diesel mais caro (30%), faturam por quilometro rodado 20% menos.

Uma boa indicação de que ou tem alguma coisa errada com as minhas contas, ou que tem alguma coisa errada com a administração pública de Curitiba.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Coordenadas Politicas VI - Reabilitar Criminosos é mais importante que puni-los?



Começo desqualificando um pouco a pergunta pois, no fundo, punição não deixa de ser uma possível forma de reabilitação, mas claro, não é a única. Mas vamos deixar este ponto de lado por hora para  discutir o assunto sob uma ótica diferente.

Primeiro ponto que preciso esclarecer é a noção de "livre arbítrio". Apesar da ciência ainda não estar perto de uma compreensão completa de nosso cérebro, o pouco que já sabemos nos campos da física, química, bioquímica, biologia e neurociência nos permite afirmar que o livre arbítrio, no sentido realmente pleno do termo, não passa de uma ilusão. Seja como for que o nosso cérebro nos ajuda a tomar algumas decisões, ele o faz dentro de um universo operado por leis fundamentais, conhecidas ou ainda misteriosas, mas que determinam seu funcionamento. Isso quer dizer que tudo o que ocorre neste preciso momento dentro de nossa cabeça depende de interações físico-químicas determinadas que seguem essas regras fundamentais. Como não detemos o controle sobre estas regras, não podemos muda-las, dirtorce-las nem as desrespeitar, não podemos realmente controlar o que ocorre em nossas cabeças. Tudo o que existe no universo conhecido segue um mesmo conjunto de "leis", inclusive o nosso cérebro. Em suma, rebobine todo o universo, suas partículas, suas posições no espaço e condições energéticas para qualquer momento do passado, e tudo ocorreria exatamente da mesma maneira, inclusive todas as decisões humanas. Em filosofia, chamamos esta maneira de compreender o universo, de determinismo.

De um ponto de vista determinista, qualquer decisão que você tome hoje depende de quem você é hoje e de todas as variáveis que possam te influenciar no processos de decisão. Mas o que você é hoje depende de quem você era ontem e de todas as variáveis que influenciaram nas decisões tomadas de ontem para hoje. Siga esta lógica voltando no tempo e logo verás que ela te levará além do momento a partir do qual você passou a existir, ou seja, quando o você realmente não existia. Não existindo o você "zero", o você de hoje passa a ser nada mais nada menos que a soma de todas as variáveis que te influenciaram ao longo de sua vida, variaveis essas, completamente fora de teu controle. Esta é uma realidade difícil de aceitar, eu sei, porque temos realmente a sensação de estarmos no controle de nossos atos (fora excessões como o ato de comer chocolate assistindo TV), mas convenhamos, esta não é a única ilusão que sofremos no nosso senso comum. Nossa sensação de que a terra é plana, que o sol gira ao redor da terra, de que a emoção vem do coração, de que a matéria é sólida, de que realmente tocamos objetos, são exemplos de ilusões hoje reconhecidas como ilisões pela maioria (sera?)

Voltando agora à questão de justiça, da punição e reabilitação de criminosos, mas agora sob uma ótica determinista, vemos que ninguém pode ser culpado por seus erros nem receber méritos por seus acertos, uma vez que ninguém realmente detém o controle dos acontecimentos. Mas calma, isso também não quer dizer que, por isso, devemos deixar o mundo queimar no caos da impunidade, isso apenas muda a maneira de ver as coisas para uma maneira mais positiva e mais prática.

Uma vez que aceitamos a ausência de um agente real e moral por traz de uma ação, removemos da equação da justiça qualquer fator pessoal, ou seja, deixamos de punir ou repreender com intuito vingativo e passamos a ver a punição como uma ferramenta de construção social: de fazer do mundo um lugar melhor.

Por favor não confundam meu discurso determinista com o discurso vitimista. O discurso vitimista se apega à falsa suposição de que a sociedade é o agente, ou que o acaso é o agente, substituindo o sentimento de vingança por um sentimento de pena, que também não ajuda em nada. Uma pessoa que comete um crime (que desobedece uma regra social) e deseja permanecer no jogo social, precisa ser tratada como um problema a ser resolvido para que a sociedade possa se sustentar. Pode ser que a correção não seja imediata, pode ser que a correção seja impossível ou inviável, e nestes casos, a sociedade precisa ser sim protegida do dito criminoso, indefinidamente ou durante o período correcional.

Muitos mecanismos podem ser utilizados para proteger a sociedade durante o período correcional.

O criminoso poderia ser removido da sociedade para tratamento (sentença temporal) , ou na falta de um tratamento viável ou conhecido, permanentemente (prisão perpétua ou pena de morte). Mas dependendo do crime, a remoção da sociedade pode não ser necessária. Conheço gente perfeitamente normal que é incapaz de se comportar adequadamente quando dirige um automóvel! Tenho certeza que muitos de nossos políticos corruptos, se comportariam de uma forma perfeitamente aceitável se não tivessem acesso ao poder. Em casos como estes, a remoção do direito de conduzir, ou dos direitos políticos, poderiam ser soluções suficientes.  Existem também as penas educativas (multas, castigos) que podem ser muito eficazes na correção de contraventores! Quem aqui nunca fez birra, mas depois de passar duas horas de castigo na cama, percebeu que a birra não é a melhor ferramenta de negociação com os pais? Tem ainda a punição que tem o objetivo de corrigir ou mitigar os efeitos de uma contravenção: devolução de bens usurpados, pagamento de indenização a vítimas, etc. Há que se levar em consideração também o fator coercivo das penas. Pelo medo da punição, deixamos de fazer o que é errado. Enfim, a psicologia moderna nos oferece inúmeras alternativas, a justiça tem apenas que ser criativa e pragmática!

O problema é que tudo isso se transforma em idealismo quando a mecânica da administração pública não funciona. Tenho certeza que nosso código penal se baseia em princípios muitas vezes históricos, não científicos, ultrapassados, mas também em principios que funcionam. Não sou especialista nem sequer conhecedor do código penal. Em todo caso o que vemos no Brasil é uma grande incapacidade de aplicar nossos códigos existentes, da constituição federal a regimentos internos escolares, passando, certamente, pelo código penal.

As vezes tenho a impressão que toda essa discussão política é fomentada para nos animar a ignorar os problemas de fundo, nos animar a discutir o sexo dos anjos enquanto o mundo real segue girando como sempre. As vezes fico pensando se não deveríamos suspender por uns quatro ou cinco anos, dar férias (não remuneradas) a todo nosso legislativo, e dedicar nossa atenção e orçamento (20 bilhões de reais por ano!) para aprender a simplesmente seguir a as regras e leis existentes.

Que tal, primeiro aprendermos a jogar bola, para depois voltarmos a discutir e melhorar as regras?